03/12/10

EDIÇÃO ESPECIAL

O artigo seguinte foi publicado na edição de 1 de Dezembro d'O Primeiro de Janeiro, a propósito dos 142 anos do referido jornal. O meu obrigado aos seus responsáveis por me convidarem a fazer parte dessa edição histórica.



LIÇÕES DE VIDA

"Com o fisco, paga-se sempre e nunca se questiona, porque naturalmente depois é-se obrigado a pagar mais."
- Uma Campanha Alegre
(Volume I, Capítulo XLVIII: O fisco na província)
Eça de Queiroz

Quando eu era pequeno queria ser arranjador. A especificidade do termo iludia-me então. O meu léxico enquanto criança era pouco vasto e era frequente utilizar termos incorrectos para designar certas situações com as quais estava pouco familiarizado. Perguntavam-me o que é que eu queria ser quando fosse grande. E eu respondia o melhor que sabia: arranjador.
Estava convencido de que um dia seria alguém que arranjaria objectos ou situações. Sabia que o termo “arranjar” tanto se podia referir a “reparar” como a “conseguir”. Devido à minha fraca destreza a nível de trabalhos manuais, e também ao facto de eu escangalhar brinquedos com frequência, não era preciso pensar muito para perceber que o meu futuro não estaria tanto nas reparações, mas sim nas aquisições.
Há dias fui contactado pelo director d'O Primeiro de Janeiro, jornal com o qual colaboro desde Maio deste ano com alguns textos que, alguns de vocês, já terão lido. Pedia-me o senhor Rui que escrevesse um artigo alusivo aos 142 anos do jornal. E eu disse, tudo bem, que é o que se diz nestas ocasiões. É como quando alguém nos pede um favor e nós dizemos que sim e quando a chega a altura percebemos que devíamos ter dito não. Não por falta de vontade, apenas porque percebemos que podemos não ser capazes de prestar esse favor.
A vida tem coisas curiosas e acontece, não raras vezes, eventos tomados como insignificantes do nosso passado ressurgirem de forma inesperada. Sem que me apercebesse disso, estava a ser contactado para fazer aquilo que em criança previa ser o meu futuro: arranjar. Neste caso, arranjar um artigo. O problema era que não fazia a mais pequena ideia do que ia escrever. E continuo sem saber.
Como é que se fala dum jornal que se conhece há tão pouco tempo? Eu sei que O Primeiro de Janeiro é um jornal antigo, mas eu tenho 30 anos e ainda só tive três exemplares nas mãos. Vivo na zona da Grande Lisboa e, apesar de O Primeiro de Janeiro ter distribuição por cá, é difícil conseguir encontrar um exemplar do jornal à venda. Só quando calho a passar na zona do Grande Porto é que tenho hipótese de adquirir um exemplar em papel.
Bom, uma coisa é certa. Ter 142 anos e ainda estar nas bancas é muito bom sinal. É sinal de vitalidade, de perseverança, de persistência. Há jornais que mal chegam aos 142 meses, quanto mais 142 anos. Quem começou o negócio e quem o herdou teve olho para a coisa. Eu não posso dizer o mesmo. Em tempos pensei em montar uma barraquinha de limonadas, imitando os negócios dos sobrinhos do Pato Donald e outros personagens da banda desenhada que lia quando era criança. Desde pequeno que tenho ideias boas, mas quando à parte de executá-las... Neste caso da limonada, acabei por beber o jarro inteiro que tinha feito e fiquei com uma dor de estômago do camandro.
Apesar da longevidade, nem tudo foram bons momentos. É normal num período tão longo terem existido alguns problemas de percurso. Faz parte do negócio. Um jornal que não passe por adversidades é como alguém que nunca tropeça. Cair faz parte da vida.
O Portugal de 1868 era muito diferente do Portugal dos dias de hoje. O Governo era disputado por dois grandes partidos, havia despesismo por parte da família real e o povo passava por grandes dificuldades. Hoje em dia, há quem diga que estamos na mesma ou pior. Sem referir a mudança de regime, a grande diferença que nos separa dos nossos antepassados de há 142 anos é o facto de termos computadores que nos permitem aceder à Internet e tomar contacto com outros países que sabem fazer as coisas como deve ser.
Parece pouco, mas olhe que não é. Sem a Internet eu não teria descoberto o Primeiro de Janeiro à distância de um clique e você não estaria a ler isto. É verdade que podia estar a ler algo muito melhor. (Qualquer outro texto escrito por mim, por exemplo.) Quis o destino que assim não fosse, que estivesse a ler este meu testemunho.
Daqui a largos anos não sei se continuarei a escrever para aqui, mas estou certo de que O Primeiro de Janeiro continuará. De 1868 até 2010 muito aconteceu em Portugal e no mundo e O Primeiro de Janeiro esteve lá para reportar a informação. Acredito que enquanto existirem eventos para noticiar, O Primeiro de Janeiro estará presente para o fazer.
Sobre a citação no início do artigo, é apenas uma lição de vida que achei por bem partilhar com quem me lê. Quem não me lê, que reclame de pagar 3 em vez de 2 para passar a pagar 5.

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