05/12/10

TERMINUS 183: FOME DE NATAL


A cada dia que passa eu aprecio cada vez mais a espécie humana. Há alturas em que nem por isso, porém há outras em que é pérola atrás de pérola. A mais recente foi um estudo sobre a obesidade, realizado em oito países europeus, que concluiu que devemos reduzir o consumo de pão e arroz brancos. Esta notícia vem um nadinha atrasada, porque estamos naquela altura do ano em que aquilo de que se fala é fome. A fartura, chamemos-lhe assim, é só no resto do ano.
Não estou aqui para menosprezar o problema dos gordinhos; estou a apenas a cingir-me àquilo que a actualidade nos mostra. Quem ainda não vendeu a sua televisão e tem dinheiro para ligá-la uma vez por dia pode confirmar que, de há um mês para cá, começou uma onda de notícias sobre idas ao Banco Alimentar Contra a Fome e outras iniciativas do género. Todos os dias são realizados vinte e sete directos à Cantina da Santa Casa da Misericórdia de Valongo ou ao Abrigo do Sem-Abrigo de Penacova ou a dezenas de outros locais sempre apinhados de gente à procura de algo para comer.
É verdade que é uma causa importante, mas o massacre é tanto que uma pessoa perde a pachorra. E o pior é que isto não dá em nada. Na noite da Consoada há sopinha para todos, no dia seguinte é um pontapé no rabo e 'tá no ir. Não acredito que o espíritinho de Natal deixe as pessoas mais solidárias. Mas tenho também algumas dúvidas de que os beneficiários só tenham fome nesta altura do ano.
Dos vários tipos de pessoa que vão à Sopa dos Pobres, gosto principalmente da atitude de quem lá vai de jipe. Há quem critique isto. Eu não. Porque sei que um jipe é caro e uma pessoa ou opta pela comida, ou opta pelo jipe. Se calhar o senhor mora longe do sítio onde fica a sopa dos pobres. Sem jipe, tinha de ir a pé, mas depois não tinha onde transportar a comida.
Deixem-me fazer um outro aparte. Sobre Teixeira dos Santos. Não me parece bem que o senhor que nos obriga a mudar de refeições diárias para refeição diária, aperte o seu cinto no primeiro botão. E mesmo assim fica-lhe apertado. A minha proposta? Uma dieta rigorosa. Ou então substituí-lo por um etíope.
Voltando ao estudo, os seus autores defendem que as pessoas devem optar por “uma dieta rica em proteínas com mais carnes magras, lacticínios com baixo teor de gorduras e legumes”. Em Portugal há quem siga essa dieta à risca. Não tanto por ter problemas de obesidade, apenas porque não tem nada para comer. Isto não é piada, embora tenha uma certa graça perceber como a solidariedade enche tanto bolsos, como estômagos.
Sou uma pessoa que acredita no equilíbrio e dá gosto ver como estes dois fenómenos se cruzam. Num lado, pessoas que comem demais, do outro pessoas que não têm que comer. Gastam-se horas de emissão e rios de tinta a falar disto. A mim parece-me uma questão de fácil solução.

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