29/11/10

TERMINUS 179: O CAVALO ESTÁ LÁ FORA

Nas minhas aulas de Filosofia no 11º ano recordo-me de ter lido e (tentado) analisar um texto cujo título era “A vaca está lá fora”. O texto expunha um diálogo entre três personagens, abrigados em casa numa noite tempestuosa, que discutiam se a vaca que eles viam a pastar sempre que ocorria um relâmpago estava sempre lá ou apenas quando eles a viam.
A que propósito é que eu trago isto à baila? Por nada.
Continua-se a discutir o Orçamento de Estado. Após a surpresa totalmente inesperada de PS e PSD terem chegado a acordo, surge agora a surpresa ainda mais inesperada de o PSD não ir votar favoravelmente as propostas de alteração ao OE feitas pela restante oposição. À direita, o CDS apresentou as suas propostas relativas a corte e controlo da despesa; à esquerda, o BE criticou o PS e o PSD por terem miaúfa do sector financeiro, o PEV disse que o PSD era cegueta e o PCP serviu-se da expressão popular “tirar o cavalinho da chuva” para criticar o PSD.
Por que razão é que os restantes partidos da oposição estão a criticar o PSD? Em teoria, faria mais sentido que um partido da oposição estivesse ao lado dos outros partidos da oposição ou, quando tal não fosse possível, contra o Governo. Eu só tenho 30 anos, mas percebi há muito que o PS e PSD só se opõem quando lhes interessa. E agora não lhes interessa. Não lhes interessa que a vida das pessoas vá piorar, desde que as suas regalias se mantenham ou melhorem. Podem invocar mil e uma razões – os mercados, a crise, o défice, a despesa, os gambozinos – para justificar as suas decisões, mas tudo se resume a uma palavra: mais. Querem mais e mais e mais.
A oposição – partidos de esquerda apenas – vive na ilusão de que tem força para travar isto. Assim como nós vivemos com a impressão de que o nosso contributo a cada quatro e cinco anos tem alguma relevância. Cada vez acredito menos que tenha. E é triste, pois gostava que tivesse tanto quanto é suposto ter.
Não sinto que estejamos a eleger os nossos melhores representantes. Sinto como se estivesse a ver um concurso de talentos infantis em que ganha sempre o miúdo que canta mal ou o outro miúdo que começa a chorar a meio do acto. Ganham sempre não pelo seu talento, mas porque a mamã oferece uma tarte de maçã ao júri.
O mesmo acontece com as eleições. Talvez o nosso voto conte mesmo, talvez não. Já não me interessa. Todos os anos é a mesma discussão sobre o OE e todos os anos o resultado é o mesmo. Agrada-me pensar que falta menos de um mês para o Inverno chegar. Gosto de pensar nas noites passadas no sofá, com o aquecedor ligado, vendo um bom filme ou lendo um bom livro, enquanto lá fora chove torrencialmente e as ruas ficam alagadas porque as sarjetas não são limpas. E às vezes até aproveito para observar o mundo lá fora e pensar se o país que vejo existe realmente ou apenas quando caem relâmpagos.

28/11/10

TERMINUS 178: DISSE E DESDISSE

É impressionante como nos centros financeiros se acompanha e sabe o que se passa em Portugal”, afirmou o ministro das Finanças, no Parlamento, antes da aprovação do Orçamento.
A mim o que impressiona é haver alguém capaz de perceber o que se passa cá. A nossa actual situação económico-financeira, em que de manhã precisamos de ajuda e à tarde já somos capazes de ajudar, é algo muito difícil de definir. Parece – não digo que é – um daqueles quadros a três dimensões em que é preciso olhar duma certa perspectiva para ver o avião ou a borboleta ou seja lá qual for a figura oculta. Nós estamos demasiado perto do problema para perceber ao certo qual é o problema, ou mesmo se existe um problema.
Por exemplo, os senhores do Financial Times da Alemanha consideram que Portugal está sob pressão para pedir auxílio ao FMI. Para quem está na economia mais estável da Zona Euro é normal que, olhando para o nosso Portugalito, nos considere necessitados de auxílio. Opinião contrária tem o Governo Português e a Comissão Europeia. (Que é presidida por um português que também já foi chefe de Governo e, como tal, responsável por parte da situação que neste momento não existe.)
Não surpreende ninguém que PS e PSD se tenham unido na aprovação deste Orçamento. A sua não aprovação, mais do que criar uma crise política, seria perigosa porque obrigaria membros dos dois partidos a assumir publicamente que tinham feito asneira. Como responsáveis principais pela actual situação, compreende-se que PS e PSD não queiram atirar pedras aos seus telhados.
Escutámos representantes destes dois partidos afirmarem que era necessária a viabilização deste Orçamento. Dada a presente situação, não havia alternativa viável. Estão por vir reformas estruturais, reformas laborais e outras medidas com vista à melhoria da competitividade. Dizem eles.
O mundo tem os os olhos postos em Portugal e a crise não é nenhum papão, é uma situação bem real. Vamos acreditar que sim. O que me anima é ainda ser possível encontrar sinais de um futuro promissor. Isto confirma-se pela seguinte história:
Era uma vez um senhor que disse “O País está a partir de agora melhor preparado para enfrentar os desafios com que se confronta”. Isto é a parte má da história. A parte boa é que isto foi dito por Teixeira dos Santos, logo, é possível que, no momento em que esteja a ler isto, esta afirmação seja cem por cento verdadeira.

27/11/10

TERMINUS 177: CAMARATE! AGAIN?

