28/12/10

TERMINUS 197: ESTÁ-SE BEM À SOMBRA (OU AO SOLINHO)

Quando tanto se fala do crescimento negativo da economia portuguesa, é sempre estimulante saber de notícias que vêm contrapor esta regra. E aqui está uma: de acordo com o Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Faculdade de Economia do Porto, o “Índice de Economia Não Registada”ascendeu, no ano passado, aos 31 mil milhões de euros, cerca de 85 milhões por dia.
E ainda dizem que não temos capacidade de produzir riqueza!
Temos pois! Não queremos é declará-la.
Desde 1970 até 2009, esta economia-sombra tem vindo a crescer muito, passando de 9,3% do PIB para 24,2%. Eu não vou perder muito tempo com isto de números, porque sei que quem me lê está mais interessado numa piada em jeito de informação, ou numa informação em jeito de piada, do que em estatísticas. Mas, olhando só de relance para estes algarismos, 85 milhões por dia... Não é nada mau, hã?
Antes de passarmos ao regabofe, creio que esta matéria carece de breves explicações. Vamos a elas.
Quais são as causas deste fenómeno? Por que razão há tanta gente a fugir aos impostos, a não declarar rendimentos, a fazer as coisas sobre o joelho? Ou sob, para os ainda mais discretos.
É difícil apontar o que motiva cada um dos intervenientes neste fenómeno a agir da forma como age. Para mim, que sou um contribuinte em situação regular, é complicado, para não dizer impossível, conseguir colocar-me a distância suficiente para avaliar esta situação. Afinal de contas, quando se vê a forma justa e correcta como o Governo aplica a sua receita fiscal, é bizarro haver quem opte por não contribuir.
A fuga aos impostos não seria um problema, se isto que eu referi no parágrafo anterior fosse uma realidade e não uma ironia. É certo que continuaria a haver sempre evasão fiscal, mas é o mesmo que colocarmos um cleptomaníaco numa feira de objectos grátis. Ele vai sempre gamar qualquer coisa. A evasão fiscal não se resolve com mais ou menos fiscalização – isso ajuda, é verdade –, mas sim com uma melhor aplicação dos fundos recolhidos.
Quando vejo na televisão notícias sobre cortes de salário, diminuição de subsídios e, de seguida, mais uma injecção de capital no BPN, dá-me vontade de cometer uma evasão fiscal. Não o faço porque, infelizmente, não consigo ascender aos valores mínimos de dívida necessários (acima dos 500 mil euros) para ser o Estado a suportar a minha dívida.
A economia-sombra, apesar do que o Governo nos quer fazer crer, não é um problema, é um desvio. É irmos na rua, num dia frio de Inverno, e vermos um pedacinho de calçada iluminado pelo sol. À sombra está frio, logo nós vamos para onde está solinho. (Esta metáfora funcionaria melhor no Verão, eu sei.) A economia-sombra possibilita-nos ter algo que é só nosso. Parece-me justo, na medida em que, se o Governo achar que nós temos algo em dívida, em vez de verificar, cobra primeiro. E alguns pagam. Otários.

26/12/10

TERMINUS 196: NÃO TRACE ISTO, POR FAVOR

De acordo com análises, realizadas no âmbito do projecto Checking, a várias amostras de cocaína, setenta por cento dessas amostras possuíam desparasitantes e analgésicos de modo a disfarçar a sua parca pureza e incrementar o seu valor comercial. Pode não o parecer, mas este é um assunto grave. Quando existem pessoas capazes de adulterar a pureza de uma droga pesada como a cocaína, apenas por motivos de rendimento, é caso para dizer que está tudo perdido.
Sei que são muitas as dúvidas que, neste momento, o afligem. Tentarei responder a todas elas, na medida do possível. Começando pela mais óbvia: o que é o projecto Cheking? Ora bem, tanto quanto pude apurar, é um projecto nacional de teste de drogas. Isto, só por si, não diz muito. É o mesmo que chamar a um grupo de bêbados, um colectivo de enólogos na vertente prática. Antes de mais, há que saber: como é que a droga é testada? Se for através de reacção química é possível obter uma indicação precisa em relação à quantidade de fenacetina utilizada, mas não há nada como a opinião de um consumidor experimentado para avaliar as sensações transmissíveis.
A grande preocupação dos responsáveis deste projecto é o uso excessivo de fármacos como a fenacetina ou levamisole para “cortar” a coca. Eu não consumo cocaína, nunca consumi, mas consumo vinho e entendo a postura destes senhores. Assim como eles não apreciam a sua droga “cortada”, eu não gosto do meu vinho “traçado”. É um direito que nos assiste, enquanto consumidores.
No meu caso, o “traço” é feito, geralmente, com gasosa ou com sumo de laranja – a sangria é outra coisa – que, apesar de tudo, ainda são substâncias que podemos consumir à parte do vinho. Contudo, no caso dos fármacos utilizados para “cortar” a coca, isso não sucede. Não há refrescos de fenacetina ou croissants com recheio de levamisole e, tirando o pessoal da indústria farmacêutica e alguns hipocondríacos, ninguém sabe o que são estas substâncias. Sabe-se que o primeiro pode fazer mal a pessoas com problemas renais e que o segundo aumenta o risco de ataque cardíaco. Sinceramente, utilizar estas substâncias na preparação de uma droga pesada parece-me de uma irresponsabilidade sem limites. Onde é que isto vai parar?, pergunto eu.
Na minha infância e juventude, e mesmo no início da idade adulta, consumi diversos químicos, não na forma de drogas recreativas, mas em modo doce. Não sou, portanto, alheio ou averso ao consumo de substâncias químicas em detrimento de naturais. Mas sou um consumidor que gosta de segurança naquilo que consome.
Gastar uma saqueta para fazer um bule de chá e dividi-lo por quatro chávenas não é o modo correcto de fazer chá para quatro pessoas. É verdade que assim poupam-se três saquetas, mas perde-se o sabor, a pureza, o toque. Ao senhor traficante e ao senhor preparador que lêem isto, peço-vos, tenham atenção ao que estão a fazer. O que estão a fazer pode parecer aliciante, na medida em que faz render o produto, mas tentem olhar para o amanhã. Respeitem os vossos clientes se querem continuar a tê-los.

