31/01/11

TERMINUS 212: VINICULTURA GERAL

Os franceses são um povo à parte. Não tanto no sentido em que fazem coisas que mais ninguém no mundo faz, mas no sentido em que fazem tudo aquilo que os outros fazem, mas conseguem quase sempre dar-lhe um toque pessoal. Comparando Portugal e França, enquanto nós andamos preocupados com a crise financeira e com bancos, na França está-se a trabalhar na produção de vinho com menos teor alcoólico. Para combater o alcoolismo? Por favor, não se embaracem com tanta ingenuidade.
Desconheço sinceramente qual a actual situação financeira da França. Suponho que seja francamente melhor do que a nossa, afinal de contas é um país, mas não conheço os pormenores todos. O que sei, a acreditar no que dizem estes investigadores, é que, durante os últimos trinta anos, as alterações climáticas têm elevado a concentração de açúcar na uva; o que, por sua vez, leva ao aumento do teor de álcool.
Há desculpas para tudo. Julgava eu que o problema do excesso de álcool era porque algumas bestas não sabiam beber. Achava eu que essas aventesmas bebiam demasiado. Afinal, não. Afinal essas aves raras bebem o mesmo, ou talvez menos. A culpa é do clima.
Temos, portanto, duas situações distintas. Em primeiro lugar, qual a razão que levou os franceses a fazerem este estudo? Obviamente para vender mais vinho. Se o preço da garrafa se mantiver, mas o teor alcoólico diminuir, em vez de uma, as pessoas passam a comprar duas ou três. Em nenhum país do mundo isto resolveria uma crise financeira, contudo, ajudaria os seus habitantes a esquecerem-se de muitos problemas.
Por cá, lamento dizê-lo, a ideia não resultaria. Nós recusaríamos com veemência o vinho light. Para algumas pessoas, ainda seria uma hipótese a considerar; para a generalidade da população portuguesa seria algo a vilipendiar. E porquê? Porque nós somos um país de tascas, de tabernas, não de tavernas. Somos um país de estabelecimentos que, mesmo em plena época DA (Depois da ASAE), continuam a funcionar, apesar das condições de higiene serem as mesmas do que há cinquenta anos. E porquê? Porque somos assim. Não há vergonha em admiti-lo.
Enquanto uns comem caracóis de faca e garfo e fazem vinho light, nós comemos tripas, dobrada, chispe, língua, fígado, coração e bebemos vinho carrascão, do mais ácido e acre que há.
Publico este artigo, ciente do risco em que estou a colocar o planeta. Pois se em França eles trabalham para reduzir o teor alcoólico das uvas provocado pelas alterações climáticas, nós faríamos uma razia a todas as superfícies comerciais em busca de aerossóis, acreditando que, se esguicharmos spray em quantidade suficiente, um vinho de 13,5º passaria para uns simpáticos 19,8º. Seria algo que, mais uma vez, não resolveria a nossa crise financeira, mas deixar-nos-ia mais bem dispostos e mais bem cheirosos.