 Gosto muito dos sinais que anunciam a chegada da época natalícia. Para algumas pessoas são as luzes e as músicas de Natal; para outras são os anúncios a brinquedos; para outras o Harry Potter. Para mim, os meses de Novembro e Dezembro são sinal de... Camarate.
Camarate está para a vida política portuguesa como um acidente de viação está para os curiosos que vêm na faixa contrária. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas todos param para ver. Porém, há uma diferença clara entre Camarate e um acidente de viação. No acidente de viação, quando se descobre quem é o culpado, leva-se a pessoa a julgamento, condena-se a pessoa e fica o caso rsolvido. No caso Camarate, o culpado pode até assumir-se publicamente, mas a investigação continua como se ninguém tivesse dito nada.
Há dois anos atrás, se não me falha a memória, houve um senhor que se assumiu como autor material do atentado que vitimou Sá Carneiro e Amaro da Costa. Fê-lo, não para aliviar a sua consciência pesada, mas porque o crime já tinha prescrito.
Durante décadas não faltaram teorias para explicar o que teria acontecido ao certo; assim como não devem ter faltado “culpados” que se entregaram às autoridades em busca de alguma fama. José Esteves, aka “Sou Zé”, é um caso diferente. Não sei que provas apresentou, se é que as apresentou, para sustentar as suas declarações de culpabilidade. Uma vez que é vidente, é possível que tenha previsto a melhor altura para se anunciar como culpado sem que lhe acontecesse nada. Ou então os investigadores querem concorrer ao Guiness Book of Records com o maior enrolanço de sempre.
Escrevo este texto no dia 27 de Novembro, dois dias antes do lançamento do novo livro de Freitas do Amaral sobre Camarate, intitulado Camarate – Um Caso ainda em Aberto. O foco deste livro vai ser o Irangate, o caso de tráfico de armas entre Estados Unidos e os participantes na guerra Irão-Iraque. Por outras palavras, tudo serve para vender.
Seja o senhor bruxo culpado ou não, o que é que isso interessa se o caso já prescreveu? Mesmo que se prove, sem sombra de dúvida, que pessoas ligadas ao Governo conspiraram para matar o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa de modo a proteger o seu negócio, o que é que isso interessa? Alguém acredita que sejamos capazes de ir pedir satisfações aos Estados Unidos e ao Irão? Estamos a falar de países com capacidade nuclear, países capazes de nos obliterar por completo. Pode parecer tentador para alguns de vocês, mas para mim não. Estou bem assim.
Este país não vai para a frente a empatar desta maneira. É altura de um novo atentado. Senhores políticos, continuem assim. Vontade de pôr uma bombinha em São Bento não falta a muita gente. E se começarem a insistir muito em atirar as culpas para cima dos nativos da terra do senhor Ahmadinejad, é quase certo que alguém vai receber uma encomenda de Teerão. E não vão ser biscoitos.

TERMINUS 176: QUASE TRANSPARENTE

A Cimeira da NATO já passou e correu tudo bem da nossa parte. Fomos bons anfitriões, cordiais, diplomáticos. É verdade que os blindados só chegaram dois dias depois da Cimeira ter terminado e de os convidados terem regressado a seus países, mas não podemos olhar apenas para o lado mau da questão.
Eu sei que é tentador falar mal. Por vezes, eu próprio faço isso. Ignoro os aspectos positivos que possuímos e hiperbolizo tudo o que de negativo nós temos. E isso está errado. Nunca iremos para a frente como país, como povo, enquanto não nos abraçarmos as nossas qualidades e assumirmos os nossos defeitos. Sim, temos defeitos. Eu tenho defeitos. Você, leitor ou leitora, tem defeitos. É tempo de assumirmos isso.
Dito isto é com grande orgulho que vos comunico, àqueles que ainda não o sabem, que Portugal subiu para a 32ª posição no 'Índice de Percepção de Corrupção', relatório publicado anualmente pela Transparência Internacional. Em 178 países nós estamos em 32º lugar! Não é bom? Em 2009 tivemos um percalço e descaímos para a 35ª posição, mas conseguimos dar a volta por cima.
Somos dos países europeus mais corruptos. Embora não corruptos o suficiente para ter lugar no top dez. Na Europa Ocidental somos dos piores que estão na tabela. E porquê? O que é que nós temos ou fazemos que nos garante um lugar numa posição tão cobiçada como a 32ª? Os analistas dizem que são as nossas leis “herméticas”, um aparelho de Justiça que “não funciona” e resultados “nulos” no combate à corrupção.
Vamos considerar cada uma destas razões isoladamente.
Comecemos pelas leis “herméticas”. Dos vários significados que a palavra “hermética” possui, destaco este:

hermético 4 p. ext. difícil de entender e/ou interpretar; obscuro, ininteligível

A linguagem utilizada nas nossas leis não é compreensível por todos. E por uma razão muito importante. Se todos compreendessem o que dizem as Leis, não precisaríamos de advogados, nem de juízes, nem de nenhum profissional que vive à custa de interpretar legislação. Os números do desemprego crescem de dia para dia. Simplificar a linguagem legislativa iria apenas piorar uma má situação.
Saltemos para a terceira razão: resultados “nulos” no combate à corrupção. Novamente, insiste-se em olhar apenas para o lado mau da questão e ignorar o lado bom. Resultados nulos é o mesmo que dizer que não aconteceu nada. E se nada aconteceu, porquê falar do assunto? Ninguém ganhou, ninguém perdeu. É como pensarmos em andar à porrada. Na nossa mente somos sempre os vencedores e é isso que importa.
Por fim, temos o aparelho de Justiça “que não funciona”. Aqui vou ser alegórico. A Justiça é uma mulher. Qual é o aparelho que, ao deixar de funcionar, deixa uma mulher irritada? A minha proposta? Façam uma vaquinha e comprem pilhas. Acreditem em mim. Quando a senhora dona Justiça estiver satisfeita, ficaremos todos bem melhor.