24/12/10

TERMINUS 195: CAVACO VIA FACEBOOK

Infelizmente, devido a motivos que não vou agora aqui referir, não me posso orgulhar de ter sido um dos portugueses em encetar num diálogo franco e construtivo com o Presidente Cavaco Silva via Facebook. Gostava de dizer que, no passado dia 20 de Dezembro, fiz vários Like's a expressões como “O Presidente da República é um garante de estabilidade e não se deve imiscuir na vida partidária.” Não posso sequer dizer que esta frase tenha sido escrita porque, não só não participei, como não me dei ao trabalho de ir ver o que lá foi escrito antes de começar a escrever este artigo.
Tenho mais que fazer. E, sinceramente, não sei se fico muito contente por ver a mais alta figura do Estado a utilizar as redes sociais. O cidadão comum sabe, embora possa não o admitir, que o tempo que se perde no Facebook, no Twitter, no MySpace, no Hi5, é tempo que não se trabalha. Há quem, de vez em quando, utilize estes meios como forma de comunicação. Para enviar convites, por exemplo. Todavia, o grosso do tempo gasto nestes locais está no visionamento de vídeos e fotos e jogos virtuais.
Anima-me ter um Presidente da República que não é info-excluído. O problema é se não for esse o caso. Quem garante aos participantes desse debate virtual que a pessoa que respondeu às suas questões foi de facto o Presidente Cavaco? Não digo que não tenha sido ele a iniciar o debate, mas depois, altas horas da noite, vem o João Pestana, o senhor Aníbal começa a bocejar, vem o assessor e toma o lugar. Apesar de não ser o mais correcto, do ponto de vista constitucional, a mim não me choca nem me preocupa este cenário ter acontecido.
A plausível substituição do Presidente Cavaco por um qualquer assessor familiarizado com o discurso em questão pode deixar alguns portugueses incomodados. Não se sintam assim. Afinal de contas, desde que o teor da mensagem seja o mesmo, o que é que interessa se é o Aníbal ou o Justino quem a escreve?
O anonimato é uma realidade numa rede social. Quantos de nós não tiveram já estimulantes conversas com loiras de seios generosos, sem desconfiar que estávamos, na verdade, a conversar com gordos carecas? Por muito que não o queiramos admitir, sabemos que é uma realidade. Mais vezes do que deveria ser.
Tanto quanto sei, as perguntas só podiam estar relacionadas com as eleições presidenciais de 23 de Janeiro ou com o futuro de Portugal. Hum... A limitar assim as opções dos participantes a adesão não deve ter sido muita. A não ser que, além do assessor que ficou a responder às questões em nome do Presidente, tenham ficado outros tantos assessores a formular outras tantas questões, de acordo com um guião previamente aprovado. Cada um no seu quartinho para poder participar no debate, ao mesmo tempo que conversava com a holandesa boazona residente em Cascais. Ou com o anão de Xabregas.

17/12/10

TERMINUS 194: NA LINHA DA FRENTE DA MOSCAMBILHA

Antes de mais, tenho que dizer que estava ansioso que este dia chegasse. Não tenho por hábito divulgar as escolhas que faço a nível comercial; do género, qual o meu dentífrico preferido, o meu detergente de eleição, qual o meu banco, etc. No entanto, em relação a este último, sinto-me no dever, na obrigação, de abrir uma excepção. O meu banco, o BCP, vem citado no WikiLeaks como estando envolvido em negociatas com o Irão. Confesso-vos que ainda não havia reconhecido ao site do senhor Assange a relevância que alguns lhe apontam; porém, a informação agora revelada é-me demasiado próxima para eu sentir outra coisa se não orgulho. Com efeito, é de orgulho que se trata. Estou certo que não sou o único cliente do Millennium BCP a sorrir para dentro de contente, ou mesmo, os mais extrovertidos, a gozar com clientes de outros bancos envolvidos em moscambilhas. O pessoal do BPP pode ter dado garantias fictícias para empréstimos avultados, a malta do BPN pode ter feito branqueamento de capitais e fraude fiscal, mas o Millennium, o meu Millennium, esteve envolvido em negócios de espionagem financeira com os Estados Unidos e o Irão. Assim se distinguem os grandes dos pequenos. Uns são meros larápios, outros são homens de negócios.
O homem à frente deste enredo foi Carlos Santos Ferreira, presidente do banco, que acordou com os Estados Unidos fornecer-lhes informações sobre actividades financeiras levadas a cabo pelo Irão. Se ignorarmos o facto de isto ser muito parecido com “fazer queixinhas”, estamos perante o tipo de comportamento que não faz senão enaltecer a identidade de uma nação.
Eu podia ser como algumas vozes que andam por aí e dizer que este senhor comprometeu-se a espiar para os Estados Unidos, quando ele próprio fazia negócios com o Irão. Qualquer coisa tipo, “Eu digo-te quem são os clientes dele, desde que tu me deixes à vontade para fazer negócio com ele.” Não concordo com esta posição porque, envolvido em negócios ilícitos ou não, o Carlos Santos Ferreira protegeu o seu banco, o meu banco, de represálias internacionais. Pelo menos no imediato.
O Governo, como é seu hábito e dever, diz não ter tido conhecimento destes factos. Eu acho que, neste caso em particular, o Governo não sabia mesmo de nada e está todo roído por dentro por causa disso. Este é o tipo de situação que um Governo assumiria como uma medida governamental devido ao estatuto que isto confere.
À oposição que critica e pede explicações, eu digo: “Deixem-nos estar. Já basta terem sido apanhados de surpresa. Não vale a pena gozar com os senhores do Governo.”
Afinal de contas, se eles não sabiam o que o BPP e o BPN andavam a fazer em Portugal, como é que iriam saber o que andava o BCP a fazer lá para os lados de Teerão?

16/12/10

TERMINUS 193: E O GRANDE SEGREDO É

Com tanta notícia polémica que tem surgido via WikiLeaks era difícil perceber qual o grande segredo que se esconde no meio daquelas centenas de milhares de documentos secretos.
Alguns teimam em considerar Julian Assange um propagandista camuflado e estes ditos documentos secretos meros subterfúgios dos Serviços Secretos Norte-Americanos, divulgados para distrair as pessoas do que realmente se passa. O problema dos teóricos da conspiração é não acreditarem em nada. Podem acreditar que pousaram extraterrestres em Roswell, mas a partir do momento em que consigam provas disso, deixam de acreditar. Não é tanto a busca pela verdade que os move, é mais a não confirmação da mesma.
Quanto ao WikiLeaks, a minha ideia sobre o grande segredo foi formulada desde muito cedo. Contudo, não passava de um palpite. Precisava de mais dados para poder avançar publicamente com esta teoria. E notem, é uma teoria. Está tão perto da verdade como pode estar qualquer outra teoria formulada por alguém que disponha da mesma informação que eu.
Antes de continuar, o que é que me convenceu estar no caminho certo?
Um dos telegramas divulgados pelo WikiLeaks esta semana tinha que ver com o casal McCann. Na missiva, o embaixador do Reino Unido e o embaixador dos Estados Unidos, ambos em Lisboa, conversavam sobre o envolvimento dos pais no desaparecimento da pequena (e talvez então viva) Maddie. E foi assim que se fez luz. (Atenção. Esta frase não tem nada a ver com o facto de ela ter desaparecido na Praia da Luz.)
Recordo-me das reacções populares de solidariedade e comiseração para com os pais na altura em que eram considerados vítimas. Eram pessoas a chorar, a ajudar, a acender velinhas. Depois passaram a suspeitos e o humor popular mudou do dia para a noite. Passaram a ser insultados e acusados.
O grande segredo do WikiLeaks é algo que está escondido em todos os documentos. Quase como um código secreto. Mal nos apercebemos que está lá, mas está. E esse segredo é: um diplomata americano está para uma alcoviteira, como a falta de memória está para Dias Loureiro. No caso de Dias Loureiro posso gozar com ele à vontade já que, mesmo que leia este artigo, não se vai lembrar dele depois.
Ficou provado, para mim pelo menos, que não se pode contar nada a um diplomata americano. Por muito que se lhes peça para não contarem a ninguém aquilo vem tudo cá para fora. Até agora têm sido informações que ninguém estava à espera, tais como a deslocação de cientistas do regime Nazi para os Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a conivência de Portugal em relação aos voos “secretos” da CIA, o envolvimento dos McCann no desaparecimento da filha, etc.
Qualquer dia virá a público uma notícia realmente bombástica e aí é que vão ser elas. Talvez estejam a guardar o melhor para o fim. Vamos esperar para ver.

