06/12/10

TERMINUS 184: A MODA DOS DOCUMENTOS SECRETOS

Consta que está na moda a desclassificação de documentos secretos. Ou, fraseando melhor, está na moda a divulgação de documentos, em tempos, secretos, que não vêm contar nada de novo. O grande alvo destas “revelações bombásticas” tem sido os Estados Unidos. Ainda durante a semana que passou, através do site Wikileaks foi revelado um telegrama que relançava as suspeitas de conivência do Governo Português para com os Serviços Secretos Americanos, a propósito do transporte de prisioneiros para Guantánamo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, já respondeu. Por escrito e através duma porta-voz, não fosse alguém topar que ele não estava a dizer coisa com coisa. Paula Mascarenhas citou e lamentou "a manipulação oportunista" de quem confunde o repatriamento de detidos com esses voos.
Expliquem-me, devagar, de preferência, para que eu perceba bem. O que é o repatriamento de detidos? A julgar pela palavra, parece-me que repatriar é trazer de volta à pátria, certo? Estamos, portanto, a falar de detidos cubanos. Mas se eles vinham do Afeganistão e do Iraque e outros territórios, afinal não eram cubanos. E se estavam detidos, porquê levarem-nos para Guantanamo? Não podiam ficar onde estavam?
O que me anima é, apesar de tudo, os responsáveis do MNE não terem vindo com subterfúgios. Foram o mais claros possível, e isso é bom. Foi tudo bem explicado "em sede de comissão parlamentar e no âmbito do inquérito aberto pela Procuradoria-Geral da República, ao qual foi fornecida exaustiva documentação para uma avaliação pormenorizada e que foi arquivado em junho 2009".
Outras duas revelações produzidas por este sítio referem o transporte clandestino de cientistas ligados ao Regime Nazi para os Estados Unidos e uma ponderação de invasão da Base das Lajes por parte das forças norte-americanas perante o perigo do PCP tomar conta do Governo Português.
Sobre a primeira, lamento desapontar o senhor Julian Assange, mas o Chris Carter já se tinha saído com essa num episódio dos Ficheiros Secretos. Não é nada de novo. Todavia, fez a alegria de muito teórico da conspiração que veio para a rua gritar “Vêem? Eu disse! Eu disse!”.
Sobre a segunda, é pena a invasão dos Açores não ter acontecido. O nosso país seria certamente um lugar diferente se os americanos tivessem tomado conta das Lajes.
Num universo paralelo, talvez nesse território se situe mais uma prisão secreta. Talvez um sítio tipo Wikileaks revele segredos escabrosos da diplomacia internacional, nomeadamente da nossa. De preferência algo que não seja sabido por quase todos e assumido por quase ninguém.

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