26/11/10

TERMINUS 175: À ESPERA DE

Sempre que faço compras pela Internet gosto de receber as coisas a tempo e horas. Se no site diz que demora entre 48 horas e já passa das 49 horas, eu começo logo a ligar para lá a perguntar o que se passa. Não vá alguém se ter esquecido de colocar o selo na embalagem e esta ter ficado perdida numa estação dos CTT no Cabo Ruivo.
É assim que se faz, senhores do Governo que organizou esta Cimeira da NATO. Quando se gasta dinheiro numa encomenda e a encomenda não chega, exigem-se explicações. E não digo declarações do género,
“O Governo irá analisar o que aconteceu e proceder da forma que achar mais adequada.”
O que aconteceu foi que o Governo Civil de Lisboa abriu concurso para a adquirir seis blindados para a Cimeira da NATO e o primeiro blindado só cá chegou um dia depois da Cimeira ter terminado. Ainda bem que nós não comemoramos o Dia de Acção de Graças. Arriscávamos um incidente internacional ao ter cá o Obama para jantar e o peru só estar pronto na semana seguinte.
Eu sei como é. Às vezes, quando faço as minhas encomendas, estou ciente de que podem haver atrasos na entrega. Quando produtos que vêm de outros continentes é normal que isso aconteça. Por outro lado, as minhas encomendas nunca ultrapassam os 50 euros e raramente atingem esse valor. O Governo Civil de Lisboa disponibilizou mais de 1 milhão de euros em material que não chegou cá quando devia. O mínimo que se exige era o senhor Governador ir à varanda e dizer a quem passasse,
“Olhe vizinha, então não é que gastei 5 milhões nuns blindados e os sacanas não me entregaram aquilo ainda?”
E a vizinha depois ia contar a toda a gente, que é isso que as vizinhas fazem. Aposto que os senhores dos blindados iam ficar com as orelhas a arder duma maneira que não tardariam a reconhecer o erro que haviam cometido.
Apesar destes incidentes, o que me está a fazer espécie não é o atraso na entrega. São as contas. O Governo Civil de Lisboa disponibilizou 5 021 494,78 euros para a aquisição de material; desse dinheiro gastaram 1 080 000 euros na compra dos seis blindados que ainda não chegaram e mais 714,924 euros em outros materiais. O total de despesa apresentado foi de 1 722 924. Mas se fizermos as contas, verificamos que o que se gastou realmente foi 1 794 924. Houve 72 000 euros que alguém pôs e eu não sei quem foi.
Mas há mais. Pelas contas oficiais, sobraram 2 704 000 euros; pelas minhas sobraram 3226570,78 euros. A diferença é de 522570,78. Ou eu não sei fazer contas (o que é possível), ou alguém anda a meter dinheiro ao bolso ou então é dos portes de envio. Se for daí é bom sinal. É sinal que mandaram vir os blindados de Júpiter. Fico contente. Embora preferisse que tivessem vindo de Plutão, planeta que regia o meu signo até pisar o risco e ter sido despromovido a calhau.

25/11/10

TERMINUS 174: É PRECISO DAR USO ÀS COISAS

Nós temos um jeitinho do caraças para ter as coisas e não as usarmos. Passamos em frente a uma loja, olhamos para a montra, e vemos algo que sabemos algo que sabemos não ter qualquer utilidade para nós. Uma biografia de José Sócrates, por exemplo. O livro custa 27,53€ e nós pensamos, “Porra! Dar quase trinta euros por isto! Nem pensar!”
No dia seguinte, ou na semana seguinte, tanto faz, passamos em frente à mesma montra e constatamos que o preço do livro baixou para 24,77€. Sem hesitar, entramos e adquirimos um exemplar que, ou fica guardado num caixote ou vai servir de calço.
Neste caso, o produto adquirido acabou por ter uma certa utilidade. Porém, não se pode dizer que isso aconteça sempre. E isto é normal acontecer, não só em Portugal, como no mundo. Há coisas que não têm qualquer utilidade, mas há outras que têm. E o problema é não serem utilizadas quando é devido.
Há cerca de um ano atrás que a Polícia Judiciária e o Ministério Público coordenam o Gabinete de Crise do programa "Alerta Rápido de Rapto de Menores". Este programa foi criado para ajudar à gestão de casos de desaparecimentos de menores e, apesar de todos os casos que têm acontecido desde então, nunca foi accionado. O que é uma pena.
Tive oportunidade de ler o programa e só tenho coisas boas a dizer sobre ele. O corpo do texto está num tamanho aceitável. É suficientemente grande para ser legível, mas não ao ponto de nos levar a pensar que tinham pouca coisa para dizer e fizeram aquilo em tamanho 16 para ocupar o máximo de páginas possível. O tipo de letra escolhido foi o Euphemia, o que revela um certo arrojo por parte dos organizadores deste programa. Quanto à encadernação, optou-se pela encadernação térmica. O que justifica o pouco uso dado ao documento. Como ex-funcionário dum Centro de Cópias, sei que a melhor opção de encadernação para documentos destinados a uso constante é a encadernação com argolas de metal.
Além da forma, o programa "Alerta Rápido de Rapto de Menores" tem também aspectos positivos quanto ao seu conteúdo. Quando aplicado (em teoria, já que nunca foi aplicado), emite alertas nas televisões, rádios e autocarros a cada quinze minutos. Isto a mim confunde-me um pouco. Por um lado, é sinal de que estão a fazer qualquer coisa para encontrar a pessoa desaparecida; por outro, parece algo que fazemos uma vez, deixamos em modo automático e vamos para o café beber imperiais.
Pedro do Carmo, responsável pelo Gabinete, diz que nos dezasseis meses de existência do programa não foi ainda detectado nenhum desaparecimento que “observe as premissas básicas para accionar o sistema”. Para que o alerta seja accionado é necessário que se trate de um rapto ou sequestro e não de rapto parental ou simples desaparecimento. Ser raptado por um parente não é o mesmo que ser raptado? Parece que não. E se tiver mais de dezoito anos, bem pode esperar.
Pelos vistos ser raptado obedece a uma série de pré-requisitos que, quando não verificados pelas forças de investigação, levam a que o nome seja colocado em lista de espera. A PJ diz que está tudo a postos, caso seja preciso. Basicamente, é como termos uma caixa de chocolates que só abrimos quando está perto do fim do prazo de validade.
Os responsáveis do programa dizem não sentir qualquer frustração por nunca terem posto em prática aquilo que demoraram tanto tempo a conceber. Eu sei o que é isto. Na Escola acontecia-me o mesmo quando tinha de apresentar algum trabalho. Tinha segurança no que tinha escrito, mas temia o momento de apresentar publicamente as minhas ideias. Enquanto fosse algo destinado apenas aos olhos do professor, colegas de Departamento, outros professores, amigos e familiares, estava tudo bem. Quando tinha de explicar as minhas ideias aos meus colegas, era complicado.
Pedro do Carmo diz ainda que o "Alerta Rápido de Rapto de Menores" é como "uma técnica avançada para tratar uma patologia muita grave, mas que queremos que nunca seja usada". É sem dúvida um bom programa em papel. Talvez um dia se descubra se funciona mesmo.

