22/09/10

TERMINUS 156: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA #1

O stress pode ser evitado se tivermos um bom despertador. Digo eu. O meu despertador é daqueles electrónicos. Acordo sempre com aquele irritante som do alarme. A primeira coisa que faço é desligá-lo. Quando isso não resulta, o melhor a fazer é pegar nele e atirá-lo contra a parede.
Gostava de ter um despertador que abrisse a janela do meu quarto e deixasse a luz do sol entrar devagarinho, que se aproximasse de mim e me tocasse gentilmente nas costas, suspirando no meu ouvido:
Acorda. Tens que ir fazer o teu serviço. O mundo precisa de ti.”
Já pensaram como seria ter um despertador assim? Sentir-nos-íamos mais importantes, não era? Ficávamos com mais ânimo ao levantar.
Quando eu era pequeno, o meu despertador era a minha mãe. Ela entrava no meu quarto, acendia a luz, puxava os lençóis para trás e gritava: “Vá! Toca a acordar!”
O problema não era puxar os lençóis. A mudança de temperatura não era muito importante. A não ser no Inverno. Costumava dormir com dois cobertores em cima e de repente ficava sem nada. Nada. Um lençol, dois cobertores e um édredon em cima e depois... nada.
O maior problema deste tipo de despertador era eu não poder colocar a minha mãe no modo standby. Seria tão bom, tão prático. Carregava no botão e a minha mãe ficava tipo estátua. O pior era se me enganasse e carregasse no snooze. Passado um bocado voltava tudo ao mesmo. Depois, lá acordava.
Tinha de ir de autocarro para a escola. Às vezes perdia o autocarro e tinha de ficar meia hora à espera do próximo. Não podia apanhar boleia de ninguém, porque a minha mãe dizia-me sempre para não aceitar boleias de gente estranha. E no sítio onde eu moro, o que não falta são pessoas estranhas.
Mas estas recomendações são bastante comuns. Os pais diziam sempre isso, não era? E os de hoje também. Às vezes, com razão. Quem ouviu isso enquanto filho, dá por si a fazer o mesmo aviso enquanto pai.
Não aceites boleia de estranhos. Se não tiveres dinheiro para o autocarro, chama um táxi que nós depois pagamos.”
Nunca ouviram isso? Eu gostava. Quando era novo, não prestava muita atenção, mas agora, pensando bem, é um pouco contraditório. Eu não podia aceitar boleia de estranhos, mas não havia problema nenhum em entrar num táxi, com um sujeito que eu não conhecia de lado nenhum, e dar-lhe dinheiro para ele me levar até à escola, ou até casa.
E se o taxista for um assaltante ou, mesmo, um assassino? Há umas semanas atrás, em Londres, um taxista passou-se dos carretos e matou várias pessoas a tiro. Temos a ilusão de que ele não nos vai fazer mal só por lhe estarmos a a pagar. Não é uma garantia muito segura, pois não?

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