12/12/10

TERMINUS 189: NACIONALIDADE DE RESERVA

No ano em que se comemoram os cem anos da Proclamação da República, é tempo de olhar para trás e reflectir sobre o que foi feito. Há quem olhe para este período da nossa História e aponte defeitos, há quem aponte qualidades. Sobre os dias de hoje, só por acaso, não assim há muito de bom a apontar. Eu não estou a ser pessimista, não estou a incidir no clichê do coitadinho, apenas refiro a verdade. E a verdade é apenas esta: em cem anos nós não mudámos nada.
Pronto. Antes tínhamos um rei, agora temos um presidente. Mas na prática, o que é que isso interessa? Que podemos escolher quem nos governa, quem nos lidera? Até que ponto podemos apreciar a qualidade de uma escolha feita por um povo do mais analfabeto funcional que há na Europa? Não é à toa que a Educação vai ser a grande aposto do Governo de José Sócrates. É preciso manter o povo burro e incauto.
Alguns simpatizantes monárquicos aproveitam este momento de reavaliação para salientarem os valores e qualidades da sua causa. Reclamam o direito de representação do povo português. Nós (povo) estamos, ao que parece, reféns de um regime que não pedimos. Nós nunca pedimos a República. A República foi-nos imposta e isso não está certo.
Não entendo os argumentos de quem deseja viver numa monarquia. Quantas das pessoas que defendem o regresso a esse regime sabem, por experiência própria, do que estão a falar? Quase nenhumas. É tudo ouvido de boca. E todos sabemos como é popular o uso da expressão “No meu tempo é que era”. O problema é que, para nós, estar um rei ou estar um presidente ou um sultão ou a fada dos dentes, é praticamente a mesma coisa. Apenas mudam os elementos decorativos.
D. Duarte deve se ter percebido isso e requereu a nacionalidade timorense. É escusado ficar cá para tentar resolver o que seja. Estou certo que muitos não hesitarão em seguir-lhe o exemplo e pedir a nacionalidade a outros países se tiverem cabeça para pensar nisso. Mas, dentro do universo monárquico, há muitos que lhe apontam farpas e acusam-no de abandonar a Pátria. Parece-me um franco exagero.
Pode parecer um abandono, mas podem ficar descansados que não é. Não há qualquer perigo de a nacionalidade portuguesa desaparecer. Pode ficar... como um cartão de sócio de clube de vídeo perdido numa gaveta. Imaginem.
Escolhíamos um país tipo Finlândia, onde o sistema educativo e o sistema fiscal funcionam, e íamos viver para lá. Depois, sempre que tivéssemos saudades de políticos incompetentes e de um povo manso, bastava ir à gaveta procurar a nacionalidade e vir cá passar uns dias. Uma semana a ouvir os políticos de cá e regressávamos ao estrangeiro. De preferência a um país cuja língua não compreendêssemos de todo. Assim, mesmo que os políticos de lá dissessem tantas ou mais asneiras que os de cá, aos nossos olhos e ouvidos seriam sempre uma imagem do rigor e de coerência.

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