15/12/10

TERMINUS 192: O ETERNO VICE

No momento em que se cozinha um possível aumento da idade da reforma, é estimulante ver como alguns titulares de cargos públicos fazem por se manter em funções, apesar de já terem ultrapassado o limite legal que lhes permitia isso. Mário Gomes Dias, o ex-Vice-Procurador Geral da República, reformou-se no dia 2 de Novembro, mas continua a desempenhar funções na Procuradoria Geral da República de forma "graciosa e voluntária a fim  de terminar os complexos dossiers que lhe foram entregues".
Já ouvi muita desculpa para uma pessoa não trabalhar. Eu próprio consigo fornecer-vos algumas de minha autoria, caso estejam interessados. Não estão? É pena. Como eu dizia, desculpas para não trabalhar há muitas; desculpas PARA trabalhar, são mais raras, mas também as há. Todavia, ter como argumento material de escritório, é do mais original que tenho ouvido nos últimos tempos.
Há qualquer coisa neste comportamento que não me soa bem. É assustadoramente parecido com um Vice PGR, já em situação de reforma, mandar arquivar um caso que envolve o Primeiro-Ministro. E depois diz-se, “Vamos proceder à abertura de um inquérito para apurar os factos.” Parece que 'tá carregadinho de testosterona; na verdade, vão só fazer perguntas. Se o culpado admitir, tanto melhor; se não, não se pode dizer que não fez nada.
Creio que a dedicação do Mário a estes dossiers não terá tanto que ver com o conteúdo, mas sim com a forma. Quem não se lembra dos seus tempos de escola, quando forrávamos os dossiers escolares com fotos dos nossos artistas favoritos? Talvez essa prática se mantenha na PGR. Visto que o Mário não tem os poderes que tinha antes, é uma boa forma de o manter entretido.
Agora vem a parte mais divertida desta historieta. A Procuradoria não confirma isto, atenção, porém, dizem que o senhor vai continuar a beneficiar de carro e motorista pessoal, além de um gabinete de trabalho. Mais. O Mário reformou-se depois da idade legal de reforma e tem direito a uma reforma de 6129 euros. No entanto, vai continuar a exercer funções na PGR, porque é o presidente da Comissão de Fiscalização dos Centros de Dados do Sistema de Informações da República Portuguesa, o conhecido TACHO.
Não tenho nada contra que o senhor continue em funções pelos anos de vida que ainda tiver pela frente. Todos nós conhecemos pessoas com mais 65 anos, ou mesmo 70, que continuam a trabalhar. A diferença é que não o fazem por falta de hobbie, e sim porque precisam de dinheiro para sobreviver. Sendo que muito desse trabalho é feito à revelia do Estado. Para o Mário é fácil manter o emprego até aos aos 70, ou mesmo até aos 90; difícil seria se tivesse de trabalhar a sério.
Uma última nota sobre a idade da reforma e o argumento do aumento da esperança média de vida: a esperança média de vida devia baixar para os 45. Isto só para não-políticos e não-titulares de cargos públicos. Fica a ideia.

14/12/10

TERMINUS 191: A FAVOR DA MINORIA DO PATRONATO

Recebi com grande alegria certas notícias divulgadas recentemente que dão conta de eventuais alterações ao Código do Trabalho. Desta vez, não para favorecer os trabalhadores, mas sim, para facilitar a vida aos patrões que tanto merecem. Para mim era um disparate tanta gente a pedir que se olhe para os mais desfavorecidos e ninguém prestar atenção aos patrões. A não ser o Governo, honra lhe seja feita.
Eu não sou patrão, sou trabalhador. E é por pertencer a essa maioria mais favorecida, e por ser uma “pessoa humana” (como está na moda dizer), que desejo expressar o meu aval a estas alterações que se aproximam.

PRIMEIRA ALTERAÇÃO: FACILIDADE NO DESPEDIMENTO INDIVIDUAL
Ora aí está uma boa medida. Pessoalmente, sempre procurei trabalhar em sectores mais voláteis. Gosto da adrenalina de saber que tenho emprego hoje e amanhã poderei já não o ter. Um emprego seguro para mim não dá. Preciso de excitação na minha vida profissional.

SEGUNDA ALTERAÇÃO: NÃO AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO
Mais uma bela ideia. E útil. Para quê querermos mais do que 475 euros mensais? Vamos comprar algum carro topo de gama? Fazer alguma viagem ao estrangeiro? Começar uma segunda família em Espanha? Nada disso. Mas, para um patrão, estas são apenas algumas das opções ao seu dispor. Não sejamos egoístas. Se não temos onde gastar o dinheiro, não vale a pena querer mais.
Se o salário mínimo subir para 500 euros por mês, cada trabalhador passa a receber apenas mais 25 euros; porém, o patrão passa a pagar mais 25 euros por cabeça. Se ele tiver, vamos supor, vinte trabalhadores, são 500 euros a mais; num ano são 6000 euros. É verdade que, para nós, 25 euros ajudam um pouco; mas, para o patrão, 6000 euros já dava para um fim de semana mais ou menos num hotel de luxo.

TERCEIRA ALTERAÇÃO: DIMINUIÇÃO DO CUSTO DO DESPEDIMENTO
Agora vem uma lição de História. Antes de a República ter sido implantada, não havia protecção como há hoje. O trabalhador que se aleije no exercício da sua função está protegido pelo seguro. Antigamente não; quem se aleijava ia para a rua. Portanto, o trabalhador ainda receber alguma indemnização, para mim, continua a ser melhor do que era antes. Isto quase que parece, desculpem que vos diga, birra de criança. Primeiro damos água, depois damos um litro de sumo, de seguida temos de dar uma lata porque já não temos dinheiro para mais garrafas; e começa a choradeira.

QUARTA ALTERAÇÃO: TRABALHAMOS POUCAS HORAS POR SEMANA
Sem comentários.

Enfim. Agrada-me a perspectiva de poder continuar a trabalhar mais por menos dinheiro e ser mais facilmente despedido com uma indemnização menor. Eu sei que custa, todavia é um sacrifício que faço para ajudar essa minoria.