29/01/11

TERMINUS 211: ACESSO AO ÁLCOOL

Antes de começar, uma vez que se trata de um tema delicado, tenho de fazer um aviso. O óbvio é relativo. Esta foi a primeira ideia que eu quero que fixem deste meu artigo. A segunda é: não se deve fazer de quem não percebe o óbvio. Perceberam? Não se goza. Agora sim, podemos começar.
O senhor António Nunes... Não, não é aquele do Euromilhões, é o da ASAE. Pois, também eu preferia estar num grupo de folclore transmontano, mas enfim. O senhor António Nunes, não me interrompam agora, percebeu finalmente que as caixas de pagamento self-service foram uma óptima invenção para todo o menor de idade que quer comprar álcool. Não gozem, não gozem que não é por vocês terem percebido isso à primeira que o senhor António merece ser achincalhado. (Achincalhado. Há mais algum sítio onde vocês leiam “achincalhado e self-service? Há? Então vão pra lá! Mal agradecidos!)
Para o senhor que ficou, um grande bem haja.
Quando eu era pequeno, ia à taberna ao lado da minha casa buscar vinho e cerveja. Ia a pedido da minha mãe e não levava mais do que aquilo que me pediam. Acreditava religiosamente que se ousasse pedir algo com teor alcoólico para meu consumo pessoal, usando a desculpa do recado para a mãe, não só o senhor Dias não me venderia o produto como me levaria pelas orelhas até junto da minha mãe para apresentar queixa. Ou, o mais certo, venderia tudo aquilo que eu lhe pedisse, desde que pagasse, porque o negócio dele era vender vinho e não combater o alcoolismo.
Esta minha crença em capacidades sobre-humanas do taberneiro da minha rua durou até 1989, ano em que visitei Évora pela primeira vez. Foi aí que visitei a minha primeira igreja, onde rezei pela primeira vez. Apesar de desconhecer a maneira correcta de formular um pedido, fiz o melhor que pude e pedi a Deus que me dessem pelo Natal um conjunto da LEGO, não me lembro agora qual. Ao não receber nenhum conjunto da LEGO esse Natal, esvaeceu-se a minha crença no Senhor invisível e nas capacidades extra-humanas do senhor Dias.
Desculpe o desvio, senhor Henrique.
Era assim que as coisas funcionavam no meu tempo. Hoje em dia, como bem sabe é tudo tecnológico. E há mais por onde escolher. Na taberna da minha rua havia branco e tinto. Eram estas as marcas. Branco e tinto. Não havia cá Casais Garcias, Lambruscos, Renguengos, Terras de Xisto. A nossa escolha era simples. Porque eram simples os tempos.
Pessoalmente, agrada-me mais a ideia de um menor a comprar vinho numa tasca do que numa grande superfície, através duma caixa de self-service. Não porque o álcool lhe faça bem, mas porque perde menos tempo a escolher o vinho certo e a pagar por ele. Na tasca a escolha é mais simples, mais rápida, e depressa o jovem sai para a rua. Onde um condutor alcoolizado lhe espeta com um Fiat em cima. Condutor esse que comprou o seu vinho numa grande superfície.
É bem feito para o menor que disse à mãe que ia comprar gomas.

27/01/11

TERMINUS 210: AS REGRAS DA CONVERSÃO

Tenho andado tão ocupado com isto das presidenciais e do outro que mal tenho tido tempo de prestar atenção às notícias de facto importantes. O que vem aí não se trata duma notícia, no sentido em que já não é actual, mas não deixa de ser um momento bem bonito que partilhar convosco.
Paulo Macedo, o ex-director-geral dos Impostos (vade retro!) e actual quadro do BCP (a moldura que ele tem à sua volta é linda, só é pena não ser penal), foi ao Tribunal Central de Instrução Criminal a pedido do colega e amigo, Armando Vara, testemunhar sobre o carácter irrepreensível do senhor Armando. Foi um momento que gerou algum riso junto daqueles que pensavam estar num julgamento a sério; mas depois passou e a coisa lá seguiu.
O Paulinho do BCP disse que Vara nunca usou a sua influência para beneficiar Manuel Godinho. O que se lamenta. Com tanta prenda que o nosso rei da sucata andou a oferecer a políticos e dirigentes, o mínimo que faziam era oferecerem-lhe um vale de compras.
Além do Paulinho, foram também chamados senhores da CGD para ouvir uma escuta. Como os tempos mudam. Antigamente, a malta juntava-se em casa uns dos outros para ouvir um disco; hoje em dia juntam-se num tribunal para ouvir escutas. Pode ser implicância minha, porém, não me parece que tenha a mesma magia.
E o que tinha esta escuta de tão especial?
Ao que parece – dizem, que eu não ouvi – o senhor Godinho falava da capacidade miraculosa do senhor Vara de converter km em euros; neste caso 25 km em 250 mil euros. Sempre ouvi dizer que tempo é dinheiro, mas distância é a primeira vez. Onde é que se aprende a fazer uma conversão deste tipo? Na escola não deve ser. Pelo menos não em nenhuma igual àquelas onde eu andei.
Uma última nota sobre Manuel Godinho. Parece que o Iron Man de Ovar anda com vontade de ir para casa. Diz que a prisão lhe anda a fazer mal. Faz a todos, meu caro. Mas é bom para quem se baldou ao exame. O amigo tem que idade? É aproveitar enquanto está aí que não paga nada. Custa à mesma, mas é grátis.
Quanto às dores que o afligem, das duas uma. Ou Manuel Godinho tem excesso de ferro no sangue e faz reacção alérgica às grades, ou então vem do planeta Portugal e está numa cela cujas grades são feitas a partir de ferro extraído no seu planeta natal.

