07/12/11

TERMINUS 282: O TERCEIRO F

Dos três grandes Fs que compõem a nossa identidade nacional – Fátima, Futebol e Fado – havia um que, embora não esquecido, era o menos divulgado dos três. Essa lacuna chegou finalmente ao fim com a eleição do Fado como património imaterial da humanidade. E assim como o futebol e Fátima nos têm proporcionado momentos de grande relevância informativa – os directos de Centros de Estágio da Selecção onde um repórter tenta adivinhar a equipa e a táctica que o seleccionador vai usar, as perguntas aos peregrinos a caminho do santuário, “Vai porque tem fé, não é?”, “Não, vou porque não tenho carro.” - não tardou muito para que o mesmo acontecesse com o Fado.
Eu previ, embora não se possa dizer que tenha sido uma grande previsão, que com esta vitória não tardariam a surgir reportagens e programas especiais sobre Fado. Já para não falar de todos aqueles que, dum dia para o outro, passaram a adorar o fado. (Pessoalmente, não gosto nem desgosto. Não sou de géneros, sou de músicas. Se gostar da música, não me interessa que seja fado, trance, pimba, ou rock.)
Um dos primeiros programas a comprovar a minha teoria do ridículo foi uma entrevista a Celeste Rodrigues, emitida no passado Domingo na RTP 1. De forma a demonstrar o justo agradecimento aos fadistas que mais têm trabalhado nos últimos anos, não apenas por esta candidatura recém-vencedora, mas pela divulgação do fado a nível internacional e pela sua expansão a novas linguagens musicais – entre outros, Carlos do Carmo, Mariza e Camané – a RTP decidiu entrevistar a fadista Celeste Rodrigues. O erro de casting, chamemos assim, não tem que ver com a escolha da entrevistada. Celeste Rodrigues é uma fadista com uma longa carreira e, embora não seja tão mediática como os fadistas já referidos, certamente que tem algo a dizer sobre este reconhecimento do fado. No entanto, o canal de todos os portugueses não quer saber da opinião da pessoa viva e com carreira que está no estúdio.
A entrevista começou bem, com a entrevistadora a dar as boas noites à entrevistada. A partir daí, descambou. “Celeste, se a irmã fosse viva o que diria ela acerca disto?”
Não obstante a falta de respeito demonstrada para com que todos aqueles que desempenharam um trabalho imenso nestes últimos anos pelo crescimento do fado, e naquele momento em particular por Celeste Rodrigues, há que perceber isto duma vez por todas: a Amália morreu aos 79 anos. E num mundo real, a partir do momento em que as pessoas morrem, a relevância informativa deste tipo de perguntas é zero.
Mas para fins de exercício especulativo, façamos uma excepção. Se a Amália fosse viva teria hoje 91 anos e, sabendo a tendência que muitos fadistas têm pela copofonia, não sei se iríamos escutar uma opinião muito lúcida. Porque, quer queiramos quer não, os ídolos caem, extinguem-se. Principalmente quando puxamos muito por eles. Amália tem e terá sempre o seu valor, mas no presente, na realidade, seria melhor que guardássemos estas indagações para quando fôssemos à bruxa. O Fado é um dos três Fs, mas não o tratemos como o Futebol ou Fátima. Tratemo-lo com mais respeito.

25/11/11

TERMINUS 281: UMA (ENGRAÇADA) IDA ÀS FINANÇAS

Gosto de ir às Finanças. Muita gente detesta ter de ir às Finanças, mas eu não. Eu gosto mesmo de ir lá. E gosto particularmente quando tenho de ir lá sem razão. Há alturas em que preciso ir lá, há outras em que vou lá só para dar um “olá” e depois vou à minha vida. Mas as alturas que eu gosto mesmo mesmo de ir é quando não deveria ter de ir. Nomeadamente, quando recebo a cartinha em casa com uma coima choruda para pagar.
Já tenho recebido dessas cartinhas em casa – quem não recebeu? – e é com um grande sorriso que vou à Repartição mais próxima efectuar o pagamento. Poderia ir a um Multibanco, ou pagar via Internet, mas o estar à espera para dizer que se quer fazer o pagamento e depois esperar novamente para pagar de facto é outra alegria. Principalmente quando sou atendido por alguém carrancudo. Acredito que a minha boa-disposição ao sair dali terá contribuído para melhorar o estado de espírito de quem me atendeu.
Sempre que recebo uma cartinha das Finanças em casa sou logo tomado duma grande ansiedade. A maior parte das vezes são cobranças justificadas – tipo não assinalar a alínea c) do número 17 do impresso 24, que refere o desejo de não ser cobrado indevidamente – e, por isso, sem surpresa. De vez em quando, a surpresa surge e sou intimado a pagar dívidas contraídas por pessoas com nomes parecidos ou iguais aos meus.
Já vos aconteceu isto? É tão bom, não é? Ao menos não nos trocaram o nome todo, foi só uma parte. A bem da verdade, confesso que tal situação nunca me aconteceu. Com grande pena minha. Só me leva a crer que a minha combinação de nomes e apelidos encontra poucos exemplares no nosso país.
Imagino que seja uma situação povoada de momentos de grande comicidade. O senhor Arlindo Batata recebe uma notificação das Finanças para efectuar o pagamento duma coima de 300 euros. No dia seguinte outra notificação, desta vez relativa a uma coima de 413 euros. E por aí fora. Ao fim de cinco dias consecutivos de coimas, o senhor Arlindo Batata começa a achar que aquilo não é normal e resolve ir às Finanças.
O senhor Batata vai para lá logo de manhã e, após esperar três horas na fila errada, lá tira a senha certa e consegue ser a terceira pessoa a ser atendida depois de almoço. O simpático funcionário limita-se a dizer que ali não podem fazer nada, apenas cobrar. Se o senhor Arlindo não pagar a dívida, o seu ordenado será penhorado.
O senhor Arlindo Batata esclarece que as notificações foram enviadas para o contribuinte errado, um tal Arlindo Batata-Doce, mas esse esclarecimento cai em saco roto. Ou paga ou fica sem ordenado. O senhor Arlindo Batata decide então perguntar se as Finanças lhe irão providenciar trabalho, na medida em que ele está desempregado e não dispõe de ordenado para ser penhorado.
As Finanças riem-se.

22/11/11

TERMINUS 280: QUANTAS VEZES?

Quantas vezes é que, na estação de Metro do Marquês de Pombal, na Linha Azul, é proferido o seguinte aviso: “Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”? Antes de responder a esta questão, importa analisar o aviso e as circunstâncias em que o mesmo é dito.
Em primeiro lugar, a distância que vai do cais ao comboio nesta estação é igual a todas as outras. Não andei a medir, mas quer me parecer que a necessidade de um aviso de segurança só seria justificável se estivéssemos a falar de diferenças verificáveis a olho nu. Milímetros, parafraseando o outro, são pintelhos.
Temos depois a questão das circunstâncias. O aviso é dito apenas numa estação e, dentro dessa estação, apenas na Linha Azul. Se não é possível identificar as razões por detrás disto, é possível apontar as consequências.
Por norma, o aviso deveria ser feito em todas as situações – neste caso, em todas as estações – ou, em alternativa, na presença duma série de critérios, facilmente observáveis, que o justifiquem. A exclusividade deve ser, por isso, apenas aplicada quando há uma distinção inequívoca entre o caso ou casos em questão e todos os demais.
Implantar uma diferença ou sugerir uma cautela numa estação, numa linha, em deterimento de todas as outras, é influenciar as pessoas a que só tomem cuidado naquele caso em especial e se desleixem nos restantes.
Ainda por cima estamos a falar duma distância que para cair lá para dentro é preciso ser-se subnutrido ou, mais magro ainda, uma top-model. Pessoas normais não caem ali. Podem tropeçar, mas tropeçam mais vezes devido aos empurrões nas entradas e saidas do que àquele espacinho entre o cais e o comboio.
A solução? Dar o aviso em todas as estações e em todas as linhas. Ou não avisar em nenhuma e colocar autocolantes nas portas. O aviso para não forçar as portas é accionado pelo condutor da composição apenas quando este decide. Na maioria das vezes, o autocolante é aviso suficiente.
Na estação do Marquês de Pombal, como se não bastasse avisar uma vez, avisam quatro, cinco e seis. O metro já vai na Pontinha e ainda estão avisar os passageiros que saíram e entraram no Marquês de Pombal para terem cuidado.
A resposta à pergunta inicial, “Quantas vezes é que, na estação de Metro do Marquês de Pombal, na Linha Azul, é proferido o seguinte aviso: “Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”?” só pode ser, portanto: DEMASIADAS.

