17/11/10

TERMINUS 169: QUANDO O TICO E O TECO SE ZANGAM

Ando preocupado com o Tico e o Teco da senhora Ministra da Saúde. Para quem não sabe do que eu estou a falar, Tico e Teco é uma forma querida de nos referirmos aos dois únicos neurónios que algumas pessoas possuem. Quando estão bem um com o outro, o que sai não é nada por aí além; quando estão zangados, aí é mesmo para esquecer.

E porque é que eu ando preocupado com o Tico e o Teco da senhora? Aqui há dias, a senhora Ministra da Saúde disse o seguinte:

'Houve uma corrida às farmácias motivada pelas próprias que telefonaram para casa dos clientes dizendo que as comparticipações dos medicamentos iam ser alteradas, portanto era bom que fosse aviar para mais tempo'

A Anita acha que isto é 'um comportamento pouco cívico' por parte das farmácias e chama a atenção para a cena das comparticipações. 'Quanto mais caro venderem, mais ganham',

Comecemos pelo básico. As farmácias não se comportam. Quem se comporta são... aquela coisa, como se chama? Ah!... os seres vivos. As farmácias, quanto muito, comportam pessoas, mas não se comportam como pessoas; muito menos telefonam para elas. É uma ideia completamente disparatada. Um talho telefonar para o fornecedor, ainda vá que não vá, uma farmácia não.

Depois o que é que temos? Temos uma falha gramatical - '(...) telefonaram para casa dos clientes (...), portanto era bom que fosse aviar para mais tempo' – que não vou dizer qual é, porque não é obrigação da Ministra da Saúde conhecer conceitos básicos de gramática. Isso é competência da Ministra da Educação, como se pode ver por uma expressão dita na Abertura do Ano Lectivo 2010/2011: 'é preciso que comam coisas que lhes fazem bem'. Concordo. E é preciso que facem também os deveres.

Continuemos. As farmácias telefonaram para casa dos clientes para eles irem fazer um avio grande. Há duas ideias a reter desta afirmação. (Eu não chamo ideia ao senhora disse porque, para ser ideia, era preciso que tivesse pensado antes de abrir a boca.) A primeira ideia é esta: onde é que um comerciante liga aos seus clientes e diz, por exemplo “Eh pá, a mini vai aumentar cinco cêntimos! Anda cá depressa!” Se estas pessoas existem, eu quero saber em que parte do mundo é que elas estão para ir lá.

A segunda ideia a reter é: as comparticipações vão mudar. Mas em que sentido? Vão baixar? Não. Vão aumentar. O que significa que os medicamentos vão ficar mais caros para o utente. Não é à toa que os medicamentos vão deixar de ter preço marcado. É para que as pessoas não reparem com tanta facilidade no que pagavam antes e no que pagam agora.

Se o Tico e o Teco da Anita estivessem bem, ela saberia que, quando se sabe que o preço de determinado produto vai aumentar, as pessoas vão comprar esse produto. É matemático. Pode não fazer falta na altura. Podem até nunca vir a utilizá-lo. Mas já o têm. E foi mais barato. Não me admira que as pessoas comprem mais medicamentos. Admira-me é que algumas ainda tenham dinheiro para os comprar.

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