29/11/10

TERMINUS 179: O CAVALO ESTÁ LÁ FORA

Nas minhas aulas de Filosofia no 11º ano recordo-me de ter lido e (tentado) analisar um texto cujo título era “A vaca está lá fora”. O texto expunha um diálogo entre três personagens, abrigados em casa numa noite tempestuosa, que discutiam se a vaca que eles viam a pastar sempre que ocorria um relâmpago estava sempre lá ou apenas quando eles a viam.
A que propósito é que eu trago isto à baila? Por nada.
Continua-se a discutir o Orçamento de Estado. Após a surpresa totalmente inesperada de PS e PSD terem chegado a acordo, surge agora a surpresa ainda mais inesperada de o PSD não ir votar favoravelmente as propostas de alteração ao OE feitas pela restante oposição. À direita, o CDS apresentou as suas propostas relativas a corte e controlo da despesa; à esquerda, o BE criticou o PS e o PSD por terem miaúfa do sector financeiro, o PEV disse que o PSD era cegueta e o PCP serviu-se da expressão popular “tirar o cavalinho da chuva” para criticar o PSD.
Por que razão é que os restantes partidos da oposição estão a criticar o PSD? Em teoria, faria mais sentido que um partido da oposição estivesse ao lado dos outros partidos da oposição ou, quando tal não fosse possível, contra o Governo. Eu só tenho 30 anos, mas percebi há muito que o PS e PSD só se opõem quando lhes interessa. E agora não lhes interessa. Não lhes interessa que a vida das pessoas vá piorar, desde que as suas regalias se mantenham ou melhorem. Podem invocar mil e uma razões – os mercados, a crise, o défice, a despesa, os gambozinos – para justificar as suas decisões, mas tudo se resume a uma palavra: mais. Querem mais e mais e mais.
A oposição – partidos de esquerda apenas – vive na ilusão de que tem força para travar isto. Assim como nós vivemos com a impressão de que o nosso contributo a cada quatro e cinco anos tem alguma relevância. Cada vez acredito menos que tenha. E é triste, pois gostava que tivesse tanto quanto é suposto ter.
Não sinto que estejamos a eleger os nossos melhores representantes. Sinto como se estivesse a ver um concurso de talentos infantis em que ganha sempre o miúdo que canta mal ou o outro miúdo que começa a chorar a meio do acto. Ganham sempre não pelo seu talento, mas porque a mamã oferece uma tarte de maçã ao júri.
O mesmo acontece com as eleições. Talvez o nosso voto conte mesmo, talvez não. Já não me interessa. Todos os anos é a mesma discussão sobre o OE e todos os anos o resultado é o mesmo. Agrada-me pensar que falta menos de um mês para o Inverno chegar. Gosto de pensar nas noites passadas no sofá, com o aquecedor ligado, vendo um bom filme ou lendo um bom livro, enquanto lá fora chove torrencialmente e as ruas ficam alagadas porque as sarjetas não são limpas. E às vezes até aproveito para observar o mundo lá fora e pensar se o país que vejo existe realmente ou apenas quando caem relâmpagos.

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