10/11/11

TERMINUS 279: CONFIANÇA

Quando se está afastado algum tempo é sempre difícil encontrar o tema certo para abordar num artigo de análise. Felizmente temos o Expresso, esse jornal grande, onde se encontra sempre qualquer coisa.
No site do Expresso (são oito da manhã, está a chover como o caraças, ainda não saí de casa e não vou sair só para ir comprar o jornal) vinha hoje (dia 9 de Novembro) uma pequena... peça informativa sobre a relação de confiança que nós temos com as instituições conotadas com o Governo.
O artigo, apesar de pequeno (tem apenas três parágrafos), possui uma complexidade de ideias tão bizarras que quase que parece que é sério. Tão sério que me atrevo a dizer que se isto fosse um estudo elaborado por algum instituto público, o mais certo era fechar portas depois. Como é só uma opinião, o máximo que conseguimos é colocar alguém a fazer transfusões de sangue sob a vigília de Leonor Beleza. Já lá vamos, calma.
Diz então o sociólogo José Manuel Mendes que nós desconfiamos, ou temos pouca confiança nas instituições ligadas ao Governo. Excepção feita àquelas ligadas à protecção e socorro. Subscrevo mais ou menos. Basta pensar nas inundações que acontecem todos os anos assim que começa a chover, ou nos incêndios que arrasam o país, ou no quizz a que é preciso responder sempre que se chama uma ambulância para nos apercebermos que a nossa confiança nestas instituições é um bocado como dar dinheiro a um arrumador para que não nos risquem o carro.
No entanto, apesar destas falhas, depositamos mais confiança nas instituições ligadas à protecção e ao socorro do que nas outras. Porquê? O Instituto Português do Livro e da Biblioteca, o organismo que tutela as bibliotecas públicas, tem feito um bom trabalho. Talvez não tenha sido perfeito para todos, mas se nos lembrarmos como eram as bibliotecas há vinte, ou mesmo dez anos, e como são agora, a diferença é... colossal.
O que é que nos faz confiar nesta gente? Diz José Manuel Mendes que em Portugal "não houve nenhum episódio que desconstruísse a confiança das pessoas" como aconteceu noutros países da Europa, com o sangue contaminado.
A resposta de José Manuel Mendes é simples e elucidativa. O complemento que se segue à citação é que não sei se pertence ao próprio ou se foi alguém que não estava cá nos anos 80 que acrescentou.
Caro José Manuel Mendes, ou outra pessoa que diz basearmos a nossa confiança nas instituições públicas de protecção e socorro no facto de, em Portugal, não ter havido nenhum caso de sangue contaminado, só vos digo isto: vão ao Google e pesquisem por “hemofílicos + Leonor Beleza”. Não se resolveu, apenas prescreveu. Como é tradição. E nem sempre as tradições são de confiança.

12/10/11

TERMINUS 278: CULTURA, SUBSÍDIOS E OUTRAS CENAS

Há uns meses atrás resolvi concorrer ao Programa de Apoio à Escrita de Argumentos para Longas Metragens de Ficção promovido pelo ICA. Foi a primeira vez que concorri a tal concurso e, embora não tenha sido contemplado com nada, a experiência não foi tão má quanto isso.
Não muito tempo depois de apresentar a minha candidatura, recebi (eu e os restantes candidatos) as avaliações do júri. Tendo tempo para as contestar, não o fiz. Com base nos critérios de avaliação e nas suas notas, a avaliação que faziam do meu trabalho era justa.
Dos que venceram, apenas conheço o trabalho de um deles e já o congratulei por isso; dos restantes, há um em particular que merece um olhar mais aprofundado: João Canijo.
João Canijo irá receber 9500€ para escrever um guião para o seu próximo filme intitulado "Fátima". À partida, esta informação parece ficar por aqui. Ele candidatou-se a um subsídio para escrever um argumento, recebeu o subsídio e agora vai escrever o argumento.
O João Canijo tem um filme nas salas de cinema ("Sangue do Meu Sangue") de que toda a gente anda a falar. Confesso que me estou a mentalizar para o ir ver mas, por enquanto, ainda não consegui ultrapassar a inovação da narrativa que é aquele trailer com a Rita Blanco.
Rita Blanco, numa entrevista recente ao Jornal I, falou deste filme, como decorreram as filmagens, o modo de trabalhar do realizador, a forma como desenvolveu a personagem e o processo de criação da história. Foquemos-nos nos últimos aspectos que são aqueles que me dizem mais respeito.
Em primeiro lugar, não cabe à actriz desenvolver a personagem, cabe ao argumentista. Dito de outra forma, a actriz pode trabalhar no perfil e características que o argumentista apresenta, pode apresentar sugestões, melhorar alguns aspectos, corrigir outros, eliminar outros, etc. O que não pode acontecer, como é mencionado na entrevista é isto:
 

O seu papel é o da Márcia, a mãe. A personagem foi criada por si?
O João Canijo disse-me para inventar uma situação em que pudéssemos ir ao encontro do que queríamos. Inventei e, até certa altura, ele não percebia porque é que eu queria esta história. Discutimos muito, mas lá nos explicámos e percebemos que fazia sentido para os dois. E para todos os outros actores. As personagens foram entrando e, cada uma, adaptando-se às histórias. O filme construiu-se neste puzzle.
 


Não é actriz que cria a personagem! É o argumentista! A actriz deve-se "limitar" a dar corpo à figura que vem no papel.
Depois temos o processo de criação. Um filme, seja ele curto ou longo, é feito, deve ser feito, com base num guião. Guião esse que habitualmente é escrito antes do filme ser realizado.
Em 2007 João Canijo foi contemplado com um subsídio do ICA no valor de 10.000€ para escrever o argumento para este filme. Um argumento, para quem não sabe, deve ter a história do filme, desconstruída cena a cena, com os respectivos diálogos. Ora, como se poderá ler pela já mencionada entrevista à protagonista do filme, o filme foi feito com ensaios e improvisos, não com um guião. Aos actores não era dado um perfil para trabalharem, era-lhes dito "Tu hoje vais ser um gajo de óculos!", ou "Agora faz de conta que 'tás constipado!".
Onde é que eu quero chegar com isto? Pretendo contestar a decisão do ICA de atribuir um subsídio de apoio à escrita de um guião a quem depois não escreve nada? Não exactamente. Apenas pretendo perceber o que se passou.
Uma das cláusulas impostas aos vencedores é a obrigatoriedade de apresentar um guião, sob pena de lhes ser retirado o subsídio. Considerando isto e o que é mencionado na entrevista, temos três hipóteses à escolha. A primeira é: João Canijo não escreveu o argumento contratualizado e teve de devolver o dinheiro; a segunda: João Canijo escreveu o argumento contratualizado, mas ficou tão mau que resolveu fazer o filme sem ele; terceira: João Canijo não escreveu o argumento contratualizado e não teve de devolver o dinheiro.
Recapitulando, em 2007 João Canijo recebeu 10.000€ do ICA para escrever um guião para o filme "Sangue do Meu Sangue". De acordo com Rita Blanco, a protagonista do filme, este foi feito sem guião. Em Junho de 2011, o ICA decidiu atribuir 9.500€ a João Canijo para escrever o argumento para o seu próximo filme, "Fátima."
Conclusões? É melhor não. Mas posso deixar aqui um "cheirinho" daquilo que me parece que vai ser este argumento.

