08/12/10

TERMINUS 186: PONTAPÉ NO GORDINHO

Tem-se verificado uma preocupação crescente com o facto de as crianças passarem mais tempo na escola do que em casa. Isto é algo que é expectável à medida que vão progredindo na sua escolaridade, mas que é brutal quando se está a falar de alunos do 1º Ciclo. Quando eu frequentava esse período escolar, tinha aulas das 9h00 às 12h30, com intervalo de meia hora. Hoje em dia há crianças que entram às 9h00 e saem quase às 19h00 e não aprendem mais por estarem lá tanto tempo. Dadas as dificuldades que são colocadas aos professores para reprovar um aluno, quase que posso dizer que não precisam de aprender nada. Seja qual for o rendimento, passam todos. Porque o chumbo é “pedagogicamente lesivo”, como alguém disse em tempos.
No meu tempo, na escola, isto é, fora de casa e em espaço aberto, tinha oportunidade para correr e brincar. Todavia, e de acordo com Isabel Mourão, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o número de alunos em cada escola é demasiado elevado para as parcas dimensões das zonas de recreio. É dito, e com razão, que os equipamentos nos pátios não aliciam as crianças a brincar. Diz-se que isto é negativo.
Eu discordo.
É verdade que o equipamento não alicia à prática da actividade física, porém, em modo algum essa situação sustenta o argumento de que esta lacuna conduza à inércia física.
Os miúdos não têm as habilidades mais básicas como correr ou pontapear.”
Não é preciso pensar muito para se perceber que este argumento não tem qualquer lógica. Apesar de já não ser tão espectacular como era no meu tempo, ainda hoje se joga ao pontapé no gordinho. Se o gordinho estiver longe, os “caçadores” têm de correr atrás dele para evitar que ele fuja. De seguida, ao apanharem o gordinho, podem lhe dar pontapés até se fartarem. Se, por outro lado, o gordinho estiver logo à mão, perdão, ao pé de semear, poderá ser este a tentar a sua sorte e fugir.
Eu não acho que as crianças obesas sejam um problema difícil de solucionar. Primeira solução: quando o puto fizer birra porque quer comer dois borregos com chantily, é pregar-lhe um estalo bem assente e dar-lhe um pedaço de côdea rija. A segunda solução é incentivar entre as pessoas mais atléticas a prática de pontapear gordinhos. Correr e pontapear são duas actividades que nunca desaparecerão enquanto existir alguém com vontade de dar pontapés e alguém sem grandes capacidades para evitar isso.
Os pais de hoje preocupam-se muito com os filhos. O que não seria mau se eles se preocupassem com o que devem. Mas não. Se estiver muito frio ou muito sol na rua, os pais não deixam os filhos sair para evitar que fiquem doentes.
E isto é um erro. Não apenas porque conduz à obesidade e ao isolamento, mas também porque impede que as outras crianças cujos pais não são tão picuínhas tenham alguém com quem brincar. Se não estiverem gordinhos na rua para pontapear, as outras crianças vão pontapear quem? É uma questão que devia incomodar muita gente. Infelizmente, parece que estou sozinho no meu desagrado.

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