23/11/10

TERMINUS 173: A EVOLUÇÃO NEGATIVA

Não sou nenhum especialista em economia, excepto naquela que pratico ao nível dos recursos domésticos. Tenho amigos que são e, sempre que tenho uma dúvida sobre qualquer declaração feita pelo nosso Ministro das Finanças, sei que posso recorrer a eles para me esclarecer. Acontece que eu não gosto de andar a chatear as pessoas a toda a hora e a todo o instante. E, com tudo o que se passou com o Orçamento de Estado, todas aquelas discussões e impasses e propostas e contra-propostas, tive de tomar uma decisão.
Passei a assistir a essas declarações sozinho. Sem telemóvel à mão para contactar alguém que me elucidasse acerca do que estava a ser dito. Sem alguém que soubesse dar sentido àquelas confusas palavras.
Porque o problema está aí. Nas palavras. As palavras são confusas. Ou melhor, as palavras são simples, mas são combinadas de modo a que resultem em frases confusas. Frases confusas que poucos percebem.
Critica-se muito este Governo e outros anteriores e posteriores sobre o estado da Educação no nosso país. Entende-se porquê. Se os portugueses fossem bons alunos a Português e a Matemática, não só entenderiam aqueles malabarismos de aritmética que o Teixeira dos Santos executa, como também reparariam nos graves atentados linguísticos que acontecem com frequência.
Um desses atentados ocorreu tantas vezes que fiquei quase convencido de que não se tratava duma gralha. O senhor Ministro das Finanças acredita mesmo na exactidão dessa expressão, que é “A despesa evoluiu de forma negativa.”
Há um fenómeno curioso sobre as mentiras. Uma mentira dita por muitas pessoas, às tantas passa a ser uma verdade. É o poder da sugestão, ou da influência. Ou talvez seja instinto de sobrevivência básico. Sobre a expressão “A despesa evoluiu de forma negativa.” o erro salta à vista. Nada evolui de forma negativa. Falar de evolução é o mesmo que falar de progresso porque muda-se para algo melhor. Quando se muda para algo pior, ocorre um retrocesso, logo uma involução.
Eu entendo o uso da expressão. A maioria dos portugueses não estará familiarizada com o terno “involução”. E aqui voltamos ao problema do Português na Escola.
Há dias assisti a um debate com representantes dos cinco partidos com assento parlamentar e reparei que estes problemas de linguagem são comuns a mais deputados do PS e seus conterrâneos do PSD. O deputado do PS serviu-se da expressão “anátemas negativos” para sustentar um argumento, enquanto que o deputado do PSD (um senhor com dificuldade em distinguir EPAL da EPUL) hesitava na conjugação dos verbos pôr e colocar no Condicional. Começava por dizer “poria”, alterando logo para “poderia pôr”.
Continuo a assistir aos debates do Orçamento. Já vou percebendo mais ou menos o que é que eles querem dizer sobre as matérias macro e micro-económicas. Apesar disso, a situação mudou um pouco. Agora são os meus amigos que me ligam para que eu lhes explique o que significa uma “involução positiva da receita”.

22/11/10

TERMINUS 172: DIA MUNDIAL DO QUE FOR

Hoje é dia 21 de Novembro e tenho quase a certeza que este dia é o Dia Mundial de... qualquer coisa. Tem de ser. Aqui há tempos, deu na televisão uma reportagem sobre o Dia Mundial do Ovo. E não, não foi no dia 1 de Abril. Eu, às vezes, costumo deixar algumas notícias para trás, mas esta não foi uma dessas ocasiões. Foi no dia 8 de Outubro que se “comemorou” isto.

Qual é o meu problema? Eu não tenho nada contra o Dia Mundial do Ovo. Eu gosto de ovos, gosto deles estrelados, mexidos, cozidos, gosto de omeletes. Mas faz-me impressão que se assinale tanta efeméride. Pra quê? Os criadores de aves não passaram a vender mais ovos porque alguém lembrou-se de declarar o dia 8 de Outubro como o Dia Mundial do Ovo.

E quem foi essa alminha esperta? Não se sabe? Sabe-se pois. Foram os senhores da IEC. É parecido com o som que fazemos quando descobrimos um ovo podre, eu sei, mas é na verdade a sigla de International Egg Comission. Uma Comissão Internacional de Ovos. E depois dizem que esta humanidade perdeu o seu rumo. E com razão.

Há cenas que merecem ter um dia próprio. Há outras que, lamento muito, não merecem. Não porque sejam irrelevantes, nada disso. O ovo é importante e são válidas as justificações a que os promotores deste dia recorrem. Só que não é algo que mereça um Dia Mundial. Isto é assim porque, nem toda a gente gosta de ovos e nem toda a gente pode comer ovos. Há ainda, para aqueles que não se lembram, algumas zonas deste nosso lindo planeta onde as pessoas não têm sequer gravilha para comer, quanto mais ovos.

