07/10/10

TERMINUS 159: QUASE UM QUARTOZINHO

 Eu acho que 23 por cento de IVA é um escândalo. De todas as medidas que podiam (e deviam) ter tomado, foram escolher a piorzinha de todas. Quase um quarto do que pagamos por um produto vai para os cofres do Estado. Mas isso tem algum jeito? Quase um quarto? Mas que raio de porção é essa? Ninguém vai a uma loja e pede quase um quarto de um quilo de batatas. Ninguém pede quase um quarto de água. Se querem parecer austeros, tomem atitudes austeras!
Como é que os senhores do estrangeiros vão passar a olhar para nós? Certamente com alguma pena, alguma desconfiança, diria mesmo algum repúdio. Este “quase” um quarto é indigno, é sinal de preguiça. Pior do que isso, topa-se à distância que é para enganar otários. Não está em causa que o objectivo primário é extorquir mais um bocadinho quem já está paupérrimo de recursos; o que falta (no meu entender) é uma certa subtileza. Podemos fazer as coisas à bruta ou podemos fazê-las com alguma elegância e aqui optámos pela elegânciazinha bruta.
Por toda a Europa têm-se propagado as medidas de austeridade; umas mais austeras do que outras. Não fomos dos mais austeros, é verdade, mas também não fomos dos mais desleixados. Há que ter em conta que a austeridade duma medida não se avalia só pela medida em si, mas pelo efeito que tem no país em que é implementada. Em certos países, as nossas medidas seriam uma lufada de ar fresco, noutros seriam um tiro na cabeça. O que coloca Portugal no ridículo é o facto de não nos mostrarmos com garra suficiente para fazermos um aumento do IVA a sério.
Eu preferia que não houvesse IVA, mas, não sendo isso possível, preferia que ele tivesse um valor mais baixo, tipo 10%. O 10 é um número bonito, tem qualquer coisa de mágico. Os 10 melhores, os 10 mais procurados, os 10 piores. Para o bem e para o mal, o 10 tem uma aura. Com o 25 sucederia o mesmo. Com algumas nuances. Além de ser também uma percentagem redonda, os responsáveis por essa medida podiam sempre invocar o 25 de Abril como justificação.
“O país atravessa uma grave crise financeira, económica e social. Numa sociedade em constante mudança, é preciso que todos deiamos as mãos e honremos os valores de Abril. O Governo acredita que a forma mais justa de equilibrar as contas públicas e, ao mesmo tempo, fazer uma homenagem a um dos acontecimentos mais marcantes da História de Portugal, o 25 de Abril de 1974, é aumentarmos o IVA para 25 por cento.”
Isto vai acontecer qualquer dia e eu não me importarei. Não me importarei porque já estou preparado para isso.Vai acontecer mais tarde ou mais cedo.
Não faço ideia se as medidas de austeridade são suficientes ou não para resolver os problemas do país nem me interessa. Não é falta de interesse da minha parte. Eu gostaria que os problemas do país (a começar por sermos um país a sério) fossem resolvidos. A questão é que este dinheiro não resolve os nossos problemas, resolve os deles.
Uma última nota, que tem pouco a ver com o tema, mas eu achei que ficava bem mencionar: Portugal não vende ouro desde 2006 e as nossas reservas valem 11,8 mil milhões de euros. O dinheiro que o Estado vai poupar com os três PEC é de 11,215 mil milhões de Euros. Nunca fui bom aluno a Matemática, mas parece-me que chegava para pagar qualquer coisinha. Infelizmente, quem toma conta do ouro quer antes tê-lo sossegadito no cofre e espreitar de vez em quando para ver se está tudo bem do que gastá-lo. Compreende-se porquê: o ouro é o único metal precioso que se reproduz em cativeiro.

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