13/12/10

TERMINUS 190: UMA NOVA AD

Regresso ao tema de Camarate porque continua a haver muito para discutir sobre este tópico. Será que vai haver mais um inquérito? Será que não? Quem matou JR Ewing, perdão, Sá Carneiro? (Peço desculpa, esta história de Camarate já se parece tanto com ficção que, por vezes, esqueço-me que não é.) Não faltam emoções, não faltam colóquios, livros. E apelos.
À direita do PS, militantes históricos do PSD e do CDS apelam a Pedro Passos Coelho e a Paulo Portas por uma nova Aliança Democrática. Imagino como seria se transportássemos esta cena para uma gala de finalistas. De um lado, Passos Coelho, rodeado pelos colegas mais velhos que insistem para ele ir falar com Paulo Portas. Do outro lado do salão, Paulo Portas, é também incentivado pelos seus pares a ir meter conversa com o futuro amigo.
Ambos estão inseguros. Passos Coelho, mais novo que Paulo Portas nestas andanças, ainda não ultrapassou o trauma de perder o seu parceiro de dança. Por seu lado, Paulo Portas já passou por duas tentativas. Se as coisas não correrem bem, teme pela sua integridade emocional.
Aos poucos, ganham coragem e iniciam a caminhada. Encontram-se a meio. Ouve-se uma música romântica. Os seus dedos tocam-se levemente e volta cada um para onde estava. Ainda não estão prontos.
Voltando à realidade, faz ou não sentido uma nova AD? Já respondo.
Esta AD (Aliança Democrática) é constituída pelo PSD (PPD/PSD, se for o Santana a dizer) e pelo CDS-PP. O CDS-PP já foi só PP (Partido Popular); herdou membros da ANP (Acção Nacional Popular), que em tempos tinha sido UN (União Nacional), o único partido que havia durante o período de Estado Novo. Faz-me pensar no tipo de democracia que se pretende instaurar. Por outro lado, não é assim tão diferente de ter o PS de Sócrates no governo, com maioria absoluta.
A diferença, em termos democráticos, do actual para o antigamente, é apenas uma: antigamente, se as coisas estivessem mal, não nos podíamos queixar; hoje podemos. Não que isso adiante muito. Para algumas pessoas, a opção de ter a ilusão de escolha e a possibilidade de se queixar é quanto basta para dizerem que vivemos em democracia.
Uma nova AD faz todo o sentido, portanto. Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque ter dois partidos no poder, principalmente se houver desentendimento, leva a que um tente fazer melhor do que o outro. Se a ruptura for iminente, tanto melhor. O ministro da Saúde do CDS aumenta o preço dos medicamentos? O ministro das Finanças do PSD baixa o IVA. Um compensa pelo o outro.
Em segundo lugar, e mais importante, ter uma nova AD pode dar azo a um novo voo e a uma nova queda. O que seria bom. Não digo a nível intrapartidário, mas a nível cinematográfico. O Caso Camarate começa a perder fôlego. Precisamos, com urgência, de um novo atentado. A ficção nacional agradece.

12/12/10

TERMINUS 189: NACIONALIDADE DE RESERVA

No ano em que se comemoram os cem anos da Proclamação da República, é tempo de olhar para trás e reflectir sobre o que foi feito. Há quem olhe para este período da nossa História e aponte defeitos, há quem aponte qualidades. Sobre os dias de hoje, só por acaso, não assim há muito de bom a apontar. Eu não estou a ser pessimista, não estou a incidir no clichê do coitadinho, apenas refiro a verdade. E a verdade é apenas esta: em cem anos nós não mudámos nada.
Pronto. Antes tínhamos um rei, agora temos um presidente. Mas na prática, o que é que isso interessa? Que podemos escolher quem nos governa, quem nos lidera? Até que ponto podemos apreciar a qualidade de uma escolha feita por um povo do mais analfabeto funcional que há na Europa? Não é à toa que a Educação vai ser a grande aposto do Governo de José Sócrates. É preciso manter o povo burro e incauto.
Alguns simpatizantes monárquicos aproveitam este momento de reavaliação para salientarem os valores e qualidades da sua causa. Reclamam o direito de representação do povo português. Nós (povo) estamos, ao que parece, reféns de um regime que não pedimos. Nós nunca pedimos a República. A República foi-nos imposta e isso não está certo.
Não entendo os argumentos de quem deseja viver numa monarquia. Quantas das pessoas que defendem o regresso a esse regime sabem, por experiência própria, do que estão a falar? Quase nenhumas. É tudo ouvido de boca. E todos sabemos como é popular o uso da expressão “No meu tempo é que era”. O problema é que, para nós, estar um rei ou estar um presidente ou um sultão ou a fada dos dentes, é praticamente a mesma coisa. Apenas mudam os elementos decorativos.
D. Duarte deve se ter percebido isso e requereu a nacionalidade timorense. É escusado ficar cá para tentar resolver o que seja. Estou certo que muitos não hesitarão em seguir-lhe o exemplo e pedir a nacionalidade a outros países se tiverem cabeça para pensar nisso. Mas, dentro do universo monárquico, há muitos que lhe apontam farpas e acusam-no de abandonar a Pátria. Parece-me um franco exagero.
Pode parecer um abandono, mas podem ficar descansados que não é. Não há qualquer perigo de a nacionalidade portuguesa desaparecer. Pode ficar... como um cartão de sócio de clube de vídeo perdido numa gaveta. Imaginem.
Escolhíamos um país tipo Finlândia, onde o sistema educativo e o sistema fiscal funcionam, e íamos viver para lá. Depois, sempre que tivéssemos saudades de políticos incompetentes e de um povo manso, bastava ir à gaveta procurar a nacionalidade e vir cá passar uns dias. Uma semana a ouvir os políticos de cá e regressávamos ao estrangeiro. De preferência a um país cuja língua não compreendêssemos de todo. Assim, mesmo que os políticos de lá dissessem tantas ou mais asneiras que os de cá, aos nossos olhos e ouvidos seriam sempre uma imagem do rigor e de coerência.

10/12/10

TERMINUS 188: EM NOME DA TRANSPARÊNCIA

Em Setembro deste ano o filho da secretária regional do Trabalho de um arquipélago português que não começa por M, recebeu do governo regional liderado por um senhor com apelido de imperador romano uma bolso de estudo no Continente no valor de 9500 euros. A este valor acrescente-se os custos das viagens de ida e volta entre Lisboa e as ilhas.

O filho queria ser piloto e a mãe ajudou-o. Como deve fazer uma boa mãe. Não há problema nenhum nisso. Quanta à área de formação em questão, Piloto de Linha Aérea, não estava contemplada no regulamento de concessão de bolsas de estudo. Não estava, mas passou a estar através duma portaria criada para o efeito.
 
"Nesta mesma prossecução, e com a experiência obtida, após a aplicação daquele diploma, urge responder a novas necessidades formativas, em especial aos cursos que visem formar pilotos profissionais de avião civil"

Isto é bonito de se ver e nada suspeito. Os outros bolseiros receberam apoio subsidiário até 65% da remuneração mínima mensal insular. O filhote teve direito a 150%. Talvez por ser a primeira vez que ia estar tão longe de casa, durante tanto tempo. Temendo que a sua coisa mai linda ficasse com muita saudade, a mamã quase que triplicou o subsídio para o filho.

Parece-lhe insuficiente? Tem razão. Falta aqui qualquer coisa, não é? Não se preocupe. A mamã pensou nisso também. Repare no documento que ela anexou à tal portaria.