25/01/11

TERMINUS 209: DE DEDO EM RISTE

Estou a uma década da idade do dedo. Os homens com mais de quarenta anos que me estão a ler, sabem do que eu estou a falar. O famigerado dedo. Durante anos e anos, nós homens vivemos sob o jugo de profissionais de saúde que ditavam o nosso destino através da inserção digital numa área que nós preferíamos que permanecesse inviolável.
Para quem já passou por esta experiência, esta notícia terá um gosto amargo; para aqueles que, como eu, estão ainda a uns anos desse evento, poderá ser uma boa nova.
Um estudo britânico concluiu que homens que tenham o indicador maior que o anelar têm menos probabilidades de vir a sofrer de cancro da próstrata do que os outros. Vou dar uns segundos aos homens que me estão a ler para olharem para as mãos com atenção. Já viram? Não vale dobrar o médio, tem de ser com os dois esticados. E então? Quem estiver safo, ponha o dedo no ar. Não o do meio, o maior.
Isto é para quê? Que uma pessoa contraia uma doença por graça divina ou porque não teve cuidado, por mim tudo bem. Que se safe por ter os dedos trocados parece-me injusto. Quando nascemos, contam-nos os dedos. Agora vão passar a medi-los.
Parabéns, dona Maria. Tem aqui um belo rapazinho. Comece a prepará-lo já, porque daqui a uns aninhos...”
Há aqui algo de errado. A regra é ter o indicador menor do que o anelar. Quem não nasce com os dedos bem é que devia ser castigado para aprender. Mas não. Somos nós, os como deve de ser, que nos temos de vergar.
Que é o que nos incomoda realmente. O cancro em si é chato, é mau, mas é quase um alívio comparado com o exame em si. Estamos no século XXI, senhores! Não há uma máquina que faça esse exame sem que seja necessário um sujeito de luvas de borracha a mexer onde não deve?
Tenho um dedo que adivinha.”
Já chega! Espero que daqui a uns anos, quando for a minha vez, já estejamos evoluídos ao ponto em que só precise de cuspir para dentro de um tubo e pronto. A máquina diz logo tudo.Até lá, temos que nos sujeitar.
Aprecie-se, porém, os esforços que o Governo está a fazer por todos aqueles que irão um dia passar pelo dedo. Para quem não compreendia a relevância de algumas das medidas de austeridade anunciadas, julgo que verão essas dúvidas esclarecidas dentro em breve. Para as mulheres e para os homens que têm os dedos trocados, serão um esforço sem razão aparente. Para nós, candidatos a exame, será uma preparação. De tanto nos vergarmos pelo bem das contas públicas, quando formos ao exame, será com relativa facilidade que baixaremos as calças.

23/01/11

TERMINUS 208: PARTILHE-SE

Aqui há dias responsáveis da ACAPOR entregaram na Procuradoria-Geral da República mil denúncias de IPs que partilhavam ficheiros ilegais. Como ainda não se ouviu nada de fontes oficiais sobre isto, achei que era meu dever intervir.
Antes de mais, assuma-se de vez: toda a gente faz downloads ilegais. Não há ninguém que não faça. Há quem abuse, há quem tenha o computador ligado 24/7 sempre a sacar; há quem saque um filme de vez em quando, mas a verdade é que toda a gente saca. Incluindo os senhores da ACAPOR.
Meus meninos, não venham cá com histórias porque vocês não são mais nem menos que nós. Protestar publicamente contra algo que fazem em privado é apenas hipocrisia da vossa parte.
A reivindicação principal são os direitos dos artistas. Com os downloads ilegais, os artistas recebem menos. Não. Os artistas sempre receberam menos. Comparado ao que recebem as editoras, as produtoras e todas as partes envolvidas que não os artistas, são estes os que menos recebem. Era assim antes da Internet, continua a ser assim hoje em dia. Não por culpa da Internet, sublinhe-se, mas por culpa duma indústria que não soube, não quer, acompanhar o evoluir dos tempos.
Dizem-se preocupados com os artistas. Eles estão-se nas tintas para os artistas. Os produtores estão-se nas tintas para os artistas. A não ser enquanto gerem lucro. Uma obra, boa ou má, é produzida por dois motivos: porque gera lucro ou porque é subsidiada por fundos públicos.
Alguns artistas viram as suas vendas aumentar justamente com o boom da partilha online. Ao podermos obter de forma gratuita (ainda que ilegal) uma música, um filme, uma série, etc., aumenta a probabilidade de obtermos o produto original. Comigo acontece isso. Compro o que vejo e gosto. Não tanto quanto gostaria porque os preços não o permitem.
Muitas bandas disponibilizam os seus álbuns gratuitamente nos seus sites pessoais e sobrevivem à conta de publicidade. Para os fãs, a música é gratuita; para a banda, as receitas de publicidade cobrem todas as despesas e geram lucro. Quem sai a perder é quem vive à custa do trabalhos dos outros.
Estes downloads ilegais não estão a suscitar queixas da parte de quem cria ou de quem produz, e sim de quem vende. O que não se percebe. Se a propriedade dos produtos partilhados não pertence à ACAPOR, por que raio têm de meter o bedelho onde não são chamados? Eu não vou apresentar queixa de carro roubado se o carro não for meu.