FÁTIMA
Um filme de João Canijo

Cena 1 – Filmar peregrinos
Cena 2 – Falar com peregrinos
Cena 3 – Filmar Santinhas
Cena 4 – Filmar velinhas
Cena 5 – Pôr música sacra na banda-sonora
Cena 6 – Pedir a outra pessoa que escreva o guião

E aqui fica também o trailer de "Sangue do Meu Sangue".

A entrevista de Rita Blanco ao Jornal I pode ser lida na íntegra aqui (pelo menos enquanto o link estiver activo).

10/10/11

TERMINUS 277: HISTÓRIAS DE (DES)ENCANTAR

Era uma vez um menino chamado Pedrito. O Pedrito era muito traquinas, mas era um bom menino. Cumprimentava as pessoas e dizia “por favor” e “obrigado”. Durante o dia, enquanto os pais estavam a trabalhar, o Pedrito ia para uma Creche muito bonita e colorida. O Pedrito tinha muitos coleguinhas nessa Creche, com os quais brincava o dia todo.
Todos os dias, ao final da tarde, o pai ou a mãe do Pedrito iam buscá-lo à Creche. Depois duma boa banhoca e dum delicioso jantar, o Pedrito ia para a cama fazer óó. Antes de adormecer, o Pedrito gostava sempre de ouvir uma história de encantar. O pai ou a mãe diziam-lhe então para ele escolher que história ele queria ouvir.
O Pedrito tinha um quarto muito grande, com muitos e muitos livros. O Pedrito gostava de todos os livros que tinha. Mas só havia um que ele gostava de ouvir antes de fazer óó. Apesar de já saber a história de cor e salteado, o Pedrito não escolhia outro livro senão aquele e os pais não insistiam. Apoiavam o filho nessa escolha e sentavam-se ao seu lado para contar essa tal história.
E a história dizia assim:
Há muito, muito tempo, numa ilha muito distante, vivia um rei que se gostava de vestir de Carmen Miranda e de Pipa (de vinho, não diminutivo de Filipa, embora quem se vista de Carmen também se possa vestir de Filipa). Nessa ilha viviam muitas pessoas, muitos animais e também o rei. A ilha era muito bonita e as pessoas gostavam de viver lá, mas o rei nunca estava satisfeito.
De vez em quando as pessoas tinham de dizer se gostavam daquele rei ou se queriam outro. Como a ilha era muito grande, o rei enviava carroças a casa de todas as pessoas que moravam longe. Àquelas que ficavam satisfeitas com este gesto de boa vontade do rei dizendo que queriam que ele fosse rei por mais quatro anos, o rei dava-lhes boleia de volta para casa. As outras iam a pé.
A cada convocação, as pessoas apareciam para dizer que queriam que o rei ficasse. E todas podiam voltar para casa, manter os empregos, não perder pensões ou subsídios ou não cair, sem querer, duma ravina abaixo.
As pessoas voltavam às suas vidas e o rei sentava-se no trono porque ele era bom para as pessoas e as pessoas eram boas para ele.
Quando acabava a história, o Pedrito já dormia profundamente. Com muito cuidado, o pai ou a mãe pousava o livro na estante e saía do quarto de mansinho. Na sala encontrava-se com a sua cara metade e suspirava:
“Porra que já não posso mais com esta história! Ainda gostava de saber quem foi a besta que decidiu escrever um livro infantil com base nas eleições na Madeira.”

07/10/11

TERMINUS 276: CRITÉRIO SEGURO

Numa intervenção recente o secretário-geral do PS, António José Seguro, afirmou não aceitar a redução do número de freguesias no Interior do País com base no critério do número de habitantes. Acho bem. Vindo de quem vem, provavelmente terá dito o contrário ao jantar, mas concordo com as razões desta sua recusa.
Extinguir freguesias, anexando rivalidades e ódios históricos só por causa dos números é um erro crasso. Qual é o mal de ter freguesias com 150 habitantes ou menos? Para mim, que andei a percorrer Portugal de lés a lés e vi como é que o País (não) funciona, não vejo qualquer problema nisso.
Consideremos, por exemplo, a freguesia de Fajão na Pampilhosa da Serra. De acordo com os Censos de 2001, esta freguesia tem 295 habitantes. Será isso razão suficiente para anexá-la à freguesia do Macchio (146 habitantes) e à freguesia do Vidual (93 habitantes)? Se a iniciativa partir dos habitantes e todos estiverem de acordo que é o melhor a fazer, não tenho nada contra. Mas não obriguem as pessoas a isso. Principalmente com base no critério dos números.
Se tiverem que utilizar algum critério, podem dizer que a redução do número de freguesias e concelhos é uma das contrapartidas do empréstimo que fizemos à troika. Podemos não concordar com isso, mas não podemos dizer que é uma desculpa não-existente.
A certa altura utilizou-se o argumento “A estas pessoas já tiraram o professor, o médico. Não lhes deixem tirar o presidente da Junta.” Porque não? Em que medida é que perder um presidente da Junta é o mesmo que perder um médico ou um professor? Se alguém ficar doente ou analfabeto, não é um presidente da Junta que vai ajudar. A não ser que seja médico ou professor.
Sejamos honestos, praticamente todos nós somos a favor da união ou extinção de freguesias e concelhos. Quando apresentada a ideia, até somos capazes de dizer “Hum... Juntar freguesias com número reduzido de habitantes para poupar recursos? Não está mal pensado, não senhor.” No entanto, a conversa muda de figura assim que percebemos que a nossa freguesia, o nosso concelho, é um dos visados pela medida. “O quê? Nem pensar! Nunca na vida os habitantes de Boi Coxo se juntarão com esses atrasados mentais de Cabra Manca!
E a identidade histórica destas pessoas? Alguém pensa nisso? António José Seguro pensa. Ele sabe que uma forma segura de conquistar apoios é apelar ao bairrismo de cada um. Tanto faz que seja no Interior ou no Litoral. As ideias são sempre todas boas... desde que sejam para os outros.

04/10/11

TERMINUS 275: BIPOLARISMO POLÍTICO

Alguém me sabe dizer qual é o partido com que o CDS-PP está coligado no Governo? Por acaso tem alguma coisa a ver com o partido que está no poder do Governo Regional da Madeira há mais de trinta anos? Reparem que eu não sou por um ou por outro; só estou a perguntar.
O Paulinho das feiras deu um saltinho à Madeira para comparar Alberto João Jardim a José Sócrates. Acho estranho que ele tenha lá ido fazer um discurso de cinco minutos para depois regressar logo ao continente. Sempre julguei que o zapping desse até meia hora.
Ora bem, à primeira vista diria que não há com que comparar Alberto João Jardim e José Sócrates. Mas basta olharmos com alguma atenção para percebermos as semelhanças. Para começar, ambos são políticos e ambos têm PSD como matriz ideológica. Se os observarmos com ainda mais atenção, percebemos um comportamento padrão. Quando acusados de algo, é costume tentarem desviar as atenções dizendo que os seus acusadores estão a acusá-los para tentar desviar as atenções. A chamada campanha negra. É complicado, mas isto da política não é para todos.
Paulo Portas acusou Alberto João Jardim de ser despesista como Sócrates. Por outras palavras, o PSD Madeira é igual ao PS do continente. O problema, quer queiramos quer não, é que o PSD Madeira faz parte do PSD do continente. O que é o mesmo que dizer que o PSD do continente é o mesmo que o PS do continente e eu não acho que seja correcto comparar Pedro Passos Coelho a António José Seguro. É verdade que ambos começaram nas Jotas dos seus partidos, é verdade que Seguro, tal como Passos Coelho quando estava na oposição, tem o hábito de mudar de opinião a cada almoço que realiza, mas só isso não chega.
Faz-me confusão, embora não tenha nada a ver com isso, o nível de esquizofrenia com que os líderes políticos estabelecem e desfazem alianças. Que o adversário de ontem seja um aliado hoje contra um adversário mais perigoso, como costuma acontecer nas Presidenciais, entende-se. É uma aliança temporária para evitar um mal maior. Custa-me a perceber, no entanto, que o adversário de hoje seja também o aliado de hoje. Talvez seja bipolarismo político.

