31/10/10

TERMINUS 163: TRABALHAR ATÉ MAIS(,) NÃO

 Sou talvez o vigésimo quinto a dizer que temos de apertar o cinto quando tal se prova necessário e, nessa qualidade, venho hoje falar-vos de um tema que muita polémica tem gerado, nomeadamente em França. Cá ainda não se notou muito porque, citando Teixeira dos Santos numa das suas duas entrevistas ao Financial Times, “o povo português é um povo calmo” (isto é, “corno manso”).
Deixem-me só fazer um pequeno à parte para vos contar uma cena muito gira. O Fernando, que parecia um pavão por ter dado duas seguidas ao Financial Times (duas entrevistas, entenda-se), caiu do pedestal para onde subira quando o mesmo jornal considerou-o o pior Ministro das Finanças entre dezanove países da União Europeia. Toma que é pra aprender!
Eu não devia brincar isto pois é certo e sabido que quando um Ministro das Finanças anda com má cara, quem se lixa somos nós. Basta pensar na Manuela Ferreira Leite e no próprio Cavaco Silva para perceber que não é bom sinal quando quem tem por função “ir-nos ao bolso” anda com cara de enterro.
Em França, a idade de reforma vai passar dos 60 para os 62 anos. Como seria de esperar, manifestaram-se vária reacções a esta medida. Destaco aqui as três que eu considero mais relevantes. Notem que isto não significa que sejam de facto as mais relevantes. Terão de confiar no meu julgamento. O que, devo dizer, não joga muito a vosso favor se querem fazer boa figura junto de pessoas importantes.
A primeira reacção veio da parte de quem trabalha e que não vê com bom olhos ter de estar a trabalhar mais dois anos além do previsto; a segunda veio de quem trabalha, mas não tem espinha para se manifestar; finalmente, a terceira, veio de quem propôs e aprovou a medida que não entende porque razão é que as pessoas se queixam tanto quando se pede qualquer coisinha.
A ideia partiu da Comissão Europeia que pretende que os estados membros estabeleçam a idade de reforma aos 70 até 2060. Recordo que a Comissão Europeia é presidida pelo senhor José Barroso, que em tempos veio atirar postas de pescada por Portugal ter ultrapassado o défice de não sei quantos por cento e blá blá blá, mais ou menos na altura em que era Primeiro-Ministro um senhor chamado Durão Barroso. O apelido é semelhante mas não têm nada a ver um com o outro.
A finalidade de ter as pessoas a trabalhar mais tempo é evitar a ruptura dos sistemas de pensões e a sustentabilidade das finanças públicas. Eu creio que, em vez disso, seria melhor fazermos oposto, isto é, anteciparmos a idade da reforma. Ou melhor, para quem tem estas ideias brilhantes, cortava-se o mal pela raiz: não havia trabalho para eles. Não que se possa chamar trabalho ao que eles fazem.
Puxando a perspectiva para o nosso Portugalzito, "Se nós aumentamos a longevidade por que não aumentar a idade da reforma, dado que somos mais activos. Hoje os 70 anos é o limite de trabalho activo na área pública e o direito à reforma é mais cedo, está nos 62,5 anos. Mas eu diria que aos 60 anos temos ainda muita capacidade e vontade de trabalhar. Isto merece uma reflexão", disse Ana Jorge, citada na rádio TSF.
Faz-me confusão que quem recebe milhares de euros por mês, que tem tudo e mais alguma coisa pago pelo Estado e que se reforma ao fim de poucos anos de, perdoem-me o uso indevido do termo, “trabalho” (ou não, se arranjar um cargo qualquer numa empresa pública ou privada que tenha favorecido durante o seu mandato), seja tão insistente em ter os outros a trabalhar durante tantos anos. Dizem que o exemplo vem de cima, e é verdade. Mas, olhando para quem nos governa, lamento que assim seja. Queria olhar com respeito para os nossos actuais, passados e, até ver, futuros governantes e representantes políticos. Só que é difícil. É difícil continuar a acreditar na ideia de “só mais um bocadinho, só mais um bocadinho e tudo vai ficar bem”. E vai. Mas podem ter a certeza de que não vai ser para nós.

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