21/01/11

TERMINUS 207: MORRER EM NOVA IORQUE

O artigo que se segue tem como tema principal o recém-falecido cronista Carlos Castro. Antes de mais, tenho que falar do elefante no quarto. Podem ser de mau gosto todas as piadas que de imediato começaram a proliferar pela Internet, jornais e etc., sobre os nomes dos envolvidos nesta situação, mas percebam duma vez por todas: os nomes em causa e a situação em si geraram essa possibilidade. Se os envolvidos se chamassem Zé Manel e João Silva, não teríamos tantas piadas como temos com Castro e Seabra. Não tem a ver apenas com as pessoas, tem a ver principalmente com os nomes.
Referido que está o elefante, vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, não vou adiantar teorias sobre o que terá acontecido naquele quarto de hotel. Não nutro especial interesse por qualquer um dos envolvidos. Não me interessa de quem foi a culpa, preocupa-me é a falta de respeito. Nomeadamente, com a indústria hoteleira portuguesa.
De há uns meses para cá, tenho percorrido o país de norte a sul e passado por muitos bons hotéis. É verdade que Lisboa não tem o charme de Nova Iorque. Aliás, para sermos rigorosos, não podemos comparar Lisboa a Nova Iorque; quanto muito Lisboa a Washington, por serem capitais. Nova Iorque podemos comparar a... talvez ao Porto ou Coimbra ou mesmo Albufeira. Tenho passado por muito bom hotel cá, dizia eu, e fiquei desiludido que Carlos Castro tenha decidido ir morrer para Nova Iorque.
O ex-cronista tem andado na boca de tudo quanto é jornalista e a sua morte está a receber mais destaque do que a morte de outras figuras de maior relevo falecidas em data aproximada. É verdade que a violência do crime justifica um certo sensacionalismo em torno do caso. É uma morte mediática sem dúvida. Mas é uma morte efémera.
Sou leitor ocasional do Correio da Manhã e sou capaz de folhear uma TV Mais ou uma TV7 Dias se estiver num café e não houver mais nada para ler. E em todos estes periódicos onde, com mais ou menos regularidade, costumava encontrar “textos” do senhor Carlos Castro, não me consigo lembrar de nada relevante que ele tenha escrito. Estou certo de que terá escrito algo importante, mas não tenho certezas absolutas quanto a isso. Assim como as entrevistas vazias que fazia a pessoas sem importância não conferiram a essas pessoas mais relevância do que aquela que não tinham, aquelas com obra feita que aceitaram ser entrevistadas por ele, não será isso que as fará perdurar na memória colectiva, será tudo o resto.
Três dias antes do assassinato do cronista, faleceu o artista moçambicano Malangatana. Perto da Escola Secundária onde estudei, existe um parque com uma obra desse escultor. Daqui por muitos anos, quem passar por esse parque, continuará a ver essa escultura. Quanto às opiniões e críticas de Carlos Castro, desaparecerão como o seu autor; embora não de uma forma que dê para encher tanto chouriço.