27/08/11

TERMINUS 274: BOM PORTUGUÊS

Sou só eu que ando lixado com o “Bom Português”? Até há coisa de meses atrás, antes de se começarem a preocupar com o Acordo Ortográfico, era uma rubrica interessante. Não só dava a conhecer palavras pouco utilizadas da nossa língua, como denunciava erros comuns do dia a dia. Sendo o Português, tal como a Matemática, uma das disciplinas base da aprendizagem escolar – e também uma das mais maltratadas – qualquer programa que se prestasse à correcção da ortografia e da gramática seria bem vindo. Tudo estava bem... até descambar.
De rubrica didáctica e curiosa, o “Bom Português” passou a manual do enfado. Eu percebo a necessidade de explicar às pessoas como é que o Acordo Ortográfico funciona. Não que isso as vá ensinar a escrever bem, mas enfim... Compreendo a intenção e apoio-a. Mas é preciso ir tanto ao pormenor? Posso não concordar com o Acordo Ortográfico, mas percebo as suas regras principais. Palavras com consoante muda (óptimo, director, Egipto) passam a ser escritas sem essa letra (ótimo, diretor, Egito). Para quem passou a sua infância e boa parte da sua juventude a ler banda desenhada brasileira, esta grafia não me incomoda nada. Outra regra: palavras como egípcio, factual ou opção escrevem-se tal como se dizem. Depois temos os acentos, que ora se colocam, ora se tiram. Com maior ou menor dificuldade, explicando bem a regra, basta um ou dois exemplos para a coisa encaixar.
O que me irrita no “Bom Português”, contudo, é a insistência. Parece que querem dar todos os exemplos possíveis para cada regra. Aceito que é preciso insistir para que as regras peguem. O problema é quando as regras não fazem sentido. Quando as palavras têm dupla grafia, por exemplo. Aí todos acertam. Não sabem se estão a responder bem ou mal porque ambas as respostas estão certas. O que é que se aprende com isto? Nada.
Ou, pior, quando ninguém acerta e a jornalista vê-se forçada a perguntar “Tem a certeza? Veja lá bem...” Só falta dizer, “Vá, repita comigo.” Ditam as regras que a rubrica encerre com um cidadão a enunciar a forma correcta de escrever ou dizer certa palavra ou expressão. Graças às regras algo estranhas e contraditórias do Acordo Ortográfico, boa parte dos entrevistados adivinha à sorte; os restantes têm de ser ensinados até acertarem.
O propósito continua a ser bom, apesar da parvoíce que o circunda, mas penso que não se deveria limitar ao Português. Seria bom, ainda para mais agora que temos um Matemático como Ministro da Educação, que o “Bom Português” ganhasse uma irmã sexy chamada “Matemática Boazuda”. Começaríamos pela base. “2+2=?” e depois iríamos para a tabuada. A criatividade não está apenas nas palavras, está também nos números. As estatísticas do sucesso escolar assim o demonstram.

24/08/11

TERMINUS 273: QUINZE MINUTOS

 
Quando tinha 15, 16 anos costumava gravar rábulas com amigos e colegas de escola. Cada um de nós fazia figura de parvo, fosse através do que dizia ou do que vestia para dar corpo aos personagens a que dávamos vida. Compreendo, por isso, o fascínio que os jovens de hoje em dia têm com a Internet e com o Youtube em particular. Tal como eu há quinze anos, também eles hoje fazem figura de parvo e gravam isso para a posteridade. O que distingue uma geração de outra, no entanto, é a partilha. Nós gravávamos para nós, para o grupo e amigos próximos do grupo; eles gravam para o mundo.
Naquele tempo não havia Internet como há hoje. Eram tempos em que um download de 50 megas era coisa para levar seis meses ou mais. Mas só não ajuda a explicar a propagação do fenómeno. Podia não haver partilha online, mas partilha offline sempre houve. Quantos de nós é que não levavam o vídeo para a casa de amigos para gravar filmes do clube de vídeo? Quantos de nós não gravávamos vinis para cassete e depois fazíamos uma cópia num deck duplo? A partilha sempre existiu. A razão de ser é que mudou.
O nosso processo era elaborado, baseava-se num guião e havia preparação, o dos jovens de hoje é espontâneo. Pegam numa câmara e vão, por assim dizer (ou mesmo literalmente), para a estrada. Nós procurávamos a diversão e tentávamos manter a coisa em privado. Não queríamos gente de fora a ver. Os jovens de hoje apenas procuram a fama temporária, mesmo que isso lhes custe a vida. Existem excepções, claro. Tal como no meu tempo, também hoje existem jovens que procuram gravar vídeos de humor de forma mais ou menos séria. Infelizmente, não são esses que fazem manchete.
Jovens a morrer enquanto executam façanhas para as quais não estão minimamente preparados sempre houve. Sempre haverá. O problema é que muitos dos jovens de hoje cometem esses actos motivados pela popularidade que a Internet gera. E eu não aprecio isso. Parece-me injusto acusar a Internet de ser responsável quando situações semelhantes sempre ocorreram. A busca pela fama faz parte do ser humano, o bom senso de cada um é que deve estabelecer uma linha.
Uma vez contaram-me a história de um fotógrafo famoso que resolveu saltar dum prédio e fotografar a sua própria queda. Ele não sobreviveu, mas a foto ficou para a História como símbolo de determinação. No caso dele não era o risco que o motivava, era o registo dum momento único. Ele sabia que ia morrer e estava disposto a isso. A sua última fotografia é mundialmente famosa, mas daqui por uns anos quem se lembrará dos jovens que entopem o Youtube com vídeos que os deixaram marcados para a vida?

21/08/11

TERMINUS 272: ADOECER EM PÚBLICO

Um médico oftalmologista foi despedido do Hospital Sousa Martins. O Conselho de Administração do referido hospital acusou o médico de faltas injustificadas e obrigou-o a repor todos os salários recebidos desde o início da sua baixa médica, em Junho de 2010. Como justificação serviu-se do argumento “se está doente para trabalhar no público, também tem de estar doente para trabalhar no privado”. É caso para perguntar: mas que porcaria é esta?! Sempre a falar que nunca se faz nada, que somos uma cambada de calões. Este senhor está doente e, mesmo assim, vai trabalhar. E o que é que lhe fazem? Castigam-no. Belo exemplo. Reparem que não estamos a falar dum profissional que recebe pouco por mês. Um médico recebe bem o suficiente para poder ficar em casa sem fazer nada. Além disso, é qualificado para saber até que ponto ir trabalhar pode ser prejudicial para a sua saúde. Fazê-lo, mesmo ciente destas condições, é um exemplo de integridade.
Com um percurso profissional equilibrado entre o público e o privado estou em condições de defender este senhor. Acredito que muitos não saibam, e que mais ainda me critiquem por revelar isto, mas a verdade é que ficar doente no público não tem nada a ver com ficar doente no privado.
Um funcionário público entra em depressão. Fala com os seus superiores. É feita uma avaliação do seu estado psicológico e decidem que o melhor a fazer é ir para casa até ficar bom. O tempo de permanência é equivalente ao cargo que ocupe ou ao número de anos de militância do partido em maioria. Um funcionário privado entra em depressão. Deixa-se estar calado. Ou fala com os seus superiores. E quando fala, é feita uma avaliação ao seu desempenho para se perceber até que ponto aquele funcionário é indispensável. Pode acontecer, também, fingirem que não se passa nada, e deixar o funcionário entrar em colapso até ao ponto em que seja justificado despedi-lo.
Este médico da Guarda adoeceu no público, mas continuou a trabalhar no privado por isto. Não foi por dinheiro. Foi por receio. Vamos a um consulta do médico de família no Centro de Saúde e ele não aparece porque teve uma emergência familiar. Partimos para o seu consultório privado e lá está ele a atender um sujeito que, a julgar pelo tamanho, deve comer que nem uma família inteira.
Durante um ano este médico esteve doente e, mesmo assim, ia todos os dias trabalhar. Admire-se o sacrifício e tire-se daqui uma lição. Se não fosse pelo sacrifício destes funcionários públicos, o sector privado seria uma miséria.

