15/12/10

TERMINUS 192: O ETERNO VICE

No momento em que se cozinha um possível aumento da idade da reforma, é estimulante ver como alguns titulares de cargos públicos fazem por se manter em funções, apesar de já terem ultrapassado o limite legal que lhes permitia isso. Mário Gomes Dias, o ex-Vice-Procurador Geral da República, reformou-se no dia 2 de Novembro, mas continua a desempenhar funções na Procuradoria Geral da República de forma "graciosa e voluntária a fim  de terminar os complexos dossiers que lhe foram entregues".
Já ouvi muita desculpa para uma pessoa não trabalhar. Eu próprio consigo fornecer-vos algumas de minha autoria, caso estejam interessados. Não estão? É pena. Como eu dizia, desculpas para não trabalhar há muitas; desculpas PARA trabalhar, são mais raras, mas também as há. Todavia, ter como argumento material de escritório, é do mais original que tenho ouvido nos últimos tempos.
Há qualquer coisa neste comportamento que não me soa bem. É assustadoramente parecido com um Vice PGR, já em situação de reforma, mandar arquivar um caso que envolve o Primeiro-Ministro. E depois diz-se, “Vamos proceder à abertura de um inquérito para apurar os factos.” Parece que 'tá carregadinho de testosterona; na verdade, vão só fazer perguntas. Se o culpado admitir, tanto melhor; se não, não se pode dizer que não fez nada.
Creio que a dedicação do Mário a estes dossiers não terá tanto que ver com o conteúdo, mas sim com a forma. Quem não se lembra dos seus tempos de escola, quando forrávamos os dossiers escolares com fotos dos nossos artistas favoritos? Talvez essa prática se mantenha na PGR. Visto que o Mário não tem os poderes que tinha antes, é uma boa forma de o manter entretido.
Agora vem a parte mais divertida desta historieta. A Procuradoria não confirma isto, atenção, porém, dizem que o senhor vai continuar a beneficiar de carro e motorista pessoal, além de um gabinete de trabalho. Mais. O Mário reformou-se depois da idade legal de reforma e tem direito a uma reforma de 6129 euros. No entanto, vai continuar a exercer funções na PGR, porque é o presidente da Comissão de Fiscalização dos Centros de Dados do Sistema de Informações da República Portuguesa, o conhecido TACHO.
Não tenho nada contra que o senhor continue em funções pelos anos de vida que ainda tiver pela frente. Todos nós conhecemos pessoas com mais 65 anos, ou mesmo 70, que continuam a trabalhar. A diferença é que não o fazem por falta de hobbie, e sim porque precisam de dinheiro para sobreviver. Sendo que muito desse trabalho é feito à revelia do Estado. Para o Mário é fácil manter o emprego até aos aos 70, ou mesmo até aos 90; difícil seria se tivesse de trabalhar a sério.
Uma última nota sobre a idade da reforma e o argumento do aumento da esperança média de vida: a esperança média de vida devia baixar para os 45. Isto só para não-políticos e não-titulares de cargos públicos. Fica a ideia.

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