"Podem aderir ao presente regime complementar de bolsa de estudo os alunos residentes permanentes na Região Autónoma (...) que, independentemente dos seus recursos económicos, da idade e do ano que frequentem, façam prova de estarem matriculados fora da Região Autónoma (...) num curso de formação profissional que satisfaça os requisitos fixados."

Pode achar irrisório o que lhe vou contar de seguida, mas asseguro que é verdade. Houve pessoas que colocaram em questão a legalidade ou, pelo menos, a ética destes procedimentos. Juro.

Como é óbvio, não tardou muito para que fosse divulgada uma nota oficial. Parece que a opção de “integrar esses apoios no regulamento das bolsas de estudo, [foi] apenas para tornar a atribuição do subsídio mais transparente". Espero que isto cale de vez as suspeitas de favorecimento e acrobacias legais várias nos Açores.

Ahhh! Não era para ter dito! Pronto. 'Tá dito, 'tá dito. Ainda bem que não sou funcionário público em S. Miguel. Arriscava-me a perder a minha remuneração compensatória. O que não me dava jeito nenhum.

09/12/10

TERMINUS 187: RELIGIÃO #2

Nesta tão bonita época natalícia, não há nada melhor do que, dando continuidade a um tema abordado anteriormente, falar de religião. Eu gosto da ideia génese da religião, que é o “faz de conta”. Enquanto somos crianças acreditamos no Pai Natal, no Coelhinho da Páscoa e outras figuras; até que chegamos a uma certa idade e percebemos que essas figuras não existem. No entanto, em relação a entidades sacras (e aqui não distingo católicos de judeus, nem protestantes, nem de muçulmanos, hindus, o que seja), a crença de que aquela, ou aquelas figuras, existe é inabalável. E isso, por um lado é inspirador, dada a volatilidade dos valores da nossa actual sociedade; porém, por outro, é contraditório.
Fernando Lucas, pára lá de escrever essa carta ao Pai Natal e anda com a mãe à Igreja acender uma velinha à Nossa Senhora dos Desemparados.”
Não dá. Há aqui qualquer coisa que não está a funcionar como era suposto. Eu não estou a pôr em causa que as pessoas acreditem ou deixem de acreditar naquilo que acharem que devem ou não de acreditar. É apenas uma questão de coerência. E se fosse esse o principal problema, ainda as coisas estariam muito bem. O problema é que, desconsiderando esta questão de dizerem às crianças para não acreditarem em figuras imaginárias, quando eles próprios fazem o mesmo, seria bom ver os adultos seguirem os exemplos das figuras que adoram.
Jesus defendia o abandono dos bens materiais. O Papa, seu representante máximo na Terra, anda com um ceptro de ouro, cravado de jóias; veste roupas de seda, com fios de ouro; tem um carro personalizado; tem um Estado próprio. Isto faz tanto sentido como alguém que sofra de obesidade mórbida ser eleito Presidente da Associação Nacional de Pessoas com Anorexia. A máxima “Faz como eu digo, não faças como eu faço” nunca fez tanto sentido.
Apesar de não ser crente, gostava de conhecer Jesus. Não tanto por admiração, lá está, mas para que me pudesse esclarecer uma dúvida que me apoquenta já há algum tempo. A saber: ele fez mesmo o milagre da multiplicação dos pães ou repetiu o milagre de transformar a água em vinho e aquilo que era um pão passou a ser vários? Quem souber, que responda.

08/12/10

TERMINUS 186: PONTAPÉ NO GORDINHO

Tem-se verificado uma preocupação crescente com o facto de as crianças passarem mais tempo na escola do que em casa. Isto é algo que é expectável à medida que vão progredindo na sua escolaridade, mas que é brutal quando se está a falar de alunos do 1º Ciclo. Quando eu frequentava esse período escolar, tinha aulas das 9h00 às 12h30, com intervalo de meia hora. Hoje em dia há crianças que entram às 9h00 e saem quase às 19h00 e não aprendem mais por estarem lá tanto tempo. Dadas as dificuldades que são colocadas aos professores para reprovar um aluno, quase que posso dizer que não precisam de aprender nada. Seja qual for o rendimento, passam todos. Porque o chumbo é “pedagogicamente lesivo”, como alguém disse em tempos.
No meu tempo, na escola, isto é, fora de casa e em espaço aberto, tinha oportunidade para correr e brincar. Todavia, e de acordo com Isabel Mourão, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o número de alunos em cada escola é demasiado elevado para as parcas dimensões das zonas de recreio. É dito, e com razão, que os equipamentos nos pátios não aliciam as crianças a brincar. Diz-se que isto é negativo.
Eu discordo.
É verdade que o equipamento não alicia à prática da actividade física, porém, em modo algum essa situação sustenta o argumento de que esta lacuna conduza à inércia física.
Os miúdos não têm as habilidades mais básicas como correr ou pontapear.”
Não é preciso pensar muito para se perceber que este argumento não tem qualquer lógica. Apesar de já não ser tão espectacular como era no meu tempo, ainda hoje se joga ao pontapé no gordinho. Se o gordinho estiver longe, os “caçadores” têm de correr atrás dele para evitar que ele fuja. De seguida, ao apanharem o gordinho, podem lhe dar pontapés até se fartarem. Se, por outro lado, o gordinho estiver logo à mão, perdão, ao pé de semear, poderá ser este a tentar a sua sorte e fugir.
Eu não acho que as crianças obesas sejam um problema difícil de solucionar. Primeira solução: quando o puto fizer birra porque quer comer dois borregos com chantily, é pregar-lhe um estalo bem assente e dar-lhe um pedaço de côdea rija. A segunda solução é incentivar entre as pessoas mais atléticas a prática de pontapear gordinhos. Correr e pontapear são duas actividades que nunca desaparecerão enquanto existir alguém com vontade de dar pontapés e alguém sem grandes capacidades para evitar isso.
Os pais de hoje preocupam-se muito com os filhos. O que não seria mau se eles se preocupassem com o que devem. Mas não. Se estiver muito frio ou muito sol na rua, os pais não deixam os filhos sair para evitar que fiquem doentes.
E isto é um erro. Não apenas porque conduz à obesidade e ao isolamento, mas também porque impede que as outras crianças cujos pais não são tão picuínhas tenham alguém com quem brincar. Se não estiverem gordinhos na rua para pontapear, as outras crianças vão pontapear quem? É uma questão que devia incomodar muita gente. Infelizmente, parece que estou sozinho no meu desagrado.

07/12/10

TERMINUS 185: DIÁLOGO COMENTADO

Senhoras e senhores, sejam bem vindos a mais um round para-lamentar que irá opôr o Secretário-Geral do PS e Primeiro-Ministro de Portugal, o senhor Engenheiro José Sócrates ao líder do Bloco de Esquerda, o Dr. Francisco Louçã. Nos comentários estão dois cidadãos anónimos, que assim permanecerão afim de evitar represálias. Inicia o Dr. Louçã.