18/08/11

TERMINUS 271: NOTÍCIAS DE AGOSTO

Agosto é e será sempre a época das notícias parvas. Vamos a elas.
Comecemos por esta. Numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados, D. José Policarpo afirmou que não existe impedimento teológico à ordenação das mulheres. Em audiência com o secretário de Estado do Vaticano, D. Policarpo esclareceu que, quando falou em ordenar as mulheres, referia-se a ordená-las por ordem alfabética e não por ordem de idade, como havia sido divulgado previamente.
Já está a funcionar no Dubai o primeiro spa automóvel. Por apenas onze mil euros, Ferraris, Lamborghinis e outros calhambeques recebem uma lavagem em condições. O tempo para cada lavagem ronda uma semana e serve-se dos mais recentes avanços na área da nanotecnologia. O serviço vem ao encontro das necessidades de todos aqueles que se queixavam da sujidade ao nível subatómico.
Prevê-se também para breve a abertura do primeiro salão de massagem para automóveis, em vez do tradicional bate-chapas. Um serviço que vem ao encontro de todos aqueles que consideram a existência de atrito prejudicial à durabilidade do veículo.
Continuando a falar de gente pobre, uma garrafa de vinho branco de duzentos anos foi vendido por 85 453,50€, entrando assim para o livro do Guiness. Christian Vanneque pediu desculpa pelo nome e disse estar ansioso por abrir a garrafa. “O último que comprei, gastei só trinta mil euros e era uma zurrapa autêntica. A ver se este é melhor.”
Ainda nas antiguidades, depois de ter sido mãe aos 66, a romena Adriana Iliescu quer repetir a proeza aos 72. Diz que se sente “como uma jovem”. Nos seus projectos futuros inclui-se fumar um charro, ir a um concerto dos Bon Jovi ou pedir um crédito à habitação.
Espaço agora para a justiça.
Os guardas prisionais da cadeia de Sintra passaram a dormir nos carros porque a camarata não possui condições. Parte do telhado tem telhas de amianto, não existe ventilação no quarto e a casa de banho está completamente degradada. Já chegaram a aparecer pulgas na sala onde os guardas tomam as suas refeições, mas nem isso foi suficiente para se mandar fazer uma desinfesta--
As minhas desculpas. Parece que peguei numa notícia de finais do século XIX por engano. Passemos à ciência.
Um estudo publicado no Journal of Thoracic Oncology afirma que muitos fumadores de longa duração conseguem deixar de fumar com facilidade antes de lhes ser diagonosticado cancro do pulmão. Fica assim provado que o tabaco ajuda a prever o futuro. O estudo não quantifica quantos fumadores conseguem desistir depois de lhes ser diagonosticada essa doença.
De acordo com um inquérito da construtora de pneus Goodyear sobre comportamentos impróprios ao volante, descobriu-se que 43% dos condutores portugueses falam ao telemóvel, 63% mexem no rádio, 45% ajustam a temperatura e 56% afirmam nunca teerem ingerido álcool antes de conduzir. Ainda de acordo com este estudo, descobriu-se que 57% dos condutores portugueses não possuem telemóvel, 37% não sabe mexer no rádio, 55% não sabe regular a temperatura e 44% está neste momento a beber enquanto conduz.
Num outro estudo, cientistas descobriram que, nos últimos trinta mil anos, o cérebro encolheu cerca de 10%, passando de 1600 para 1359 centímetros cúbicos.
Terminamos as notícias de hoje com os parabéns à menina Silly Season, que comemora a bonita idade de trinta mil anos, e algumas sugestões de leitura para aqueles que têm tempo para isso.


1. NOVO ESTUDO PARA PONTE CASAL DO MARCO-MOSCAVIDE
2. PORTUGAL PRECISA DE MAIS SUBMARINOS!
3. TUDO O QUE PRECISA SABER SOBRE TUDO
4. APRENDA A NÃO FICAR HISTÉRICO À TOA
5. EXERCÍCIOS PARA FAZER DEITADO NO SOFÁ
6. MIL E UMA DICAS PARA A BISCA LAMBIDA
7. CANTIGAS DE EMBALAR PRISIONEIROS NO CORREDOR DA MORTE
8. À VOLTA DO MUNDO EM PÉ COXINHO
9. DEUS PRECISA DE DINHEIRO
10. CARTOONS DE MAOMÉ QUE NÃO OFENDEM NINGUÉM
11. COMO ENRIQUECER URÂNIO NA SUA CAVE
12. O MEU ESCROTO É BONITO DE SE VER: MEMÓRIAS DE UM EXIBICIONISTA
13. ANFETAMINAS: FAÇA VOCÊ MESMO
14. PEIXE BOM PARA COMER CRU
15. DE BUCHAS E ANILHAS: UMA INTRODUÇÃO AO COMÉRCIO DE FERRAGENS
16. LEITURA PARA TANSOS
17. O QUE FOI FEITO DE MIM? : A HISTÓRIA DE UM MECÂNICO AUTOMÓVEL CONTADA NA SEGUNDA PESSOA

15/08/11

TERMINUS 270: MENOS TRANSPARÊNCIA, POR FAVOR

Um motorista da Secretaria de Estado da Cultura recebe 1866 euros mensais. Um especialista no Ministério do Ambiente recebe 3069 euros mensais. Um adjunto desse mesmo especialista recebe o mesmo valor. Uma adjunta, novamente na Secretaria de Estado da Cultura, recebe 4724 euros mensais.
Estas informações foram retiradas do site criado pelo governo de Passos Coelho para tornar o mais transparente possível as nomeações feitas pelo executivo. Em ocasiões prévias abordei o problema da idoneidade política. Escrevi então que a desonestidade de alguns elementos da classe política é o que nos inibe a consciência das pequenas infrações que cometemos. Por outras palavras, não nos sentimos culpados por não declarar cem euros às Finanças, porque de certeza que há um político que meteu cem mil ao bolso.
No caso das nomeações, a situação torna-se bastante mais grave. É, por assim dizer, o fim dum sonho. Mais trágico ainda que descobrir que não existe Pai Natal, coelho da Páscoa, fada dos dentes ou senhores invisíveis no céu é perceber que não vale a pena estudar para ser doutor quando se ganha mais em ser chauffeur.
Felizmente, temos também os especialistas. O especialista está para a política como o trolha está para a obra. Um especialista está apto a desempenhar funções muito específicas, ou seja, nenhumas. Qualquer pessoa é especialista na sua profissão. Pode fazer bem ou mal, mas é especialista nisso. A diferença entre essa pessoa e um especialista é que a primeira não precisa de referir isso, enquanto que a segunda refere para que fique bem claro que “a sua especialidade não é aquela”.
Outra coisa que também me alivia é saber que há limites para toda esta transparência. No site das nomeações estão lá todos os nomeados e seus vencimentos. Com algumas excepções, claro. No Gabinete do Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social sabemos que existe um assessor técnico que recebe o mesmo que recebia no seu cargo anterior nos CTT. Não sabemos é quanto. A mesma coisa para o Chefe de Gabinete do Ministério da Solidariedade e Segurança Social. Sabemos que recebe o mesmo que recebia na empresa HS – Consultores de Gestão, as. Falta saber é quanto. De certeza que há mais casos além destes e ainda bem. Pior que não acabarem com o despesismo é não o esconderem.

