17/12/10

TERMINUS 194: NA LINHA DA FRENTE DA MOSCAMBILHA

Antes de mais, tenho que dizer que estava ansioso que este dia chegasse. Não tenho por hábito divulgar as escolhas que faço a nível comercial; do género, qual o meu dentífrico preferido, o meu detergente de eleição, qual o meu banco, etc. No entanto, em relação a este último, sinto-me no dever, na obrigação, de abrir uma excepção. O meu banco, o BCP, vem citado no WikiLeaks como estando envolvido em negociatas com o Irão. Confesso-vos que ainda não havia reconhecido ao site do senhor Assange a relevância que alguns lhe apontam; porém, a informação agora revelada é-me demasiado próxima para eu sentir outra coisa se não orgulho. Com efeito, é de orgulho que se trata. Estou certo que não sou o único cliente do Millennium BCP a sorrir para dentro de contente, ou mesmo, os mais extrovertidos, a gozar com clientes de outros bancos envolvidos em moscambilhas. O pessoal do BPP pode ter dado garantias fictícias para empréstimos avultados, a malta do BPN pode ter feito branqueamento de capitais e fraude fiscal, mas o Millennium, o meu Millennium, esteve envolvido em negócios de espionagem financeira com os Estados Unidos e o Irão. Assim se distinguem os grandes dos pequenos. Uns são meros larápios, outros são homens de negócios.
O homem à frente deste enredo foi Carlos Santos Ferreira, presidente do banco, que acordou com os Estados Unidos fornecer-lhes informações sobre actividades financeiras levadas a cabo pelo Irão. Se ignorarmos o facto de isto ser muito parecido com “fazer queixinhas”, estamos perante o tipo de comportamento que não faz senão enaltecer a identidade de uma nação.
Eu podia ser como algumas vozes que andam por aí e dizer que este senhor comprometeu-se a espiar para os Estados Unidos, quando ele próprio fazia negócios com o Irão. Qualquer coisa tipo, “Eu digo-te quem são os clientes dele, desde que tu me deixes à vontade para fazer negócio com ele.” Não concordo com esta posição porque, envolvido em negócios ilícitos ou não, o Carlos Santos Ferreira protegeu o seu banco, o meu banco, de represálias internacionais. Pelo menos no imediato.
O Governo, como é seu hábito e dever, diz não ter tido conhecimento destes factos. Eu acho que, neste caso em particular, o Governo não sabia mesmo de nada e está todo roído por dentro por causa disso. Este é o tipo de situação que um Governo assumiria como uma medida governamental devido ao estatuto que isto confere.
À oposição que critica e pede explicações, eu digo: “Deixem-nos estar. Já basta terem sido apanhados de surpresa. Não vale a pena gozar com os senhores do Governo.”
Afinal de contas, se eles não sabiam o que o BPP e o BPN andavam a fazer em Portugal, como é que iriam saber o que andava o BCP a fazer lá para os lados de Teerão?

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