16/01/11

TERMINUS 206: MENOS ESTUDOS, MAIS EMPREGO

Um país é como um restaurante que coloca um catrapázio com a ementa no meio do passeio: ambos tentam destacar algo que os distinga da concorrência. No caso dos restaurantes temos o mítico e digno “Á pipis”, no caso dos países funciona de maneira diferente, mas não muito diferente.
Um bom exemplo português, divulgado no primeiro boletim trimestral do Observatório Europeu de Vagas Profissionais, é o facto de sermos o país da Europa que oferece mais trabalho a quem tem menos estudos. De acordo com os números divulgados, 59% das pessoas que conseguiram trabalho neste último trimestre de 2010 tinham uma escolaridade muito baixa.
Para quem dizia que este Governo não tinha uma política de Educação bem definida, faziam melhor em terem ficado calados para não passar vergonha. Portugal, não só tem uma boa política de Educação, como garante emprego para quem, apesar das facilidades, não se conseguir safar.
E não é preciso pensarmos muito para encontrarmos bons exemplos de facilidades. O mais recente é a transição do 8º para o 10º ano mediante a realização de um exame. Palpita-me que não tardará a aparecer o exame para se passar do 7º para a Licenciatura. Quem não conseguir fazer este exame, pode depois ir trabalhar para o campo ou para uma tasca ou para uma repartição de Finanças. Em suma, trabalhos que carecem de trabalhadores pouco qualificados. Ou, pelo menos, assim parece.
Nesta altura vejo-me quase que obrigado a lançar uma questão. Porquê? (Não é esta a questão, embora também seja uma questão.) Porque é que eu me vejo obrigado a lançar esta questão? (Também não é esta questão; contudo é uma questão a ser respondida.) Resposta: porque estou a escrever com um espelho à minha frente. Não é narcisismo. É mobília. Sobre a relevância da questão, que é o que interessa, a questão a ser lançada é a seguinte: esquecendo tudo o que eu escrevi nos parágrafos anteriores, todas as ironias, paródias, etc., este estatuto é bom ou mau para Portugal?
A grande vantagem que os números nos oferecem é a possibilidade do reverso. Se considerarmos os 59% divulgados pelo relatório, é muito mau percebermos que da totalidade de pessoas que trabalha, mais de metade tem baixa escolaridade. Porém, se considerarmos os restantes 41%, podemos convencer-nos (ainda que não seja verdade) que apenas 41% do nosso pessoal qualificado não consegue arranjar trabalho. Se consultarmos os números da Itália e os da Grécia, respectivamente 43% e 37%, e os compararmos com os seus reversos, percebemos que 57% dos trabalhadores italianos qualificados e 63% dos trabalhadores gregos qualificados não consegue arranjar trabalho.
Em suma, a resposta à questão de isto ser bom ou mau para Portugal está dependente da opinião de cada um. Os números dizem sempre aquilo que nós queremos que eles digam. Mesmo que seja um disparate autêntico. É tudo uma questão de interpretação.

14/01/11

TERMINUS 205: VÃO-SE QUOTIZAR TODOS

Olá, meus bezerrinhos. O diminutivo não é por serem fofinhos e queridos, é por ainda não estarem prontos para o abate. No artigo de hoje vou falar de um tema que vai fazer as delícias de todos aqueles envolvidos em fraudes e outros delitos desse calibre. E o grande tema é: sociedade por quotas. Calma! Não comecem já a dar pulos de contentamento. Se estiverem em local público, força; sempre é um espectáculo bonito de se ver. Se estiverem em casa, façam favor de se comportarem como os adultos que gostariam de ser.
Foi preciso esperar um bocado, mas em boa hora o Governo decidiu acabar com o capital social mínimo de 5000 euros para constituir empresas. A partir de agora quem quiser formar uma empresa, pode fazê-lo com mais facilidade e com muito menos dinheiro, nem que seja só com euro.
Esta medida faz parte do nosso já grande amigalhaço Simplex, e tem por objectivo “contribuir para reduzir os custos de contexto” e “promover o empreendedorismo”. Quem sabe o que isto significa, deixe-se estar caladinho e não interrompa enquanto eu explico aos que não sabem.


CONTRIBUIR PARA REDUZIR OS CUSTOS DE CONTEXTO
Exemplo: O senhor Calapito abre um consultório de Oftalmologia na zona do país com mais cegos por metro quadrado. Como tem de mandar vir clientes de fora, essa despesa reduz substancialmente a sua margem de lucro. De modo a compensar esse gasto, o Governo deixa o senhor Calapito meter mais algum ao bolso.


PROMOVER O EMPREENDEDORISMO
Exemplo: O senhor Calapito abre um consultório de Oftalmologia na zona do país com mais cegos por metro quadrado. Por ser uma ideia arrojada, embora de difícil aplicação neste cenário, o senhor Calapito gasta mais dinheiro do que gostaria. Para compensar esse gasto, o Governo deixa o senhor Calapito meter mais algum ao bolso.


Para um leigo na matéria, compreendo que possa parecer que existe uma ideia comum a estes dois pontos. Asseguro-vos que o facto de ambos os senhores nestes dois exemplos terem o mesmo nome, e de ambos terem tido a bela ideia de abrir consultórios de Oftalmologia em zonas pouco adequadas para isso, trata-se de uma simples coincidência.
A ideia principal a reter é a possibilidade de “fomentar que boas ideias se transformem em negócios com facilidade. Um bom exemplo, de acordo com a Secretária de Estado da Modernização Administrativa, é a criação de empresas de serviços informáticos na Internet. Antigamente estes empresários precisavam de um capital social mínimo de 5000 euros; o que os obrigava a perder muito tempo a quebrar firewalls, roubar passwords, entrar em contas bancárias, fazer transferências de 1 ou 2 cêntimos para contas off-shore. Até conseguirem chegar aos 5000 euros, estão a ver a maçada que não era. Agora só precisam de furtar 1 ou 2 euros. Não me admiro se alguns deles, com mais vontade de gastar do que o normal, for capaz de se chegar à frente com esse guito todo.

