25/11/10

TERMINUS 174: É PRECISO DAR USO ÀS COISAS

Nós temos um jeitinho do caraças para ter as coisas e não as usarmos. Passamos em frente a uma loja, olhamos para a montra, e vemos algo que sabemos algo que sabemos não ter qualquer utilidade para nós. Uma biografia de José Sócrates, por exemplo. O livro custa 27,53€ e nós pensamos, “Porra! Dar quase trinta euros por isto! Nem pensar!”
No dia seguinte, ou na semana seguinte, tanto faz, passamos em frente à mesma montra e constatamos que o preço do livro baixou para 24,77€. Sem hesitar, entramos e adquirimos um exemplar que, ou fica guardado num caixote ou vai servir de calço.
Neste caso, o produto adquirido acabou por ter uma certa utilidade. Porém, não se pode dizer que isso aconteça sempre. E isto é normal acontecer, não só em Portugal, como no mundo. Há coisas que não têm qualquer utilidade, mas há outras que têm. E o problema é não serem utilizadas quando é devido.
Há cerca de um ano atrás que a Polícia Judiciária e o Ministério Público coordenam o Gabinete de Crise do programa "Alerta Rápido de Rapto de Menores". Este programa foi criado para ajudar à gestão de casos de desaparecimentos de menores e, apesar de todos os casos que têm acontecido desde então, nunca foi accionado. O que é uma pena.
Tive oportunidade de ler o programa e só tenho coisas boas a dizer sobre ele. O corpo do texto está num tamanho aceitável. É suficientemente grande para ser legível, mas não ao ponto de nos levar a pensar que tinham pouca coisa para dizer e fizeram aquilo em tamanho 16 para ocupar o máximo de páginas possível. O tipo de letra escolhido foi o Euphemia, o que revela um certo arrojo por parte dos organizadores deste programa. Quanto à encadernação, optou-se pela encadernação térmica. O que justifica o pouco uso dado ao documento. Como ex-funcionário dum Centro de Cópias, sei que a melhor opção de encadernação para documentos destinados a uso constante é a encadernação com argolas de metal.
Além da forma, o programa "Alerta Rápido de Rapto de Menores" tem também aspectos positivos quanto ao seu conteúdo. Quando aplicado (em teoria, já que nunca foi aplicado), emite alertas nas televisões, rádios e autocarros a cada quinze minutos. Isto a mim confunde-me um pouco. Por um lado, é sinal de que estão a fazer qualquer coisa para encontrar a pessoa desaparecida; por outro, parece algo que fazemos uma vez, deixamos em modo automático e vamos para o café beber imperiais.
Pedro do Carmo, responsável pelo Gabinete, diz que nos dezasseis meses de existência do programa não foi ainda detectado nenhum desaparecimento que “observe as premissas básicas para accionar o sistema”. Para que o alerta seja accionado é necessário que se trate de um rapto ou sequestro e não de rapto parental ou simples desaparecimento. Ser raptado por um parente não é o mesmo que ser raptado? Parece que não. E se tiver mais de dezoito anos, bem pode esperar.
Pelos vistos ser raptado obedece a uma série de pré-requisitos que, quando não verificados pelas forças de investigação, levam a que o nome seja colocado em lista de espera. A PJ diz que está tudo a postos, caso seja preciso. Basicamente, é como termos uma caixa de chocolates que só abrimos quando está perto do fim do prazo de validade.
Os responsáveis do programa dizem não sentir qualquer frustração por nunca terem posto em prática aquilo que demoraram tanto tempo a conceber. Eu sei o que é isto. Na Escola acontecia-me o mesmo quando tinha de apresentar algum trabalho. Tinha segurança no que tinha escrito, mas temia o momento de apresentar publicamente as minhas ideias. Enquanto fosse algo destinado apenas aos olhos do professor, colegas de Departamento, outros professores, amigos e familiares, estava tudo bem. Quando tinha de explicar as minhas ideias aos meus colegas, era complicado.
Pedro do Carmo diz ainda que o "Alerta Rápido de Rapto de Menores" é como "uma técnica avançada para tratar uma patologia muita grave, mas que queremos que nunca seja usada". É sem dúvida um bom programa em papel. Talvez um dia se descubra se funciona mesmo.

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