29/10/10

TERMINUS 162: NÃO É BEM UMA SOLUÇÃO, E DAÍ NÃO SEI...

Há uns anos atrás as pessoas sabiam mais sobre menos assuntos. Não é que a informação fosse pouca, os meios para difundi-la é que eram escassos. Hoje, graças aos avanços da tecnologia, o acesso à informação é feito quase em tempo real. Se, por um lado, isso tem a vantagem da celeridade, por outro, implica alguma volatilidade das matérias indevidamente tratadas e, pior ainda, transforma aquilo que devia ser relevante em algo redundante.
Somos bombardeados com informação dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo em alguns casos. O termo “bombardeado” poderá parecer exagerado da minha parte, porém, acredito que é o que melhor se adequa para descrever o modo como a informação chega até nós. O mesmo assunto é abordado de vários pontos de vista; é analisado e esmiuçado até ao mais ínfimo detalhe. Se, em tempos quase idos, isso seria bom, hoje em dia os efeitos desse fenómenos são mais perniciosos do que benéficos.
Para quem, apesar de tudo, consegue manter um raciocínio claro e analisar os eventos à luz do que eles, de facto, são, a grande dificuldade é: o que escolher. A que matérias devemos dar importância? A informação é como os gostos, com a diferença de poder ser discutida se assim for necessário. Há matérias que são importantes para todos nós. O modo como elas são tratadas é que pode ajudar ou não à captação do nosso interesse. Por outras palavras, há assuntos que vêm na primeira página, há outros que convém ficar algures no interior do jornal, não se sabe bem onde.
A opinião pública é feita pelas manchetes e as manchetes são feitas pela opinião pública. É um ciclo vicioso que não se rompe, apenas se modela em algo novo. Quem se der ao trabalho de ler além do que está à superfície e procurar o que está nas entrelinhas e nos mini-artigos de canto de página encontrará, asseguro, informações, por vezes, surpreendentes.
Numa dessas leituras descobri que a China e a Grécia chegaram a um acordo para resolver o problema da crise grega. Como sabem, no tempo em que “estava tudo bem por cá”, a Grécia entrou numa crise financeira que obrigou à tomada de severas medidas de austeridade. Naturalmente, isso provocou um grande descontentamento junto da população. Só para terem uma ideia do nível a que chegou esse descontentamento, se tivesse acontecido cá as pessoas teriam chegado ao ponto de irem para a rua com cartazes (mas só a meio da manhã e só se estivesse bom tempo).
Apesar dessas medidas, o governo grego não conseguiu resolver o problema da crise financeira e teve de ir procurar apoio fora da União Europeia. Não sei de quem partiu a ideia. Se foram os gregos que foram à China pedir ajuda, se foram os chineses que viajaram até à Grécia, “Ouvimos dizer que precisavam de ajuda...”. Não faço a menor ideia. O que sei, o que li, é que a China vai assegurar apoio financeiro à Grécia para que esta consiga sair da crise. Em troca o primeiro-ministro grego terá ceder ao governo chinês uma participação nos grandes projectos de infraestruturas que o governo grego pretende lançar e terá ainda de interceder a favor do governo chinês junto da UE.
Para alguns, esta informação poderá não ter grande importância. A mim é um sinal de que devemos estar precavidos. A nossa situação não é muito melhor do que a dos gregos– nunca foi, apesar do que nos tentaram fazer crer – e tenho dúvidas de que sejamos capazes de resolver os problemas que há a resolver com as pessoas que estão à frente do poder. Também tenho dúvidas de que sejamos capazes de resolver os problemas com quem estiver atrás ou nos lados. Daí que considere a hipótese de a solução vir de fora.
Não sei se a vinda do FMI é boa ou má. Não sou economista ou analista político para avaliar essa situação. Mas, pessoalmente, não me desagrada a ideia de copiarmos os gregos e irmos pedir ajuda à China. Assim como assim, os restaurantes e as lojas chinesas (as lojas principalmente) estão por toda a parte e já me habituei a encontrar de tudo o que preciso a preços maravilha. Os produtos são tão baratos que, se a China tomasse conta disto e aplicasse essa ideologia em Repartições de Finanças seria possível comprar um impresso a 50 cêntimos em vez dos habituais 5 euros. É verdade que o papel seria de menor qualidade, o texto viria mal impresso e com alguns erros gramaticais, mas os nossos bolsos iriam apreciar essa mudança.

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