12/01/11

TERMINUS 204: QUESTÕES DO FORO PRIVADO

Olá, meus rojõezinhos! E então? Continuam em pulgas pelas eleições que estão prestes a acontecer, ou já tomaram uma aspirina e perceberam que as coisas não vão mudar assim tanto? Na minha crónica de hoje trago-vos um tema que é sempre tão bem explorado pelo homem: a menstruação. E atenção que “explorado” não é um termo utilizado ao acaso.
Parece que na Noruega existe uma empresa em que as trabalhadoras são obrigadas a utilizar uma bracelete vermelha sempre que estiverem com o período. A medida está a ser fortemente contestada pelos sindicatos, que acusam a empresa de descriminação. A empresa defende-se, dizendo que, graças a este sistema, essas funcionárias podem passar mais tempo na casa de banho.
Em muitos aspectos eu admiro a Noruega, a Suécia, enfim, esses países nórdicos onde as coisas tendem a funcionar bem. Este caso não é exemplo disso. Uma medida que permite menos tempo de trabalho é uma medida contraproducente. Tenho dificuldade em perceber estes sindicalistas. Em vez de ficarem contentes porque existe um grupo que passa a trabalhar menos, ficam indignados por esse grupo ser obrigado a utilizar um acessório de modo.
É uma medida que mexe na privacidade nas pessoas? Mais ou menos. Quem trabalha com mulheres, sabe que elas estão a par dos ciclos menstruais de todas; quem fica de fora deste baralho são os homens. Portanto, esta questão da privacidade só é privada até certo ponto.
Em Portugal ainda ninguém se lembrou de fazer isto. E ainda bem. A avaliar por alguns casos, certas mulheres ficariam com o braço marcado de tanto andar com a bracelete colocada. Outras, mais púdicas, ficariam da mesma cor da bracelete, tornando-a obsoleta.
Quanto aos homens, não se pense que escapam ao crivo patronal. Se as mulheres são obrigadas a utilizar bracelete, os homens têm de picar cartão sempre que forem à casa de banho. Esta medida já não me desagrada, na medida em que me permitiria contabilizar quanto tempo é que passo na casa de banho. Seria uma ajuda imprescindível para poder organizar melhor o meu dia a dia.

10/01/11

TERMINUS 203: PELA ETIQUETA

Um comunicado publicado no site oficial da Direcção Geral de Saúde, dá conta que “a actividade gripal é moderada, mas revela tendência, conforme esperado para esta época do ano”. Ora, muito obrigado meus caros senhores. É disto que eu gosto nos médicos. São capazes de nos dizer que quando vem o friozinho, vem o ranhinho também.
Duas perguntas, não para os médicos, mas para quem me lê, mesmo que não seja médico. A primeira é: a DGS terá uma quantidade assim tão grande de sites de fãs para que seja necessário especificar que este comunicado foi publicado no site oficial? E a segunda: escrever “ranhinho” é fofo ou javardo?
A gripe pode ser muito perigosa, sem dúvida. Principalmente para quem anda à fresca. “A vacinação é o melhor método de prevenção”, diz o mesmo comunicado. Assim à primeira vista, os senhores da DGS fazem lembrar os avós. É possível que alguns deles também o sejam. “Agasalha-te que 'tá frio. Olha que constipas-te.” No entanto, os senhores da DGS, além dos avisos, são também pela regras de etiqueta, nomeadamente pelas regras de etiqueta respiratória.
A minha preferida destas regras é aquela que diz que devemos tossir ou espirrar para um lenço descartável ou para o cotovelo. Pessoalmente, prefiro perder o amor aos 4 cêntimos que custa um lenço de papel do que manchar de muco a manga do casaco. Quando eu era pequeno levava nas orelhas por limpar o ranho à manga. Agora que sou adulto, vêm uns senhores que não conheço de lado dizer que assim é que é.
No caso das senhoras, as consequências são ainda mais nefastas. Pensem num casal à antiga. Não vão de mão dada na rua. Ele dá o braço e ela segura precisamente na zona-alvo. Haverá cenário mais romântico do que sentir na palma da mão o muco de alguém que se ama? Por acaso, esta ideia não me fascina muito, mas isso é porque não pertenço a um casal à antiga. Só por isso.
Outra chamada de atenção que a DGS faz tem a ver com lavar as mãos com frequência. Se no caso desta DGS, esta recomendação tem que ver com questões de germes; no caso da antiga DGS, lavar as mãos era qualquer coisa como declarar-se “inserido no regime”. Ou qualquer coisa assim.
Peço desculpa por este pequeno desvio. Foi pouco ético da minha parte.