LOUÇÃ: Sr. Primeiro-Ministro, queria saber se está em condições de me assegurar que nenhum membro do Governo do seu Governo autorizou ou teve conhecimento de qualquer transporte de prisioneiros da CIA por território português para o gulag de Guantánamo.
Cá está. Louçã a começar ao ataque com uma questão que, ao mesmo tempo que visa obter informações delicadas, incide ainda sobre a própria capacidade de José Sócrates responder à questão.
É verdade. Louçã frisou que a sua intenção é aferir de actos realizados em exclusivo pelo Governo liderado por José Sócrates. Vamos ver como reage o Primeiro-Ministro Português.
SÓCRATES: Sr. Deputado Francisco Louçã, respondo, com o maior gosto: nunca nenhum membro deste Governo, nunca este Governo foi informado ou recebeu qualquer espécie de pedido de autorização para sobrevoo do nosso espaço aéreo, ou para aterragem na Base das Lajes, de aviões que se destinassem ao transporte ou à transferência de prisioneiros. Nunca aconteceu neste Governo, nem temos no Ministério dos Negócios Estrangeiros registo que possa indiciar que essa consulta existiu no passado.
José Sócrates a negar conhecimento de qualquer acto de conivência perpetrado pelo seu Governo, ou anteriores mandatários, certamente para não ferir politicamente ninguém do seu ideário político. Continua José Sócrates.
Quero dizer-lhe, Sr. Deputado, que o relatório recentemente divulgado não ajuda à verdade e é profundamente mistificador, porque rejeito e refuto, em absoluto, a acusação infundada que é dirigida ao nosso país de que Portugal ajudou, ou apoiou, alguma transferência de prisioneiros, violando, além de mais, as normas internacionais do direito em que nos baseamos.
A segunda parte da resposta de José Sócrates é inequívoca e não demonstra qualquer receio de “agarrar o boi pelos cornos”, por assim dizer.
Deixa-me só acrescentar este ponto que parece-me ser importante. José Sócrates afirma que, não só o relatório não ajuda à verdade como é “profundamente mistificador”. Foi um bom remate. Vamos ver como reage Francisco Louçã.
LOUÇÃ: Sr. Primeiro-Ministro, concorda, então, comigo que, se algum membro do Governo tivesse faltado aos seus deveres de verdade para com o País (ou qualquer membro da Administração Pública), neste caso, deveria ser demitido.
Francisco Louçã reage com algo que não se percebe se é uma questão concreta ou uma pergunta de retórica.
A mim parece-me ser uma pergunta de retórica; talvez algo sustentado na relação que mantêm no apoio a um candidato presidencial comum. Note-se também o facto de Louçã ter deixado de apontar o dedo somente ao Governo de Sócrates e ter apontado o dedo ao Governo em geral.
Parece ser uma forma subliminar de dizer “Eu nunca fui do Governo, não tenho nada a ver com isso.” Responde agora José Sócrates.
SÓCRATES: Sr. Deputado Francisco Louçã, nenhum membro do Governo faltou à verdade sobre este caso.
Consultei todos os membros do Governo com responsabilidades neste domínio e devo dizer que o Governo português nunca foi consultado sobre essa possibilidade nem nunca autorizou. Posso responder-lhe em nome deste Governo que nunca aconteceu termos sido consultados e termos autorizado. Estes dois actos nunca existiram!
José Sócrates insiste na negação. Com muita veemência, diga-se.
Exacto. Sócrates responde em nome do seu Governo, o que não invalida a responsabilidade de Governos anteriores.
Sim. Por outro lado, só foram consultados os membros do Governo com responsabilidade neste domínio. Nada garante que não tenham sido chamados a intervir pessoas sem responsabilidade, tanto neste, como em qualquer outro domínio. Candidatos não hão-de faltar.
De facto. É a última intervenção de José Sócrates. Vamos ver se tem algum trunfo na manga.
E digo mais: no Ministério dos Negócios Estrangeiros, não há registo algum que nos dê ideia de que tal tivesse acontecido no passado.
A nossa política externa baseia-se no Direito Internacional e fico particularmente ofendido com um relatório que pretende colocar Portugal no centro ou na rota da infâmia. Não aceito isso! E lamento muito que outros Deputados o aceitem ou procurem incentivar esse caminho, porque tal nunca aconteceu!
É incrível como José Sócrates fica sentido quando alguém tenta colocar Portugal no centro ou na rota da infâmia.
Realmente. É caso para dizer. se não houvesse comunicação social haveria muito mais estabilidade.
Sem dúvida. Louçã prepara-se para responder. Vamos escutá-lo.
LOUÇÃ: Sr. Primeiro-Ministro, ficamos, portanto, com todas as boas razões para a constituição de uma comissão de inquérito sobre esta matéria.
Ooooh! Foi um empate. Que pena!
É um resultado triste. Vamos esperar pelo próximo encontro. Pode ser que seja mais interessante.

06/12/10

TERMINUS 184: A MODA DOS DOCUMENTOS SECRETOS

Consta que está na moda a desclassificação de documentos secretos. Ou, fraseando melhor, está na moda a divulgação de documentos, em tempos, secretos, que não vêm contar nada de novo. O grande alvo destas “revelações bombásticas” tem sido os Estados Unidos. Ainda durante a semana que passou, através do site Wikileaks foi revelado um telegrama que relançava as suspeitas de conivência do Governo Português para com os Serviços Secretos Americanos, a propósito do transporte de prisioneiros para Guantánamo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, já respondeu. Por escrito e através duma porta-voz, não fosse alguém topar que ele não estava a dizer coisa com coisa. Paula Mascarenhas citou e lamentou "a manipulação oportunista" de quem confunde o repatriamento de detidos com esses voos.
Expliquem-me, devagar, de preferência, para que eu perceba bem. O que é o repatriamento de detidos? A julgar pela palavra, parece-me que repatriar é trazer de volta à pátria, certo? Estamos, portanto, a falar de detidos cubanos. Mas se eles vinham do Afeganistão e do Iraque e outros territórios, afinal não eram cubanos. E se estavam detidos, porquê levarem-nos para Guantanamo? Não podiam ficar onde estavam?
O que me anima é, apesar de tudo, os responsáveis do MNE não terem vindo com subterfúgios. Foram o mais claros possível, e isso é bom. Foi tudo bem explicado "em sede de comissão parlamentar e no âmbito do inquérito aberto pela Procuradoria-Geral da República, ao qual foi fornecida exaustiva documentação para uma avaliação pormenorizada e que foi arquivado em junho 2009".
Outras duas revelações produzidas por este sítio referem o transporte clandestino de cientistas ligados ao Regime Nazi para os Estados Unidos e uma ponderação de invasão da Base das Lajes por parte das forças norte-americanas perante o perigo do PCP tomar conta do Governo Português.
Sobre a primeira, lamento desapontar o senhor Julian Assange, mas o Chris Carter já se tinha saído com essa num episódio dos Ficheiros Secretos. Não é nada de novo. Todavia, fez a alegria de muito teórico da conspiração que veio para a rua gritar “Vêem? Eu disse! Eu disse!”.
Sobre a segunda, é pena a invasão dos Açores não ter acontecido. O nosso país seria certamente um lugar diferente se os americanos tivessem tomado conta das Lajes.
Num universo paralelo, talvez nesse território se situe mais uma prisão secreta. Talvez um sítio tipo Wikileaks revele segredos escabrosos da diplomacia internacional, nomeadamente da nossa. De preferência algo que não seja sabido por quase todos e assumido por quase ninguém.