Um dia dedicado ao coração, por exemplo, é algo que, sim senhor. Todos nós temos coração e não falo em sentido romântico, falo no sentido orgânico do termo. Todos nós temos coração ou algo que faz as vezes de coração. Dedicar um dia ao coração é importante. E reparem bem, eu disse um dia. Se é parvo dedicar um dia a coisas que não interessam, dedicar vários dias a qualquer tema, por muito importante que seja, também não me parece boa ideia.

Reparem, nós temos o dia 14 de Fevereiro que é, ao mesmo tempo!, o Dia do Doente Coronário e o Dia da Insuficiência Cardíaca (e é também o Dia dos Namorados e o Dia Europeu da Disfunção Sexual; tudo a ver com o coração, portanto). Temos também o dia 31 de Março que é o Dia Nacional do Doente com AVC e o dia 29 de Outubro, que assinala o Dia Mundial para a Prevenção dos AVC. Não sei o que é que vocês acham, mas parece-me mal pensado colocar a prevenção antes do AVC propriamente dito.

A não ser que tenham sido portugueses a elaborar isto. Basta pensar na sinistralidade rodoviária para ficarmos conscientes de que só nos preocupamos com a prevenção quando já não há nada a prevenir.

Uma última nota, os Dias Mundiais oficiais vêm todos listados no site da UNESCO. Tudo o resto, incluíndo este do Ovo, é para enganar otários. A propósito, sabia que hoje é o Dia Mundial do Tetra Pak?

20/11/10

TERMINUS 171: NÃO Á TRANSITO OJE

A Cimeira da NATO vai começar hoje e eu estou contente por Portugal ter sido escolhido para albergar tal evento, embora não consiga perceber exactamente porquê. Os grandes jogadores do xadrez geopolítico internacional vão se reunir cá e, sim senhor, é muito bom, mas...
O problema não está no catering. Nisso, nós somos bons. Podemos estar a semana antes ou a semana depois a descongelar sopa a cada refeição, mas enquanto os convidados cá estiverem é uma fartazana que só visto.
Mais vinho! Mais caviar! Eh! Cuidado que o gajo da TVI 'tá a filmar! Escondam as ostras, mostrem só os rissóis!”
Lisboa vai ser uma cidade sitiada durante este fim-de-semana. A Segunda Circular vai estar cortada, o Eixo Norte-Sul também, o IC qualquer coisa, a CRIL, a CREL, a DREL. (Por mais que tente não consigo esconder a minha ignorância em relação às nossas estradas. São demasiadas siglas.) Há voos com destino ao Aeroporto da Portela que foram cancelados; foi restabelecido o controlo nas fronteiras terrestres; veículos nas principais vias de acesso são revistados, assim como os seus condutores e ocupantes.
A Cimeira vai decorrer durante este fim de semana, sabe-se há meses que Portugal ia ser o país escolhido. Quando é que se começou a fazer este controlo de segurança? Há uma semana atrás.
Senhor Primeiro-Ministro, tenho aqui o plano de segurança para o senhor Primeiro-Ministro ver.”
Plano do quê? Tem alguma coisa a ver com o Freeport?”
Não, senhor Primeiro-Ministro. É o plano de segurança para a Cimeira da NATO.”
Cimeira da... Ó homem! Isso é só daqui a não sei quantos meses. Temos tempo.”
Tem a certeza, senhor Primeiro-Ministro?”
Tenho, tenho. Vá-se lá embora. Ah! Antes que me esqueça, adicionei-o no Facebook.”
Muito obrigado, senhor Primeiro-Ministro. Vou já confirmá-lo como amigo.”
Desculpem lá. Entusiasmei-me com esta situação hipotética que, vistas bem as coisas, não está assim tão longe da realidade. Uma semana antes da Cimeira é que começam a vigiar fronteiras, a revistas veículos e a passar com o algodão a ver se tem pó?
Eu não quero ser alarmista, mas... eles, os tais terroristas, já cá estão há muito tempo. Todavia, não estou muito preocupado com isso. Não aprovo o que o Bin Laden e trupe fazem, mas nunca fui directamente afectado por isso. Já conheci pessoas que os usam como desculpa para tudo.
Desculpa querida, estas notícias da Alquaeda...”
Não faz mal querido. Acontece a qualquer um.”
Senhores de pele crestada e barba rala que rezam a Alá não me incomodam. Sejam terroristas ou não. Incomoda-me mais um outro grupo de terroristas, porventura mais nocivo. O seu objectivo é causar o terror junto das pessoas e deixá-las dóceis e desprovidas de vontade para que não contestem nada, aceitem tudo. Sejam aumento de impostos, sejam reduções salariais, o que for. São fáceis de identificar. Usam fato e gravata e vêm cá passar o fim de semana.

19/11/10

TERMINUS 170: QUERO MAIS DESEMPREGO

As políticas do Governo em relação ao desemprego não me agradam. Parecem-me claramente insuficientes para fazer face à presente conjuntura. Não pretendo aqui elaborar quaisquer argumentos e/ou teorias que possam solucionar este problema. Além de não ser isso que as pessoas esperam de mim, não estou propriamente interessado em ver o problema resolvido.

Passo a explicar.

Quando eu digo que não me agrada a política do Governo em relação ao desemprego, não é no sentido da taxa de desemprego estar muito elevada, e sim no sentido de não estar elevada o suficiente para nos possamos gabar disso. Não adianta acreditarmos que vamos conseguir acabar com o desemprego e arranjar trabalho para toda a gente. Enquanto ainda acreditávamos no Pai Natal e na Fada dos Dentes, podia ser que sim; agora não que já somos crescidinhos. Já é altura de nos comportarmos como tal.

