13/11/10

TERMINUS 167: RELIGIÃO #1

Não sou religioso. Já disse isso várias vezes. No entanto, compreendo a fé. Aceito-a. Mas quando a fé surge disfarçada de merchandising a coisa muda de figura. Fátima é o grande exemplo disso.
Acho bem que as pessoas vão à Fátima, façam promessas, etc. Agora, o que eu acho mal, quer dizer, não é achar mal, é mais aquela sensação de assumirmos certas coisas com muita facilidade. É conforme o que nos convém.
Quando a Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos estávamos num má altura. Crises republicanas. O prelúdio do Estado Novo. O país estava na merda, dito de forma simples. Não que estejamos muito melhor, mas enfim. Maria, para quem não sabe, foi a primeira mulher da história a conceber um filho in vitro, tanto ouviu esta oração que a certa altura começou a pensar
"Pera lá! Eu se calhar até tenho jeito pra contar umas piadas."
E apareceu aos três pastores. E disse-lhes:
"Vou-vos contar três piadas. Mas não contem a ninguém que é segredo."
Não sei se as piadas eram boas ou não. Naquela altura, ainda por cima com crianças que não iam à escola, o sentido de humor delas não devia ser muito elevado. Nossa Senhora era conhecida pelo seu humor inteligente. Escolher três pastorinhos como público não terá sido a sua melhor opção.
È pena. Talvez ela tivesse feito carreira no palco. E hoje em dia as pessoas iriam a Fátima para dar uma boa gargalhada em vez de rezar. Talvez assim já não gozassem tanto com este assunto. Não falo contra quem vai; quem vai tem as suas razões, a sua fé. Todos nós temos fé. Uns mais, outros menos. De diferentes fontes, diferentes formas. É uma coisa bonita. Dizem até que pode mover montanhas.
Isso já não sei. O que eu sei é que quando uma pessoa cai de uma montanha, morre. Mas há aqueles ainda têm tempo de rezar. O problema é que Deus lá no alto não percebe. Porquê? Porque as pessoas têm a mania de escolherem rezas grandes e como têm medo de não conseguir dizer tudo, aceleram o discurso e Deus fica à toa. Que é como quem diz “a apanhar do ar”.
“Mas é afinal o que é que ele quer?”
Isto tem tudo a ver com falhas de comunicação. Há quem diga que o mundo seria muito melhor se falássemos todos a mesma língua. No início era assim. Até que houve um dia que Inês, cunhada de Joana, sobrinha de Filipe virou-se para o marido, António, enteado de Francisco, irmão de Vanessa, e disse:
“Ó Toi, vai-me ali pedir um raminho de salsa para pôr no molho dos caracóis!”
E ele foi. Só que nenhum dos vizinhos tinha salsa. Então, do que é que ele se lembrou? Pediu ajuda a uns vizinhos e começaram a fazer uma torre para ir pedir um pouco de salsa a Deus.
Deus, que já começava a ficar farto de estarem sempre a incomodá-lo, assim que soube do que se passava, esperou que estivessem quase a chegar lá e mandou aquela porcaria abaixo.
Aí António e o pessoal que estava com ele caiu tudo por ali abaixo, bateram todos com a cabeça no chão e ficaram com problemas na fala. E a partir daí deixaram de se perceber uns aos outros.
Pra ser continuado...

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