09/08/11

TERMINUS 269: PRESUNÇÃO DE CULPABILIDADE

A vida às vezes surpreende-nos. Tão habituados estamos a que a classe política não faça nada que ficamos sem reacção perante certas situações. Em Oliveira do Bairro um vereador resolveu suspender o seu mandato e pediu para ser constituído arguido. Foi isso mesmo que leu. Um autarca foi acusado de falta de transparência na atribuição de fundos e a autarquia resolveu não avançar com queixa criminal. E o que é que este senhor fez? Demonstrou o maior desrespeito pelo funcionamento das instituições e democráticas e pediu para ser ser julgado! Não se compreende esta atitude. E além de não se compreender não é aceitável.
Quando um vereador é acusado de desviar fundos, a atitude correcta é negar. Eu sei que esta não é a opção mais certa do ponto de vista legal ou moral, mas é sem dúvida o melhor a fazer em termos sociais. Fomos tão habituados a falcatruas e a negociatas que é impossível prever o efeito que a idoneidade teria nas nossas psiques.
Não me entendam mal. Eu não sou contra a condenação do peculato. Há, todavia, valores mais altos a serem respeitados. A começar pela difamação. Vamos supor que este vereador, acusado anonimamente de desviar fundos, vai a julgamento e é dado como inocente de todas as acusações. A sua inocência é demonstrada de forma tão efectiva que até o procurador acredita nele. Pensem na pessoa mais céptica que conheçam; até ela acreditará na inocência deste vereador.
Isto é tudo muito bonito na ficção. Na realidade há outras problemáticas a ter em consideração. O que é que resta aos populares para falarem na praça pública? Não vão, certamente, falar da inocência do senhor. Nós, povo, precisamos da suspeita, da calúnia. Queremos algo que sustente o acto de falar mal. Não que isto seja um elemento imprescindível, atenção.
Este caso é localizado, mas temo que se possa alastrar ao país. E se isso acontecer, o que será de nós? O que será das Fátimas, dos Isaltinos, dos Avelinos, dos Valentins e de tantos outros exemplos menos conhecidos? Porque o problema não seria só ficarmos sem alvos para caluniar, seria ficarmos também sem bodes expiatórios. Podemos não assumi-lo, mas é impossível negarmos que a classe política sustenta as nossas próprias prevaricações.
Fugimos aos impostos porque eles também o fazem, cometemos algumas infracções porque eles também o fazem. Criticamo-los publicamente por fazerem em grande escala aquilo que nós fazemos numa escala mais pequena. Quem é que nunca levou uma caneta da empresa para casa, por exemplo? Quem é que nunca tirou fotocópias no escritório de graça? A classe política serve para nos absolver a consciência desses irregularidades. É o que nos permite dizer, “Fiquei a dever 2€ no café, mas aquele lá outro lá não sei donde ficou a dever 2 milhões.” (Não referi nomes, nem lugares, para não ter chatices.) Se os políticos começam a ser honestos, estaremos à altura de seguir-lhes o exemplo?

06/08/11

TERMINUS 268: MÉRITO E COPIANÇO

Depois dos juízes foi agora a vez dos pretendentes a advogados serem apanhados a copiar em exames. Este tipo de situação demonstra bem o estado do ensino em Portugal. Estamos a falar de pessoas com, pelo menos, quinze anos de estudos. Quinze anos! E ainda não aprenderam a copiar sem serem apanhados? Isto deixa-me seriamente preocupado. Como cidadão não me interessa saber se determinado juiz ou advogado cabularam para chegarem onde chegarão. Prefiro não saber. Prefiro acreditar que sabem o que estão ali a fazer, que chegaram ali por mérito próprio. Se foram apanhados em falta, castigue-se. Se não, aprove-se.
Estenda-se isto a outras profissões. Quando vamos ao médico queremos acreditar que estamos a ser atendidos por alguém que trabalhou para chegar ali. Saber que o sujeito de branco que nos está a cobrar 60€ pela consulta desconhece a diferença entre a omoplata e a tíbia é coisa para nos deixar inquietos.
Mas existe um outro aspecto que me inquieta ainda mais no caso da justiça e seus elementos. Em Portugal pode não existir – tanto quanto sei – a figura do precedente jurídico, mas isso não impede que seja aqui criado um precedente. Já foi a vez dos juízes e dos advogados; pelo andar da carruagem, a seguir será a vez dos réus. Todos nós somos inocentes, até prova em contrário, logo todos nós somos passíveis de sermos acusados. Como tal, é preciso estar à altura das expectativas.
Como se sentiriam os advogados e o juiz se soubessem que o réu que está a ser julgado cabulou para chegar ali? Estou certo de que não iriam gostar. Para evitar esse tipo de constrangimentos, resolvi enunciar algumas dicas ao futuros candidatos a exame da Ordem dos Réus.
1 – Não ser apanhado a copiar. Se for, dar uma carga de porrada ao examinador, habilitando-se assim à primeira acusação por agressão.
2 – Tentar desviar as atenções do examinador para outra situação. Uma bomba de pequena alcance colocada previamente num contentor de lixo fora da sala costuma chegar.
3 – Quando não souber uma resposta, aposte com o examinador em como ele também não sabe. Aposte também em como é capaz de fazer o exame sem copiar se ele abandonar a sala durante vinte minutos.
Enfim, são dicas básicas, aplicáveis a qualquer exame. Espero que vos sirvam de alguma coisa.

29/07/11

TERMINUS 267: O NOME DIZ TUDO

Embora seja uma cidade que aprecio muito e que conheço relativamente bem, não sou lisboeta. Como tal, apesar de não ficar alheio às mudanças que ocorrem na cidade, as mesmas não me deixam tão afectado como deixam aos seus residentes. Destas mudanças, aquelas que incomodam mais as pessoas não são aquelas inesperadas, são aquelas que, apesar de expectáveis, se acredita nunca virem a acontecer.
No programa do governo, perdão, no memorando do Troika, a redução do número de freguesias era uma das medidas mais polémicas. Assim como praticamente tudo o resto no memorando, esta é mais uma que se sabia inevitável, embora houvesse a esperança de que não passasse do papel. Não foi o caso.
A operação de junção, reformulação e eliminação já começou e Lisboa parece ter sido o concelho escolhido para os primeiros ensaios. De 53 passará ter 24 freguesias. Menos de metade. Será criada uma freguesia nova chamada Parque das Nações. Alguém quer adivinhar onde será? As doze freguesias da Baixa Lisboeta juntam-se na freguesia de Santa Maria Maior. E as marchas, senhores? E as marchas? A Mouraria e Alfama no mesmo desfile? Vai haver porrada na certa.
Esta opção de agrupar freguesias e atribuir um novo nome, sem ter em conta as suas diferenças culturais e territoriais é insuficiente. Na minha opinião, faria mais sentido agrupar, não só a freguesia, mas também o nome. Por exemplo, no concelho da Moita, onde resido, mantinha-se a freguesia sede de concelho e juntavam-se as restantes. Passar-se-ia então a ter Sarilhos do Gaio-Rosário e Vale de Alhos da Banheira. No Barreiro, terra que me viu nascer, o mesmo princípio. Mantinha-se a sede de concelho e agrupavam-se as restantes freguesias, ficando com Alto de Coina do Lavradio, Verderena de Santo André da Charneca de Palhais.
Outra opção, em vez de nomes compostos, seria recorrer à junção. Recorrerei de novo aos concelhos da Moita e Barreiro para exemplificar. Na Moita teríamos as freguesias de Moita, Saráiorio e Valhoseira; no Barreiro, o Barreiro, Altoinadio e Versanecalhais. Com o tempo as pessoa habituar-se-iam e daqui a tempos estaríamos a ouvir frases do género, “Sou versanecalhaiense com muito gosto!” E o senhor Bento? Mora na Valhoseira desde pequeno e todos os dias vai trabalhar para Altoinadio.
Seria um processo capaz de suscitar tumultos, mas que daria nomes bem mais interessantes do que aqueles que resultaram da reunião camarária em Lisboa. O PCP votou contra, o PSD e o CDS-PP abstiveram-se. Há quem diga que foi por discordarem da medida. Eu digo que foi por causa dos nomes. Morar em Santa Maria Maior é um pouco parvo, morar em Alfamaria já é um pouco menos.