08/01/11

TERMINUS 202: CONTENÇÃO Q. B.

 Durão Barroso é da opinião que devemos ter alguma moderação sempre que falarmos da crise. Cavaco Silva considera essa uma opinião “muito sensata”, na medida em que “palavras de insulto” poderão levar ao aumento do desemprego. Hum... Não é por aí. É verdade que chamar nomes feios costuma ter consequências más, principalmente se for a um credor, mas não é por aí que o desemprego aumenta. Ou melhor, não é por não fazermos isso e por oscularmos os glúteos desses sujeitos que passamos a ter mais emprego. Quer dizer, em alguns casos até é.
Não obstante alguma irrelevância destas declarações, elas não são inteiramente desprovidas de sentido. Por um lado, tal como disse há pouco, porque é falta de educação, por outro porque, alerta o senhor Aníbal, “há pessoas em Portugal que parecem não saber que os nossos credores são as companhias de seguros, os fundos de pensões, os fundos soberanos, os bancos internacionais e os cidadãos espalhados por esse mundo”. Ena, tantos! Eu não fazia ideia que tínhamos tanta gente à perna.
Há umas semanas recebi uma notificação da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos. Devido a uma declaração não entregue, fui notificado para proceder à regularização da situação e ao pagamento de uma coima (caso não pudesse regularizar a situação) estimada em 125€. Este valor não era quanto eu devia, era quanto eles achavam que eu não declarei. Julgava que só tinha de me preocupar com estes senhores. Pelos vistos, não.
É graças a esta experiência pessoal que sou capaz de apreciar as palavras de Durão Barroso e de Cavaco Silva por aquilo que realmente são. Sem a minha experiência da notificação estas declarações soar-me-iam a demagogia, a hipocrisia política; neste caso, soam-me apenas a demagogia e a hipocrisia política. A diferença a ter em conta nestas duas situações tão díspares é o facto de eu não ser alheio às consequências que eles advertem. Já as vivi. Pode não parecer, mas conhecer na prática o que alguns só sabem em teoria, ajuda a manter uma certa perspectiva das coisas.
A adesão de Cavaco Silva à contenção verbal não é novidade para ninguém. Recorde-se que há bem pouco tempo, o mesmo Cavaco apelou aos líderes políticos que agissem mais e falassem menos. É um tipo de padrão expectável de um Presidente que antes tão pouco falava e agora tão pouco diz. Não diz, por exemplo, que além de não se dever ofender credores, não se deve, não se devia, ofender quem é obrigado a contribuir para saldar essas dívidas. A verdade é inequívoca. Os políticos podem insultar os credores, mas quem paga a factura somos nós. Não julguem, porém, que Cavaco Silva está preocupado connosco. Pelo contrário. A verdade e que, quer saibamos porquê, quer não, haverá sempre facturas para pagar. O ideal é não sabermos do quê ou para quem.

06/01/11

TERMINUS 201: AI DOS POBRES!



Antes de mais, dizer que não tenho nada contra os pobres. Nem contra as pessoas que começam frases com “dizer que”. Todavia, a proposta a ser lançada brevemente pela revista CAIS de tornar ilegal a pobreza, parece-me algo mal pensado. O propósito até pode ser nobre e digno de divulgação. O problema é que estamos em Portugal. Ainda que o Estado vá na cantiga de aceitar pagar coimas por não conseguir reduzir o número de pobres em Portugal, não é isso que vai resolver o problema da pobreza. Vai resolver o problema CÁ. Se o objectivo for reduzir o número de pobres em Portugal, basta enviá-los para o estrangeiro. Em pouco tempo passaríamos a ter zero pobres no nosso país.
Colocar-se-ia então a questão: onde é que os nossos políticos iriam fazer as suas demonstrações de solidariedade? Junto dos cidadãos de classe média baixa? Só se fosse.
Uma outra solução para reduzir o número de pobres no nosso país, sem que tenhamos de enviá-los para fora, é diminuir o comprimento da fenda que separa os ricos dos pobres. Para tal, não é preciso tirar dinheiro aos ricos para dar aos pobres, basta tornar oficial a noção de que quem tiver 1 euro por dia passa a pertencer a classe média baixa inferior. Já não é um cidadão pobre, é um cidadão com fluxo financeiro deficitário.
As consequências do incumprimento desta proposta de projecto de lei, caso seja aprovado, implicam as já referidas coimas. O Estado português vai ter de pagar multas sempre que não consiga reduzir o número de pobres de ano para ano. Resultado: se o número de pobres aumenta, ou mesmo que se mantenha, de ano para ano, reduz o número de contribuintes que sustentam o pagamento das coimas. Logo, o Estado começa, ele próprio, a entrar em dívida. A longo prazo ficará também o Estado na condição de pobre. E depois? Quem é que se vai chegar à frente depois?
Isto de combater a pobreza é muito bonito mas, tal como tudo na vida, há dois lados nesta questão. Geralmente, tendemos a ver o lado da miséria, o lado do desespero. Esse aspecto vale a pena combater. Gosto de ter um tecto sobre a minha cabeça, gosto de ter um lar e sei que muitas pessoas que estão neste momento a dormir na rua porque as circunstâncias da vida a isso levaram não se importariam de estar no meu lugar. Porém, convém não esquecer o outro lado da pobreza. Vestir uns trapos e ir para a porta da Igreja pedir qualquer um faz. Há os pobres pobres e há os pobres de moral. São diferentes.
Além disso, a erradicação da pobreza é um acto que traz mais malefícios do que benefícios. Assim como na natureza, todo o ser vivo tem um papel a cumprir, o mesmo se passa com os pobres na sociedade. A melhor definição de classes foi apresentada em 1996 pelo comediante George Carlin. É com ela que vos deixo.
As classes altas: ficam com o dinheiro todo, não pagam impostos. A classe média: paga os impostos, faz todo o trabalho. Os pobres estão lá... só para acagaçar o pessoal da classe média.”