05/12/10

TERMINUS 183: FOME DE NATAL


A cada dia que passa eu aprecio cada vez mais a espécie humana. Há alturas em que nem por isso, porém há outras em que é pérola atrás de pérola. A mais recente foi um estudo sobre a obesidade, realizado em oito países europeus, que concluiu que devemos reduzir o consumo de pão e arroz brancos. Esta notícia vem um nadinha atrasada, porque estamos naquela altura do ano em que aquilo de que se fala é fome. A fartura, chamemos-lhe assim, é só no resto do ano.
Não estou aqui para menosprezar o problema dos gordinhos; estou a apenas a cingir-me àquilo que a actualidade nos mostra. Quem ainda não vendeu a sua televisão e tem dinheiro para ligá-la uma vez por dia pode confirmar que, de há um mês para cá, começou uma onda de notícias sobre idas ao Banco Alimentar Contra a Fome e outras iniciativas do género. Todos os dias são realizados vinte e sete directos à Cantina da Santa Casa da Misericórdia de Valongo ou ao Abrigo do Sem-Abrigo de Penacova ou a dezenas de outros locais sempre apinhados de gente à procura de algo para comer.
É verdade que é uma causa importante, mas o massacre é tanto que uma pessoa perde a pachorra. E o pior é que isto não dá em nada. Na noite da Consoada há sopinha para todos, no dia seguinte é um pontapé no rabo e 'tá no ir. Não acredito que o espíritinho de Natal deixe as pessoas mais solidárias. Mas tenho também algumas dúvidas de que os beneficiários só tenham fome nesta altura do ano.
Dos vários tipos de pessoa que vão à Sopa dos Pobres, gosto principalmente da atitude de quem lá vai de jipe. Há quem critique isto. Eu não. Porque sei que um jipe é caro e uma pessoa ou opta pela comida, ou opta pelo jipe. Se calhar o senhor mora longe do sítio onde fica a sopa dos pobres. Sem jipe, tinha de ir a pé, mas depois não tinha onde transportar a comida.
Deixem-me fazer um outro aparte. Sobre Teixeira dos Santos. Não me parece bem que o senhor que nos obriga a mudar de refeições diárias para refeição diária, aperte o seu cinto no primeiro botão. E mesmo assim fica-lhe apertado. A minha proposta? Uma dieta rigorosa. Ou então substituí-lo por um etíope.
Voltando ao estudo, os seus autores defendem que as pessoas devem optar por “uma dieta rica em proteínas com mais carnes magras, lacticínios com baixo teor de gorduras e legumes”. Em Portugal há quem siga essa dieta à risca. Não tanto por ter problemas de obesidade, apenas porque não tem nada para comer. Isto não é piada, embora tenha uma certa graça perceber como a solidariedade enche tanto bolsos, como estômagos.
Sou uma pessoa que acredita no equilíbrio e dá gosto ver como estes dois fenómenos se cruzam. Num lado, pessoas que comem demais, do outro pessoas que não têm que comer. Gastam-se horas de emissão e rios de tinta a falar disto. A mim parece-me uma questão de fácil solução.

04/12/10

TERMINUS 182: APROVEITANÇO E MÂNDRIA

 Existe uma diferença entre poupar e mandriar que algumas pessoas teimam em não reconhecer. Uma coisa é poupar, aproveitando o que há para não produzir além do que é necessário; outra coisa é não fazer nada, aproveitando o trabalho dos outros. Há dias tivemos um bonito exemplo disso.
O ministro das Obras Públicas, António Mendonça, e o seu secretário de Estado, Paulo Campos, repetiram o mesmo discurso na abertura e no fecho do Congresso das Comunicações.
Para o cidadão incauto, parece que este aproveitamento do mesmo discurso na mesma cerimónia é um claro exemplo de mandriice. Entendo que possa pensar assim; no entanto, não é isso que se sucede neste caso.
Após Cavaco Silva, não me recordo se como Presidente, se como candidato, ter dito que era preciso haver poupança nas palavras, seria lógico pensar que haveria quem seguisse essa recomendação. Estando o Governo de tão boas relações com o inquilino de Belém, seria plausível aceitar-se que esses gestos partiriam de membros do executivo socialista. É provável que isso venha a acontecer, mas não por agora.
Na verdade, mais do que um exercício de poupança ou mandriice, a repetição do discurso serviu um propósito totalmente diferente. No meu tempo de escola, no tempo em que os professores tinham como função primária ensinar e não preencher relatórios e pedidos de aquisição de papel higiénico, era prática comum o professor interromper o seu discurso para questionar algum aluno desatento sobre parte da matéria. Sempre que isso acontecia, na maioria dos casos, o aluno ficava atrapalhado e incapacitado de responder à questão. Neste tal Congresso das Comunicações passou-.se quase isso.
A ideia seria colocar questões aos presentes após o discurso de encerramento, para ver quem é que tinha prestado atenção e quem é que tinha andado por ali “na boa vai ela”. Além de separar os participantes atentos dos desatentos, essa iniciativa serviria para esclarecer algumas dúvidas que pudessem haver. Era uma boa ideia. Sem dúvida. Só falhou num aspecto. Após o discurso de encerramento não houve mais Congresso para ninguém porque foi tudo para casa.
Pessoalmente, não me importo que este discurso tenha ficado por esclarecer. As minhas dúvidas interpretativas têm que ver somente com o discurso de justificação apresentado pelo ministério das Obras Públicas.
Partes comuns em relação aos resultados obtidos, à caracterização da agenda digital e objectivos para o futuro. São os números reais e é essa a mensagem do Governo.”
Qual mensagem? Eu não entendi mensagem nenhuma. Na segunda frase ainda vá; agora na primeira... Para mim que não sou político, mas gosto de lhes dar alpista de vez em quando, isto não justifica repetirem o discurso, mas justifica alguém ir fazer terapia da sintaxe.