26/07/11

TERMINUS 266: A CARTA

Quando algo fora do comum é noticiado, é habitual as pessoas mais perto do acontecimento, mesmo não fazendo parte dele, manifestarem-se publicamente com expressões do calibre de “Eu já estava mesmo ver.”, “Ainda no outro dia lhe disse.” ou “Já cá andava desconfiado.” Esta emissão de opinião que não diz nada em concreto faz parte do ser humano e, acima de tudo, do ser português. O fenómeno torna-se tão ou mais curioso quando aplicado a algo que... não constitui qualquer surpresa.
Na minha formação básica de jornalista, aprendi que noticiar é relatar os factos, tal e qual eles acontecem. Há, no entanto, alguns critérios essenciais a serem seguidos, tais como a proximidade, a actualidade e a relevância. Na época que se avizinha, estou certo de que não faltarão notícias em que nenhum destes critérios é observado.
Dou-vos exemplos. Uma mulher cair do sexto andar e morrer não é notícia. Seria notícia ela cair do sexto andar e sobreviver sem ferimentos. Ou cair do sexto andar e a meio da queda abrir-se um portal e ela passar para outra dimensão. Ou levantar voo. Isto seria notícia, a causa conhecida procedida por um efeito inesperado.
Um outro exemplo tem que ver com uma carta divulgada publicamente. A carta, assinada por notáveis socialistas, incluíndo ex-ministros do governo de Sócrates, faz saber das coisas que correram mal no governo que ocuparam. Naturalmente que isto não é notícia porque já toda a gente sabia que as coisas não estavam a correr bem.
É uma atitude que, por princípio não lhes fica bem, mas faz parte de ser político. Quando era secretário-geral, estava tudo bem, estavam todos bem com ele; assim que sai, começam logo a falar mal. É um pouco mesquinho, talvez. Todavia, consigo entender a posição destes ex-governantes e apoiantes socráticos. É difícil estar no centro dos acontecimentos e descrevê-los de forma objectiva; mais difícil ainda se torna quando somos parte interveniente nos mesmos. O ex-ministro da Economia, Vieira da Silva, ou a ex-ministra do Trabalho, Helena André, por exemplo, estavam demasiado próximos para pensar e falar livremente.
Tempo e distância. Por vezes é tudo o que precisamos para pôr as coisas em perspectiva. É o que nos permite falar dos acontecimentos com descontração, avaliar o que fizemos bem e o que fizemos mal.É o que nos permite fazer um balanço apurado e isento de especulação.
Mas admito que teria sido bem mais interessante, quiçá, mais produtivo, esta missiva ter sido escrita e divulgada há mais tempo. Porventura, antes disto tudo ter descambado da maneira como descambou. No tempo do conde D. Henrique, por exemplo.

22/07/11

TERMINUS 265: A OPÇÃO E A INDECISÃO

Como não militante ou simpatizante socialista possuo as valências necessárias para comentar a luta (renhida?) que decorre entre os dois candidatos principais, António José Seguro e Francisco Assis, ao cargo de secretário-geral do PS. Declaro aqui publicamente a minha não-militância e a minha não-simpatia, para que não me acusem de denegrir um candidato em relação ao outro. A minha intenção é denegrir os dois. Comecemos por Francisco Assis.
Uma coisa que me irrita na política e nos políticos não é tanto o que eles fazem ou dizem, mas o que utilizam para justificar essas acções. Francisco Assis fez parte do governo que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O diploma, de acordo com as partes interessadas, ficou incompleto, porque não abordou a questão da adopção.
Enquanto governante, a opinião de Assis era a opinião do Governo, ou vice-versa; enquanto candidato, já pensa de maneira diferente. Diz ele que “Durante muito tempo tive dúvidas [sobre a adopção de crianças por casais do mesmo sexo], mas neste momento sou favorável, porque percebi que essas dúvidas se alicerçavam no mais puro preconceito.”
Naturalmente que Assis tem todo o direito de mudar de opinião. A questão é... porque é que muda? Será uma mudança genuína ou será calculada? A causa gay, chamemos-lhe assim, era um dos galões do Bloco de Esquerda e o PS apoderou-se disso. Tirou ao Bloco uma das suas causas e fez aquilo que tinha poder para fazer. Não fez tudo. Preferiu deixar um pouco para mais tarde.
A pergunta que eu faço é: se os skinheads estivessem em maior número na nossa sociedade, será que Francisco Assis estaria a dizer “Essa escória da estrangeirada, se fosse eu a mandar, era tudo corrido lá pra terra deles.” Até que ponto ele expressa a sua opinião, até que ponto ele joga com simpatias alheias?
Sobre António José Seguro, estou à espera que se decida, duma vez por todas, se a regionalização é uma prioridade ou não. Parece que, em algumas terras, ao almoço, é um compromisso inadiável; noutras, ao jantar, deixa de ser uma prioridade. Dava-me jeito saber em que é que ficamos.
É fácil escrever um artigo tendo por base uma mudança de opinião de um político. Contudo, se o político for António José Seguro, corre-se o risco de ele mudar de opinião entretanto. Se a mudança ocorrer a meio do artigo é menos grave. Pode ser que, chegando ao fim, ele tenha retornado à opinião anterior.
Ao contrário de Assis que assume as reinvidicações duma classe como sendo as suas, Seguro anda de terra em terra, como um verdadeiro arauto das suas exigências regionais. “Vocês aqui são contra ou favor da regionalização?”, dirá num discurso hipotético. E as pessoas, pensando que é uma pergunta de retórica, do género “Vocês estão aqui?”, respondem “Sim!”. Ou não, se forem contra. Seguro fica seguro da posição popular e opina em conformidade.

