28/10/10

TERMINUS 160: UM CENÁRIO MENOS QUE PERFEITO

As pessoas quando chegam a velhas ficam xexés. É certo que isto não acontece a todas. Há aquelas que ficam xexés pelo caminho, há as outras que morrem antes disso e há aquelas, raras, que mantém uma lucidez do mais lúcido que há durante toda a vida.
Na Lousã, por exemplo, está em julgamento o caso dum senhor que decidiu oferecer um jipe a cada um dos trabalhadores da sua fábrica. Os parentes do senhor não gostaram da sua atitude e levaram o caso a Tribunal. Neste caso, os xexés são os parentes, já que o senhor está morto há coisa de dez anos. (Eu acho que com o dinheiro que eles já gastaram em despesas de representação, tinham poupado mais em deixar o pessoal ficar com os jipes.)
Outro senhor que não sabia o que fazer ao dinheiro e resolveu oferecer 500 milhões de euros para uma Fundação, desde que a Fundação tivesse o seu nome: o senhor Champalimaud. A prova que o senhor estava xexé nos últimos momentos de vida, ou no momento em que resolveu fazer esse negócio, está no seguinte: 500 milhões de euros para serem geridos por Leonor Beleza.
Aos mais novos que me estão a ler, Leonor Beleza é uma senhora (à falta de melhor termo) que esteve envolvida num caso mui polémico. E perguntam vocês, Mas se ela está à frente duma Fundação destas é porque foi considerada inocente, certo? Errado. E tudo porque em Portugal o nosso sistema de justiça funciona da seguinte maneira:
Temos uma senhora (chamemos-lhe Leonor Beleza, só como exemplo), que como Ministra da Saúde em Portugal é responsável pelo que se faz nos hospitais portugueses. É verdade que isto não implica que a senhora ande a saltitar de hospital em hospital a ver se fazem tudo bem, mas obriga a uma grande dose de responsabilidade. Como a senhora não prestou a atenção que devia, houve senhores que fizeram dói-dóis e foram para o hospital levar sangue. Só que o sangue não estava bom, tinha bichinhos lá dentro, e as pessoas ficaram doentes e morreram. Ou estão a morrer.
Num país em que a Justiça funcionasse de forma rápida, esta senhora teria ido a julgamento e teria ido parar com os ossinhos à cadeia, onde lhe teriam feito em sentido literal aquilo que ela e seus colegas de Governo tinham-nos feito em sentido figurativo. Em Portugal o processo arrastou-se durante anos, até que chegámos a 2007 e o processo prescreveu de vez e a senhora ficou livre para dirigir uma Fundação.
Eu já visitei o novo Centro Champalimaud e devo dizer que, gerências à parte, achei que estava muito bonita. Está ali um bom investimento e estou certo que muitas coisas boas vão ser descobertas pelas pessoas que lá trabalham. Podem não ser necessariamente coisas relacionadas com a investigação científica; podem ser dois cientistas que se conheçam e que se apaixonem, pode ser um cientista que perca a carteira não sabe onde e depois volto ao laboratório e encontra-a dentro do microondas. Há tanta coisa boa que pode acontecer.
E há também as más. Eu não queria voltar a falar de coisas tristes, mas tem de ser. Só para fechar a loja. Ter Leonor Beleza à frente duma instituição que se propõe descobrir a cura para o cancro é arriscado e é evidência que alguém está xexé. Não é de longe o cenário perfeito. No entanto, é bem melhor do que colocar Leonor Beleza à frente do Instituto Português do Sangue.

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