Tentamos camuflar as nossas falhas, manipular os números até que estes representem apenas aquilo que nós pretendemos e não aquilo que, de facto, representam. Em Portugal não somos capazes nem do oito, nem do oitenta, andamos lá pelo meio. A nossa taxa de desemprego não é a mais elevada da Europa. Não é a mais elevada da Zona Euro. Porra! Não é sequer a mais elevada da Península Ibérica!

Isto é desmotivador. Nós merecíamos mais e melhor empenho da parte de quem nos governa. Merecíamos estar no top. À luz das políticas aplicadas por sucessivos Governos, está visto que o objectivo é aumentar o desemprego. Apliquem-se! É assim tão difícil facilitar o despedimento? Não creio.

No Brasil existe um clube de futebol que tem orgulho de ser o pior clube de futebol do mundo. E eu acho que é isso que nós precisamos para melhorar a nossa auto-estima. Podem dizer que isso deixa as pessoas tristes e deprimidas. Óptimo. Ainda bem. Nós precisamos de pessoas tristes e deprimidas. Principalmente se souberem cantar fado. Sempre ajudaria a aumentar as nossas exportações.

Tem-se falado muito dos trabalhadores da Groundforce. Trezentos e tal trabalhadores em risco de despedimento é muito pouco. Trezentos mil seria um número mais aceitável. No entanto, continuaria aquém das nossas capacidades e daquilo que é desejável. Falam dos que podem ir para o olho da rua, mas estão-se nas tintas para aqueles que vão continuar a ter de acordar cedo para ir trabalhar.

O que eu vou dizer agora vai deixar muita gente chocada. Paciência. Não se pode falar destes assuntos de forma eufemística. Cá vai. As pessoas que trabalham só têm hipótese de andar o dia inteiro de pijama ao fim-de-semana. Os desempregados podem andar o dia todo. Até podem vir à rua assim se quiserem. Estar desempregado é uma alegria, deixa as pessoas bem-dispostas e com tempo para tanta coisa. Cortar os pulsos, tomar banho com uma torradeira, dormir a sesta numa linha férrea. Enfim, o tipo de coisa que uma pessoa faz quando não tem nada para fazer.

17/11/10

TERMINUS 169: QUANDO O TICO E O TECO SE ZANGAM

Ando preocupado com o Tico e o Teco da senhora Ministra da Saúde. Para quem não sabe do que eu estou a falar, Tico e Teco é uma forma querida de nos referirmos aos dois únicos neurónios que algumas pessoas possuem. Quando estão bem um com o outro, o que sai não é nada por aí além; quando estão zangados, aí é mesmo para esquecer.

E porque é que eu ando preocupado com o Tico e o Teco da senhora? Aqui há dias, a senhora Ministra da Saúde disse o seguinte:

'Houve uma corrida às farmácias motivada pelas próprias que telefonaram para casa dos clientes dizendo que as comparticipações dos medicamentos iam ser alteradas, portanto era bom que fosse aviar para mais tempo'

A Anita acha que isto é 'um comportamento pouco cívico' por parte das farmácias e chama a atenção para a cena das comparticipações. 'Quanto mais caro venderem, mais ganham',

Comecemos pelo básico. As farmácias não se comportam. Quem se comporta são... aquela coisa, como se chama? Ah!... os seres vivos. As farmácias, quanto muito, comportam pessoas, mas não se comportam como pessoas; muito menos telefonam para elas. É uma ideia completamente disparatada. Um talho telefonar para o fornecedor, ainda vá que não vá, uma farmácia não.

Depois o que é que temos? Temos uma falha gramatical - '(...) telefonaram para casa dos clientes (...), portanto era bom que fosse aviar para mais tempo' – que não vou dizer qual é, porque não é obrigação da Ministra da Saúde conhecer conceitos básicos de gramática. Isso é competência da Ministra da Educação, como se pode ver por uma expressão dita na Abertura do Ano Lectivo 2010/2011: 'é preciso que comam coisas que lhes fazem bem'. Concordo. E é preciso que facem também os deveres.

Continuemos. As farmácias telefonaram para casa dos clientes para eles irem fazer um avio grande. Há duas ideias a reter desta afirmação. (Eu não chamo ideia ao senhora disse porque, para ser ideia, era preciso que tivesse pensado antes de abrir a boca.) A primeira ideia é esta: onde é que um comerciante liga aos seus clientes e diz, por exemplo “Eh pá, a mini vai aumentar cinco cêntimos! Anda cá depressa!” Se estas pessoas existem, eu quero saber em que parte do mundo é que elas estão para ir lá.

A segunda ideia a reter é: as comparticipações vão mudar. Mas em que sentido? Vão baixar? Não. Vão aumentar. O que significa que os medicamentos vão ficar mais caros para o utente. Não é à toa que os medicamentos vão deixar de ter preço marcado. É para que as pessoas não reparem com tanta facilidade no que pagavam antes e no que pagam agora.

Se o Tico e o Teco da Anita estivessem bem, ela saberia que, quando se sabe que o preço de determinado produto vai aumentar, as pessoas vão comprar esse produto. É matemático. Pode não fazer falta na altura. Podem até nunca vir a utilizá-lo. Mas já o têm. E foi mais barato. Não me admira que as pessoas comprem mais medicamentos. Admira-me é que algumas ainda tenham dinheiro para os comprar.

15/11/10

TERMINUS 168: PAPINHA DA BOA

Não sou grande fã de cozinhar, mas gosto de ter uns bifes à mão para quando não me apetece ir ao take-away buscar pitéu. Uns bifes, umas costeletas, dá sempre jeito. Sou um tipo prevenido, porém moderado. A minha experiência de vida ensinou-me a discernir entre estes dois aspectos. O mesmo já não se pode dizer acerca dum grupo de cientistas que recentemente apresentou uma série de artigos, através dos quais concluíram que “em 2050 não haverá carne suficiente para alimentar os estimados 9 mil milhões de habitantes na Terra e terá de recorrer-se à produção de carne artificial”.
Vamos por partes que é mais fácil.

