23/11/10

TERMINUS 173: A EVOLUÇÃO NEGATIVA

Não sou nenhum especialista em economia, excepto naquela que pratico ao nível dos recursos domésticos. Tenho amigos que são e, sempre que tenho uma dúvida sobre qualquer declaração feita pelo nosso Ministro das Finanças, sei que posso recorrer a eles para me esclarecer. Acontece que eu não gosto de andar a chatear as pessoas a toda a hora e a todo o instante. E, com tudo o que se passou com o Orçamento de Estado, todas aquelas discussões e impasses e propostas e contra-propostas, tive de tomar uma decisão.
Passei a assistir a essas declarações sozinho. Sem telemóvel à mão para contactar alguém que me elucidasse acerca do que estava a ser dito. Sem alguém que soubesse dar sentido àquelas confusas palavras.
Porque o problema está aí. Nas palavras. As palavras são confusas. Ou melhor, as palavras são simples, mas são combinadas de modo a que resultem em frases confusas. Frases confusas que poucos percebem.
Critica-se muito este Governo e outros anteriores e posteriores sobre o estado da Educação no nosso país. Entende-se porquê. Se os portugueses fossem bons alunos a Português e a Matemática, não só entenderiam aqueles malabarismos de aritmética que o Teixeira dos Santos executa, como também reparariam nos graves atentados linguísticos que acontecem com frequência.
Um desses atentados ocorreu tantas vezes que fiquei quase convencido de que não se tratava duma gralha. O senhor Ministro das Finanças acredita mesmo na exactidão dessa expressão, que é “A despesa evoluiu de forma negativa.”
Há um fenómeno curioso sobre as mentiras. Uma mentira dita por muitas pessoas, às tantas passa a ser uma verdade. É o poder da sugestão, ou da influência. Ou talvez seja instinto de sobrevivência básico. Sobre a expressão “A despesa evoluiu de forma negativa.” o erro salta à vista. Nada evolui de forma negativa. Falar de evolução é o mesmo que falar de progresso porque muda-se para algo melhor. Quando se muda para algo pior, ocorre um retrocesso, logo uma involução.
Eu entendo o uso da expressão. A maioria dos portugueses não estará familiarizada com o terno “involução”. E aqui voltamos ao problema do Português na Escola.
Há dias assisti a um debate com representantes dos cinco partidos com assento parlamentar e reparei que estes problemas de linguagem são comuns a mais deputados do PS e seus conterrâneos do PSD. O deputado do PS serviu-se da expressão “anátemas negativos” para sustentar um argumento, enquanto que o deputado do PSD (um senhor com dificuldade em distinguir EPAL da EPUL) hesitava na conjugação dos verbos pôr e colocar no Condicional. Começava por dizer “poria”, alterando logo para “poderia pôr”.
Continuo a assistir aos debates do Orçamento. Já vou percebendo mais ou menos o que é que eles querem dizer sobre as matérias macro e micro-económicas. Apesar disso, a situação mudou um pouco. Agora são os meus amigos que me ligam para que eu lhes explique o que significa uma “involução positiva da receita”.

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