11/11/10

TERMINUS 166: PIJAMA NOVO E ROUPA LIMPA

Ofereceram-me um pijama novo nos anos. O que é bom, porque assim já posso vestir o pijama que me ofereceram no ano passado. Na minha casa é preciso esperar um ano para vestir um pijama novo. Que já não é novo. Novo é o que eu acabei de receber. Mas não o posso vestir ainda. Quando recebi o outro pijama, ia começar a vesti-lo, mas a minha mãe e a minha avó insurgiram-se logo:
"Não vistas o pijama que é novo."
"Eu sei. Por isso é que o estou a vestir."
"Não. Podes ter um acidente e assim já tens um pijama novo."
Hã? A alternativa a esperar um ano para poder vestir o pijama novo, é ter um acidente? Falei com amigos meus, e com amigos que não eram meus mas aceitaram falar comigo, e o mesmo acontece com eles.
Isto não é mania das mães e das avós. Elas só passam a mensagem. Quem diz que as coisas são assim, são os hospitais. E eu pergunto: que raio de hospitais são estes? A pessoa liga para lá aflita,
"O meu marido teve um acidente!"
E do outro lado perguntam:
"Então, e ele tem algum pijama novo? É que se não tiver, escusa de vir. Não queremos gente dessa aqui."
São picuinhas com o pijama, mas devem ser ainda piores com a roupa interior.
Quando era pequeno, a minha mãe chamava-me sempre à atenção para ter cuidado com a roupa, para andar sempre limpinho para o caso de ter algum acidente. Não digo que isto seja um aviso sem sentido. O asseio é muito bonito, é saudável, faz bem e não causa embaraço. O problema é que não vale a pena andar roupa limpa, caso tenhamos um acidente. Eu fui atropelado quando tinha 11 anos. E a última coisa que me passou pela cabeça foi o remendo que tinha na meia esquerda. Queria lá saber da roupa.
Fui para o hospital, e aqui é mais ou menos como a história do pijama. O médico pede à enfermeira para ver a roupa interior do paciente. Se estiver limpa, opera-se; senão, diz-se aos familiares: "Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas ele tinha a roupa interior suja."
"Nós compreendemos, senhor doutor."
Sabem o que acontece muito num acidente de viação, quando alguém parte a espinha? Borra-se todo. Literalmente todo. Fezes, urina, esperma, qualquer fluído ou sólido corporal que saia da cintura para baixo, vem tudo cá para fora. E depois a pessoa vai na ambulância, e diz um enfermeiro para o outro:
"Cheira mal aqui dentro, foste tu?"
"Tás parvo ou quê?"
Começam a cheirar à volta e não tardam muito até perceberem.
"Eh! É este gajo aqui!"
"Desliga mas é a máquina! O gajo que aprenda a andar com roupa limpa!"
E é assim. Os pais tentam-nos impingir essas regras, mas depois exageram um bocado.

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