26/09/10

TERMINUS 158: UMA COISA É OFENDER, OUTRA É CHAMAR NOMES

Têm sido muitas as vozes que se têm manifestado contra a pena de morte atribuída à iraniana Sakineh Ashtiani pelo crime de adultério. Pouco se pode dizer acerca deste caso que se contenha alguma comicidade. Já sobre situações paralelas, a história é outra.
Como é normal nestes casos de injustiça que ganham popularidade, às vozes do povo juntam-se também vozes de famosos e poderosos. Pessoas que, mais do que dizer, podem fazer algo para evitar que isto aconteça. A declaração mais recente veio da primeira-dama francesa, Carla Bruni, que defendeu publicamente os direitos da condenada Sakineh Ashtiani.
A parte engraçada vem agora, mas antes de passar isso, deixem-me fazer um pequeno aparte. O humor é contextual. O que, para nós, tem piada, para outra pessoa, pode não ter. A noção de crime e de ética segue o mesmo padrão. Continuando. Carla Bruni defendeu Sakineh Ashtiani. E o que é que aconteceu depois? O jornal Kayhan, assumindo-se como regente moral dos valores iranianos, referiu-se a Bruni como uma “prostituta italiana” que “merece a morte” pela sua “vida imoral”.
A piada está quase, calma.
Após as declarações de Bruni e do Kayhan, foi a vez do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad intervir. E ele interveio, considerando como crime, não alguém ser condenado à morte por cometer adultério APÓS a morte do marido, mas um jornal do seu país ofender uma dignidade estrangeira.
Que tipo de Islão permite isto?”, pergunta o Ahmadinejad. E com razão. A Carla Bruni é uma senhora atraente. Já a senhora Sakineh, talvez seja da roupa, mas não dá para perceber muito bem se o que está debaixo dos trapos é algo que faça um homem olhar para trás quando ela passa. Peço desculpa por ser tão insensível, mas é assim que as coisas são.
Não é uma questão de dizer se o que eles fazem no Irão é certo ou errado. Do nosso ponto de vista é errado, mas isso não conta para nada. A questão fulcral é: quais são as intenções de Ahmadinejad em relação a Carla Bruni? Parece-me que ele está a fazer-se ao lance. Por duas razões. A primeira, porque pode. No Irão, ele pode ter as mulheres que quiser; ainda para mais, sendo ele presidente. A segunda, porque Carla Bruni não tem estado nas notícias por fazer coisas muito acertadas.
O dia em que Carla Bruni chegue a casa e tenha os sacos do Modelo à porta poderá não estar muito distante. Ahmadinejad assim o espera. E quando isso acontecer, ela lembrar-se-á de quem considerou crime um jornal ofendê-la por ela ter defendido a vida duma mulher.
Estas são situações que podem gerar alguma controvérsia diplomática e que só pecam por tardias. Afinal, a silly season já terminou há quase um mês.

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