1 – A relevância do grupo
Não quero retirar a inteligência ao grupo, apenas coloco a seguinte questão: Queremos mesmo dar importância a um grupo de pessoas que, além de pouco contacto com o sexo oposto, tem bolas de pus no rosto ainda do tempo da puberdade? Esta gente nunca passou a noite na esquadra, nunca soube o que é morar sozinho, senão naqueles minutos em que a mãe ou a avó vão à loja fazer o avio. Sabem de experiência sim, embora não de experiência de vida.

2 – A urgência do aviso
Estamos em 2010. Eles estão preocupados com 2050. Faltam ainda... quantos anos? Quarenta. Muitos deles não vão estar vivos nessa altura. Estão a alarmar as pessoas para quê? Para nada. Eu tenho carne no congelador para, no máximo, dois/três dias. Mais não dá. Não tenho espaço. E além disso, pra quê gastar dinheiro em tanta comida se não sei se estou cá para comê-la? Vou gastar uma pipa de massa em comida e depois dá-me o badagaio? Seria um desperdício.

3 – Estimativas futuras
9 mil milhões? A sério? Está visto que não vai ser durante estes quarenta anos que iremos ter uma pandemia a sério. Estava a contar com a febre caprina ou a conjutivite batráquea, ou ainda com a tosse marsupial.

4 – Carne artificial?
Esta parte agora é a sério porque isto é uma coisa que me preocupa. Eu vou com relativa frequência ao McD*****'s (não escrevi McDonalds por causa da cena de estar a fazer publicidade gratuita) e a outros estabelecimentos do género (até porque se fosse para fazer publicidade, mais facilmente referiria o Burger King) e não quero nem pensar o que seria se deixassem de ter aqueles deliciosos hambúrgueres naturais.
O que vale é que, a confiar no que os cientistas dizem, isso só acontecerá lá para 2050. Por essa altura terei oitenta anos e, espero eu, dificuldade em distinguir entre um hambúrguer e uma sola.

Concluído, comam peixinho que também faz falta.

13/11/10

TERMINUS 167: RELIGIÃO #1

Não sou religioso. Já disse isso várias vezes. No entanto, compreendo a fé. Aceito-a. Mas quando a fé surge disfarçada de merchandising a coisa muda de figura. Fátima é o grande exemplo disso.
Acho bem que as pessoas vão à Fátima, façam promessas, etc. Agora, o que eu acho mal, quer dizer, não é achar mal, é mais aquela sensação de assumirmos certas coisas com muita facilidade. É conforme o que nos convém.
Quando a Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos estávamos num má altura. Crises republicanas. O prelúdio do Estado Novo. O país estava na merda, dito de forma simples. Não que estejamos muito melhor, mas enfim. Maria, para quem não sabe, foi a primeira mulher da história a conceber um filho in vitro, tanto ouviu esta oração que a certa altura começou a pensar
"Pera lá! Eu se calhar até tenho jeito pra contar umas piadas."
E apareceu aos três pastores. E disse-lhes:
"Vou-vos contar três piadas. Mas não contem a ninguém que é segredo."
Não sei se as piadas eram boas ou não. Naquela altura, ainda por cima com crianças que não iam à escola, o sentido de humor delas não devia ser muito elevado. Nossa Senhora era conhecida pelo seu humor inteligente. Escolher três pastorinhos como público não terá sido a sua melhor opção.
È pena. Talvez ela tivesse feito carreira no palco. E hoje em dia as pessoas iriam a Fátima para dar uma boa gargalhada em vez de rezar. Talvez assim já não gozassem tanto com este assunto. Não falo contra quem vai; quem vai tem as suas razões, a sua fé. Todos nós temos fé. Uns mais, outros menos. De diferentes fontes, diferentes formas. É uma coisa bonita. Dizem até que pode mover montanhas.
Isso já não sei. O que eu sei é que quando uma pessoa cai de uma montanha, morre. Mas há aqueles ainda têm tempo de rezar. O problema é que Deus lá no alto não percebe. Porquê? Porque as pessoas têm a mania de escolherem rezas grandes e como têm medo de não conseguir dizer tudo, aceleram o discurso e Deus fica à toa. Que é como quem diz “a apanhar do ar”.
“Mas é afinal o que é que ele quer?”
Isto tem tudo a ver com falhas de comunicação. Há quem diga que o mundo seria muito melhor se falássemos todos a mesma língua. No início era assim. Até que houve um dia que Inês, cunhada de Joana, sobrinha de Filipe virou-se para o marido, António, enteado de Francisco, irmão de Vanessa, e disse:
“Ó Toi, vai-me ali pedir um raminho de salsa para pôr no molho dos caracóis!”
E ele foi. Só que nenhum dos vizinhos tinha salsa. Então, do que é que ele se lembrou? Pediu ajuda a uns vizinhos e começaram a fazer uma torre para ir pedir um pouco de salsa a Deus.
Deus, que já começava a ficar farto de estarem sempre a incomodá-lo, assim que soube do que se passava, esperou que estivessem quase a chegar lá e mandou aquela porcaria abaixo.
Aí António e o pessoal que estava com ele caiu tudo por ali abaixo, bateram todos com a cabeça no chão e ficaram com problemas na fala. E a partir daí deixaram de se perceber uns aos outros.
Pra ser continuado...

