26/12/10

TERMINUS 196: NÃO TRACE ISTO, POR FAVOR

De acordo com análises, realizadas no âmbito do projecto Checking, a várias amostras de cocaína, setenta por cento dessas amostras possuíam desparasitantes e analgésicos de modo a disfarçar a sua parca pureza e incrementar o seu valor comercial. Pode não o parecer, mas este é um assunto grave. Quando existem pessoas capazes de adulterar a pureza de uma droga pesada como a cocaína, apenas por motivos de rendimento, é caso para dizer que está tudo perdido.
Sei que são muitas as dúvidas que, neste momento, o afligem. Tentarei responder a todas elas, na medida do possível. Começando pela mais óbvia: o que é o projecto Cheking? Ora bem, tanto quanto pude apurar, é um projecto nacional de teste de drogas. Isto, só por si, não diz muito. É o mesmo que chamar a um grupo de bêbados, um colectivo de enólogos na vertente prática. Antes de mais, há que saber: como é que a droga é testada? Se for através de reacção química é possível obter uma indicação precisa em relação à quantidade de fenacetina utilizada, mas não há nada como a opinião de um consumidor experimentado para avaliar as sensações transmissíveis.
A grande preocupação dos responsáveis deste projecto é o uso excessivo de fármacos como a fenacetina ou levamisole para “cortar” a coca. Eu não consumo cocaína, nunca consumi, mas consumo vinho e entendo a postura destes senhores. Assim como eles não apreciam a sua droga “cortada”, eu não gosto do meu vinho “traçado”. É um direito que nos assiste, enquanto consumidores.
No meu caso, o “traço” é feito, geralmente, com gasosa ou com sumo de laranja – a sangria é outra coisa – que, apesar de tudo, ainda são substâncias que podemos consumir à parte do vinho. Contudo, no caso dos fármacos utilizados para “cortar” a coca, isso não sucede. Não há refrescos de fenacetina ou croissants com recheio de levamisole e, tirando o pessoal da indústria farmacêutica e alguns hipocondríacos, ninguém sabe o que são estas substâncias. Sabe-se que o primeiro pode fazer mal a pessoas com problemas renais e que o segundo aumenta o risco de ataque cardíaco. Sinceramente, utilizar estas substâncias na preparação de uma droga pesada parece-me de uma irresponsabilidade sem limites. Onde é que isto vai parar?, pergunto eu.
Na minha infância e juventude, e mesmo no início da idade adulta, consumi diversos químicos, não na forma de drogas recreativas, mas em modo doce. Não sou, portanto, alheio ou averso ao consumo de substâncias químicas em detrimento de naturais. Mas sou um consumidor que gosta de segurança naquilo que consome.
Gastar uma saqueta para fazer um bule de chá e dividi-lo por quatro chávenas não é o modo correcto de fazer chá para quatro pessoas. É verdade que assim poupam-se três saquetas, mas perde-se o sabor, a pureza, o toque. Ao senhor traficante e ao senhor preparador que lêem isto, peço-vos, tenham atenção ao que estão a fazer. O que estão a fazer pode parecer aliciante, na medida em que faz render o produto, mas tentem olhar para o amanhã. Respeitem os vossos clientes se querem continuar a tê-los.

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