03/12/10

TERMINUS 181: FLEXIBILIDADE POLÍTICA

Quando eu era pequeno fui praticante de Ginástica. Não se pode dizer que tenha sido atleta, já que estive lá pouco tempo e o jeito não era muito. Mais tarde, nas aulas de Educação Física, tornei a ter contacto com esse desporto. Sempre fiel a mim mesmo, o jeito para a coisa continuava a ser escasso.
Fiz esta pequena viagem ao passado porque, apesar de não ter jeito para a coisa, sei que há limites para aquilo que o nosso corpo pode suportar. Há movimentos e posições que, pura e simplesmente, são autênticos atentados à coluna.
Manuel Alegre, candidato à Presidência da República, é um grande exemplo disso. Apoiado pelo Partido Socialista, partido ao qual pertence, e pelo Bloco de Esquerda, partido ao qual alguns gostariam que pertencesse, Manuel Alegre contorce-se de tal forma que até uma contorcionista tailandesa ficaria impressionada com tamanha flexibilidade.
É certo que qualquer político tem uma flexibilidade fora do vulgar quando comparada à de um ser humano normal. Fazendo referência a um artigo que publiquei há meses, todos os partidos defendiam a redução do número de deputados, desde que essa redução não fosse em relação à sua bancada. Faz parte da vida política dizer uma coisa e fazer o oposto. No caso de Manuel Alegre, a situação é diferente. Manuel Alegre ainda só está na fase de dizer e já está a ser defendido por Governo e Oposição.
Num comício organizado pelo Bloco, Jorge Costa, um dos oradores, proferiu as seguintes declarações:
O ministro Luís Amado diz que o país precisa de uma coligação entre o PS e o PSD, mas o Bloco tem dito sempre que esta coligação já existe, já está em prática e chama-se PEC I, II, III e Orçamento de Estado.”
Até aqui, ataque ao PS e ao PSD. Continuemos.
Esta coligação tem um programa, uma maioria e um presidente.”
Quem será ele?
O presidente é Cavaco Silva, e é quem articula essa política, e apadrinhou o Orçamento de Estado, e é contra esta política, esta maioria parlamentar e este presidente que é preciso erguer uma resposta adequada, e temos uma candidatura alternativa e uma campanha presidencial forte e vencedora em torno de Manuel Alegre.”
Que é militante do PS. Repararam na ginástica? Isto impressiona-me.
No mesmo discurso o candidato Alegre é capaz de defender e atacar ideias dos seus dois apoiantes e nenhum deles lhe retira ou reforça o seu apoio. Como é que consegue?
Será possível que Manuel Alegre não tenha espinha? Não falo em ausência de escrúpulos, falo literalmente em não ter espinha. Que outra explicação pode haver para tamanha flexibilidade? Parece uma cana de bambu. As canas de bambu vergam, mas não quebram. Não quero com isto dizer que Manuel Alegre seja inquebrável, apenas oscilante demais para se perceber se prefere ser apoiado pela Direita ou pela Esquerda.
Aflige-me ver pessoas em esforço, como tal não me vou esforçar mais a pensar nisto. Pelo menos por agora.

EDIÇÃO ESPECIAL

O artigo seguinte foi publicado na edição de 1 de Dezembro d'O Primeiro de Janeiro, a propósito dos 142 anos do referido jornal. O meu obrigado aos seus responsáveis por me convidarem a fazer parte dessa edição histórica.



LIÇÕES DE VIDA

"Com o fisco, paga-se sempre e nunca se questiona, porque naturalmente depois é-se obrigado a pagar mais."
- Uma Campanha Alegre
(Volume I, Capítulo XLVIII: O fisco na província)
Eça de Queiroz

Quando eu era pequeno queria ser arranjador. A especificidade do termo iludia-me então. O meu léxico enquanto criança era pouco vasto e era frequente utilizar termos incorrectos para designar certas situações com as quais estava pouco familiarizado. Perguntavam-me o que é que eu queria ser quando fosse grande. E eu respondia o melhor que sabia: arranjador.
Estava convencido de que um dia seria alguém que arranjaria objectos ou situações. Sabia que o termo “arranjar” tanto se podia referir a “reparar” como a “conseguir”. Devido à minha fraca destreza a nível de trabalhos manuais, e também ao facto de eu escangalhar brinquedos com frequência, não era preciso pensar muito para perceber que o meu futuro não estaria tanto nas reparações, mas sim nas aquisições.
Há dias fui contactado pelo director d'O Primeiro de Janeiro, jornal com o qual colaboro desde Maio deste ano com alguns textos que, alguns de vocês, já terão lido. Pedia-me o senhor Rui que escrevesse um artigo alusivo aos 142 anos do jornal. E eu disse, tudo bem, que é o que se diz nestas ocasiões. É como quando alguém nos pede um favor e nós dizemos que sim e quando a chega a altura percebemos que devíamos ter dito não. Não por falta de vontade, apenas porque percebemos que podemos não ser capazes de prestar esse favor.
A vida tem coisas curiosas e acontece, não raras vezes, eventos tomados como insignificantes do nosso passado ressurgirem de forma inesperada. Sem que me apercebesse disso, estava a ser contactado para fazer aquilo que em criança previa ser o meu futuro: arranjar. Neste caso, arranjar um artigo. O problema era que não fazia a mais pequena ideia do que ia escrever. E continuo sem saber.
Como é que se fala dum jornal que se conhece há tão pouco tempo? Eu sei que O Primeiro de Janeiro é um jornal antigo, mas eu tenho 30 anos e ainda só tive três exemplares nas mãos. Vivo na zona da Grande Lisboa e, apesar de O Primeiro de Janeiro ter distribuição por cá, é difícil conseguir encontrar um exemplar do jornal à venda. Só quando calho a passar na zona do Grande Porto é que tenho hipótese de adquirir um exemplar em papel.
Bom, uma coisa é certa. Ter 142 anos e ainda estar nas bancas é muito bom sinal. É sinal de vitalidade, de perseverança, de persistência. Há jornais que mal chegam aos 142 meses, quanto mais 142 anos. Quem começou o negócio e quem o herdou teve olho para a coisa. Eu não posso dizer o mesmo. Em tempos pensei em montar uma barraquinha de limonadas, imitando os negócios dos sobrinhos do Pato Donald e outros personagens da banda desenhada que lia quando era criança. Desde pequeno que tenho ideias boas, mas quando à parte de executá-las... Neste caso da limonada, acabei por beber o jarro inteiro que tinha feito e fiquei com uma dor de estômago do camandro.
Apesar da longevidade, nem tudo foram bons momentos. É normal num período tão longo terem existido alguns problemas de percurso. Faz parte do negócio. Um jornal que não passe por adversidades é como alguém que nunca tropeça. Cair faz parte da vida.
O Portugal de 1868 era muito diferente do Portugal dos dias de hoje. O Governo era disputado por dois grandes partidos, havia despesismo por parte da família real e o povo passava por grandes dificuldades. Hoje em dia, há quem diga que estamos na mesma ou pior. Sem referir a mudança de regime, a grande diferença que nos separa dos nossos antepassados de há 142 anos é o facto de termos computadores que nos permitem aceder à Internet e tomar contacto com outros países que sabem fazer as coisas como deve ser.
Parece pouco, mas olhe que não é. Sem a Internet eu não teria descoberto o Primeiro de Janeiro à distância de um clique e você não estaria a ler isto. É verdade que podia estar a ler algo muito melhor. (Qualquer outro texto escrito por mim, por exemplo.) Quis o destino que assim não fosse, que estivesse a ler este meu testemunho.
Daqui a largos anos não sei se continuarei a escrever para aqui, mas estou certo de que O Primeiro de Janeiro continuará. De 1868 até 2010 muito aconteceu em Portugal e no mundo e O Primeiro de Janeiro esteve lá para reportar a informação. Acredito que enquanto existirem eventos para noticiar, O Primeiro de Janeiro estará presente para o fazer.
Sobre a citação no início do artigo, é apenas uma lição de vida que achei por bem partilhar com quem me lê. Quem não me lê, que reclame de pagar 3 em vez de 2 para passar a pagar 5.