11/11/10

TERMINUS 166: PIJAMA NOVO E ROUPA LIMPA

Ofereceram-me um pijama novo nos anos. O que é bom, porque assim já posso vestir o pijama que me ofereceram no ano passado. Na minha casa é preciso esperar um ano para vestir um pijama novo. Que já não é novo. Novo é o que eu acabei de receber. Mas não o posso vestir ainda. Quando recebi o outro pijama, ia começar a vesti-lo, mas a minha mãe e a minha avó insurgiram-se logo:
"Não vistas o pijama que é novo."
"Eu sei. Por isso é que o estou a vestir."
"Não. Podes ter um acidente e assim já tens um pijama novo."
Hã? A alternativa a esperar um ano para poder vestir o pijama novo, é ter um acidente? Falei com amigos meus, e com amigos que não eram meus mas aceitaram falar comigo, e o mesmo acontece com eles.
Isto não é mania das mães e das avós. Elas só passam a mensagem. Quem diz que as coisas são assim, são os hospitais. E eu pergunto: que raio de hospitais são estes? A pessoa liga para lá aflita,
"O meu marido teve um acidente!"
E do outro lado perguntam:
"Então, e ele tem algum pijama novo? É que se não tiver, escusa de vir. Não queremos gente dessa aqui."
São picuinhas com o pijama, mas devem ser ainda piores com a roupa interior.
Quando era pequeno, a minha mãe chamava-me sempre à atenção para ter cuidado com a roupa, para andar sempre limpinho para o caso de ter algum acidente. Não digo que isto seja um aviso sem sentido. O asseio é muito bonito, é saudável, faz bem e não causa embaraço. O problema é que não vale a pena andar roupa limpa, caso tenhamos um acidente. Eu fui atropelado quando tinha 11 anos. E a última coisa que me passou pela cabeça foi o remendo que tinha na meia esquerda. Queria lá saber da roupa.
Fui para o hospital, e aqui é mais ou menos como a história do pijama. O médico pede à enfermeira para ver a roupa interior do paciente. Se estiver limpa, opera-se; senão, diz-se aos familiares: "Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas ele tinha a roupa interior suja."
"Nós compreendemos, senhor doutor."
Sabem o que acontece muito num acidente de viação, quando alguém parte a espinha? Borra-se todo. Literalmente todo. Fezes, urina, esperma, qualquer fluído ou sólido corporal que saia da cintura para baixo, vem tudo cá para fora. E depois a pessoa vai na ambulância, e diz um enfermeiro para o outro:
"Cheira mal aqui dentro, foste tu?"
"Tás parvo ou quê?"
Começam a cheirar à volta e não tardam muito até perceberem.
"Eh! É este gajo aqui!"
"Desliga mas é a máquina! O gajo que aprenda a andar com roupa limpa!"
E é assim. Os pais tentam-nos impingir essas regras, mas depois exageram um bocado.

09/11/10

TERMINUS 165: DIA DA SURPRESA NACIONAL

Com tanto que se tem falado da compra dos dois submarinos e da utilidade dos mesmos (eu acho que são perfeitos, por exemplo, para uma festa temática subaquática), foi com alguma admiração que constatei que muito pouco ou nenhum interesse foi dado ao Dia da Defesa Nacional. Pois bem, é hora de alguém homenagear tão útil efeméride.
Antes de mais, alguma informação pessoal para vos situar. Eu não fui à Tropa, fui só à Inspecção. Quanto às razões que me mantiveram afastado do Serviço Militar (na altura) Obrigatório, vamos todos acreditar que eles consideraram que o meu potencial não seria totalmente aproveitado naquele contexto.
Quem julga que a minha não-ida à Tropa é sinónimo de inexperiência, engana-se. Experiência neste campo é coisa que não me falta. E não me refiro às horas que passei a jogar Call Of Duty ou outros jogos de guerra (não sou tão idiota a ponto de proferir semelhante afirmação), mas à maratona de filmes de guerra que fiz na véspera do dia de ir à Inspecção. Na altura ainda não sabia o resultado que me esperava e achei que ver o Nascido Para Matar, o Platoon e o Desaparecido Em Combate seria uma boa forma de me preparar psicologicamente para o que poderia vir a ser a minha vida nos próximos tempos.
Sobre o Dia da Defesa Nacional, uma iniciativa lançada pelo mesmo senhor que mandou comprar os dois submarinos, há que se-lhe tirar tirar o chapéu e dizer, “Sim, senhor! Que esplêndida ideia!” Eu concordo em absoluto com as pessoas que dizem que os militares são o espelho duma nação. Não concordo com tudo o que essas pessoas dizem, nem discordo do que as outras dizem, mas sobre a importância dos militares para a imagem do país estou 100% de acordo.
Durante alguns anos, entre a minha não-selecção e esta ideia do Paulinho, vivemos um tempo em que só ia à Tropa quem queria. É verdade que nesses anos poupou-se algum dinheiro na preparação de homens (que algum ministro achou que seria bem gasto em dois submarinos). Por outro lado, as nossas forças armadas estavam ao abandono e isso dava uma má imagem do País.
Sem a cláusula da obrigatoriedade impunha-se uma nova solução. A mais fácil seria repor a dita cláusula; o que não era possível. A solução encontrada revela que temos políticos bastante engenhosos. Só é pena essa engenhosidade não ser posta ao serviço do País.
O que é que o Paulinho fez? Basicamente, manteve o Serviço Militar Livre, mas criou o Dia da Defesa Nacional. O objectivo deste dia é facultar aos jovens em idade de ir à Tropa a experiência de um dia na vida de um militar. Um pouco como ganhar um fim de semana num hotel de luxo. A diferença é que, neste caso, as coisas não são grátis e aqui está a genialidade da coisa.
A ida à Tropa é livre, mas a comparência ao Dia da Defesa Nacional é obrigatória. Quem faltar à convocatória está sujeito a uma coima que vais dos 249,40€ aos 1247€. Se fizermos as contas, rapidamente concluímos que aqueles que se baldam vão pagar a estadia aos que decidam ficar. A mensagem que isso inspira é inequívoca: estamos todos aqui para ajudarmos quem precisa. Se isso não é bom para imagem dum País, não sei o que possa ser.