12/07/11

TERMINUS 264: CHAVÕES DE MORTE E REENCARNAÇÃO


Bom dia, senhora algo forte que está a beber o cafezinho com adoçante depois de ter emborcado um mil folhas e uma bola de berlim. Os outros também são bonitos, mas precisam de cortar os pelos do nariz. Vamos falar de morte? Vamos!
Há expressões que dá gosto ouvir sempre que alguém morre. Uma delas é “Tinha uma saúde de ferro.” É gira, porque quem a costuma ouvir mais são as pessoas que nunca vão ao médico. Não é porque não precisem, é porque não querem. Não querem, não vão e as pessoas todas pensam que é uma pessoa muito saudável. E tem um tumor do tamanho do pâncreas a lixá-lo todo por dentro.
Mas faz bem em não ir ao médico. Se for ao médico, o que é que acontece? “O senhor está muito doente! Tem de ficar acamado, a tomar estes vinte e sete comprimidos, dos quais só três fazem falta, e ficar assim até morrer daqui a dois meses!” Não indo ao médico, talvez morra num mês, talvez dois, talvez três. Mas ao menos curte a vida. E é isso que interessa.
Outra expressão muito comum e também muita gira é esta: “Coitado. Ao menos morreu depressa.” Quantas vezes é que ouviram isto? O que é que significa? Nada. Morreu depressa. Há aqueles que morrem devagar. Aquele morreu depressa. Foi de quê? Jacto? TGV?
Faz-me confusão isto. A morte não é rápida, não é lenta. É. A pessoa está viva e depois está morta. Não há meio termo. “Tem a ver com o tempo que demoramos a morrer.”
Nós começamos a morrer a partir do momento em que nascemos. Vejam a comparação. Um recém-nascido é jogado para o lixo, morre à fome ao fim de um dia, talvez dois. Um velho de 97 anos leva um balázio na cabeça e tem morte quase imediata. Qual deles é que teve uma morte lenta?
Há quem diga que, depois da morte, vem a reencarnação. Segundo algumas culturas, a espécie em que nós reencarnamos depende dos actos que fizemos na vida anterior. Se formos ladrões, poderemos reencarnar como políticos. Se formos mulheres, na próxima vida provavelmente seremos um creme hidratante à base de extractos naturais de plantas.
Voltando ao exemplo de há pouco, o que é que acontecerá quando se morre à nascença? Será que reencarnamos num órgão interno? Num germe?
Há quem diga que nestes casos, já que a pessoa não fez nada de mal, é considerada uma pessoa pura e vai para o Paraíso. Eu digo que esta apatia aos problemas da sociedade faz deles uns parasitas sociais. Se eles são puros por não fazerem nada na vida, o que é que podemos dizer das centenas de pessoas que vivem à custa do trabalho dos outros? São os nossos anjos da guarda? Pessoalmente prefiro a reencarnação à ressurreição. Sempre dá para fugir ao Fisco.

09/07/11

TERMINUS 263: ANDAR A PÉ

Porque é que dizemos "eu, pessoalmente" quando estamos a falar de nós próprios? Será que o facto de se estar a falar na primeira pessoa não chega para se perceber que é uma opinião pessoal? Não se diz "ele, pessoalmente" ou "tu, pessoalmente". O "pessoalmente" é sempre eu. E eu pessoalmente acho isto estúpido.
Como é que eu lido com isto? Praticando desporto. Ou melhor, andando a pé. Não é um desporto, mas também cansa. E parece fácil, só que não é. Tirar a carta e andar de carro daqui para ali, qualquer um faz, agora andar a pé... é preciso saber. Vê-se só por isto: um gajo demora quase um ano para aprender a andar a pé. Quanto tempo é que demora para aprender a andar de carro?
E andar a pé não cria vícios. Eu vejo o que acontece aos condutores quando ficam proibidos de conduzir. Geralmente são aqueles que viajam nos lugares da frente dos autocarros e vão a viagem toda a pedir ao motorista.
"Deixe-me conduzir só um bocadinho, vá lá! Eu sei o caminho!"
É a ressaca. A malta que anda a pé não sofre disso. Outra coisa boa de andar a pé: costuma ser grátis, não quer dizer que seja sempre. Há quem goste de pagar 25 euros para subir e descer degraus ao som de música ritmada. “Desde que comecei que me sinto muito mais leve,” diz o cachalote que vai do segundo andar para o rés-do-chão de elevador e depois de cada aula repõe as calorias perdidas com uma injecção de calda de açúcar.
Quem foi a alminha que chamou ao step desporto? Aquilo é subir e descer um degrau. Mais nada. Passadeira rolantes. Andar devagar, andar depressa. É preciso gastar dinheiro nisso?
O tempo que uma pessoa gasta de casa até ao ginásio, a subir e descer as escadas, quando finalmente chega lá já não precisa de treinar mais.
Eu vejo as coisas da seguinte forma: se for possível organizar um campeonato, é desporto; senão é perda de tempo e dinheiro. Imagino como será um campeonato de step. Nem ponho a hipótese de não existir. É uma ideia estúpida, logo existe. O que é que avaliam? São pessoas a andar. Categorias: coxos, mutilados e pessoal com duas pernas. Seria uma competição interessante de se ver. Bizarra, mas interessante.

06/07/11

TERMINUS 262: OS ANOS PASSAM E...


NETOS E AVÓS

Não importa a idade que temos, para os avós, um neto tem sempre dois anos. Não passa daí. Pode já ser casado. Ser doutorado em engenharia astrofísica. Os avós continuam sempre a tratá-lo como se fosse um atrasado mental. E, por causa disso, continuam a causar embaraços nas piores situações.
Um homem feito, no fim da licenciatura, que viva com os avós, leva a namorada a casa para conhecer os pais e a avó aparece com um par de cuecas sujas a perguntar, “Estas cuecas são tuas?”
Fica logo tudo estragado. Não interessa se as cuecas são ou não são dele. Se forem é mau. E mesmo que não sejam, é mau na mesma. Porque não há como voltar atrás. E não há nada que se possa dizer.
Imaginem que ele está numa situação delicada. Mas qual? Não existem situações indelicadas para uma avó. As avós são como os MIB. Entram em todo o lado. Atrevam-se a dizer “Não pode entrar” a uma avó e vão ver a sorte que vos calha.
Pode acontecer por exemplo, como já deve acontecido a muita gente, a avó entrar no quarto, quando se está a tentar aumentar a taxa de natalidade no nosso país, e dizer:
“Não te esqueças da televisão acesa como é teu hábito. Olha que eu tenho mais que fazer do que vir aqui às quatro da manhã para apagar a apagar a televisão.”
Tenta-se manter a calma, só que não há muito por onde escolher. Porque, se não lhe respondem, ela começa logo, “Não me ouves a falar contigo?”
Por outro lado, se lhe respondem, aí é que tá tudo estragado. Basta dizerem uma coisinha simples como, “Avó, importa-se? Eu e a minha mulher estamos a tentar fazer um filho.”
“Pronto. Desculpe se incomodei. Não se pode dizer nada que fica logo todo enxonfrado. Chiça!”
E depois sai. Mas continua-se a ouvir em toda a casa.


AS IDOSAS DE SATÃ

Irritam-me aquelas velhas beatas que me aparecem à frente para impigir a porcaria do Sentinela. Detesto. Nada contra a religião, nada contra a revista, mas os fiéis... Custa muito tirar um curso de técnica de vendas? Eu acho que não. E por enquanto são só essas. Eu quero ver se isto alastra a outros credos. Tipo, pessoal satânico. Aquilo não é só malta nova. Também há velhos lá. O pessoal que é marado para entrar lá, fica lá pra sempre; não se cura assim muito facilmente.
Tenho medo do dia em que me apareça uma velha à frente com uma t-shirt de Cradle a dizer: "O sangue! O sangue!" Mais uma vez, cá temos o problema da técnica de venda.
E esta da roupa é outra. Habitualmente, eu visto-me de preto. Quantas vezes é que não há um palhaço qualquer que se chega ao pé de mim e pergunta: "És satânico?" ou “És gótico?” É sempre! E no entanto, nunca vi ninguém a perguntar isso a uma dessas velhas que se vestem de preto. Porquê?
Sabem o que é que respondo quando me perguntam porque é que me visto de preto? É porque não se notam tanto as manchas de sangue.
Se eu me vestisse de branco, será que me interpelariam com dúvidas do género, "Doutor, não me estou a sentir bem. Será que me podia passar qualquer coisa?"
Roupa é apenas roupa. Eu sempre que vejo um gajo de calças pretas e camisa branca, não me aproximo dele e peço um café e um copo de água, só porque parece um empregado de café. Pode não ser. Roupa é apenas roupa.