27/11/10

TERMINUS 176: QUASE TRANSPARENTE

A Cimeira da NATO já passou e correu tudo bem da nossa parte. Fomos bons anfitriões, cordiais, diplomáticos. É verdade que os blindados só chegaram dois dias depois da Cimeira ter terminado e de os convidados terem regressado a seus países, mas não podemos olhar apenas para o lado mau da questão.
Eu sei que é tentador falar mal. Por vezes, eu próprio faço isso. Ignoro os aspectos positivos que possuímos e hiperbolizo tudo o que de negativo nós temos. E isso está errado. Nunca iremos para a frente como país, como povo, enquanto não nos abraçarmos as nossas qualidades e assumirmos os nossos defeitos. Sim, temos defeitos. Eu tenho defeitos. Você, leitor ou leitora, tem defeitos. É tempo de assumirmos isso.
Dito isto é com grande orgulho que vos comunico, àqueles que ainda não o sabem, que Portugal subiu para a 32ª posição no 'Índice de Percepção de Corrupção', relatório publicado anualmente pela Transparência Internacional. Em 178 países nós estamos em 32º lugar! Não é bom? Em 2009 tivemos um percalço e descaímos para a 35ª posição, mas conseguimos dar a volta por cima.
Somos dos países europeus mais corruptos. Embora não corruptos o suficiente para ter lugar no top dez. Na Europa Ocidental somos dos piores que estão na tabela. E porquê? O que é que nós temos ou fazemos que nos garante um lugar numa posição tão cobiçada como a 32ª? Os analistas dizem que são as nossas leis “herméticas”, um aparelho de Justiça que “não funciona” e resultados “nulos” no combate à corrupção.
Vamos considerar cada uma destas razões isoladamente.
Comecemos pelas leis “herméticas”. Dos vários significados que a palavra “hermética” possui, destaco este:

hermético 4 p. ext. difícil de entender e/ou interpretar; obscuro, ininteligível

A linguagem utilizada nas nossas leis não é compreensível por todos. E por uma razão muito importante. Se todos compreendessem o que dizem as Leis, não precisaríamos de advogados, nem de juízes, nem de nenhum profissional que vive à custa de interpretar legislação. Os números do desemprego crescem de dia para dia. Simplificar a linguagem legislativa iria apenas piorar uma má situação.
Saltemos para a terceira razão: resultados “nulos” no combate à corrupção. Novamente, insiste-se em olhar apenas para o lado mau da questão e ignorar o lado bom. Resultados nulos é o mesmo que dizer que não aconteceu nada. E se nada aconteceu, porquê falar do assunto? Ninguém ganhou, ninguém perdeu. É como pensarmos em andar à porrada. Na nossa mente somos sempre os vencedores e é isso que importa.
Por fim, temos o aparelho de Justiça “que não funciona”. Aqui vou ser alegórico. A Justiça é uma mulher. Qual é o aparelho que, ao deixar de funcionar, deixa uma mulher irritada? A minha proposta? Façam uma vaquinha e comprem pilhas. Acreditem em mim. Quando a senhora dona Justiça estiver satisfeita, ficaremos todos bem melhor.

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