05/01/11

TERMINUS 200: TEMPO DOS MAI PIQUENOS #1


Dois dias depois de vos ter agraciado com uma análise breve sobre o discurso de Ano Novo do senhor Presidente Cavaco, é altura de darmos conta das reacções de vários quadrantes do sector político. A reacção dos principais partidos políticos – PS, PSD, CDS-PP, PCP e Bloco de Esquerda – já foi escutada; todos eles tiveram oportunidade de apresentar as suas apreciações sobre os ditos do senhor Aníbal. Mas... e os partidos pequenos? O que têm o PND, o POUS, o PPM, o MPT, ou o PNR a dizer sobre os avisos de Cavaco Silva? Chegou a altura de saber tudo isso e muito mais numa nova rubrica chamada “Piquenos Analistas”.

PNR – Partido Nacional Restaurador
Antes de mais, dizer que acho uma vergonha, para não dizer palhaçada, que não me deixem ser candidato à Presidência da República só porque ficámos a umas mil e seiscentas assinaturas das que eram precisas. Em relação ao discurso do Presidente da República, é mais uma prova de que este país carece de um rumo, rumo esse que só pode ser estipulado por um partido que defenda os valores de uma sociedade justa e igualitária para todos os portugueses. Uma vez que não somos esse partido, não temos muito mais a dizer sobre o assunto. Ah! Dizer também que não somos contra os estrangeiros. Principalmente aqueles que não vêm para cá.”
José Lebre Salpico

MPT – Movimento Partido de Todos
O senhor Presidente da República diz-se Presidente de todos os portugueses, mas não esconde a sua simpatia pelos quadrantes políticos mais à direita. Assim não pode ser. Já não bastava cada candidato presidencial ser apoiado pelo seu partido ou por vários ou por nenhum?
Acreditamos que todas as pessoas têm direito ao seu partido, mas que nem todos os partidos têm direito às suas pessoas. A pluralidade de partidos é sintoma de uma sociedade fragmentada. Somos pela unidade, pela coesão e pelo empenho num caminho certo e definido."
Pedro Chalaça Quintin

PH – Partido Hidrogeniónico
A que epiderme aspiramos? Sentimos a secura e a acidez de uma sociedade pouco dedicada à resolução dos problemas que todos os dias afligem as peles delicadas. Somos pela hidratação, pela frescura e pela suavidade de uma epiderme saudável. Buscamos combater esses grandes males cutâneos que são a psoríase e a hidrosadenite supurativa. Acreditamos numa sociedade em que as pessoas não mais sejam distinguidas pela sua pigmentação, e sim pelo seu ph.
Lamentamos com grande pesar que, apesar da gravidade deste problema, o senhor Presidente da República tenha dedicado o seu discurso a falar dos desempregados e dos pobres e não tenha feito uma nota, ainda que breve, ao aumento do IVA nos cremes hidratantes. Enfim, prioridades.”
LF de la Paz

Por agora é tudo. Para a próxima à mais. E sim, a frase anterior tem um erro. Mas não vou dizer qual é.

03/01/11

TERMINUS 199: ANO NOVO, DISCURSO DE SEMPRE

Olá, meus queridos e minhas queridas. Quero começar bem este ano de 2011 e quero fazê-lo da melhor forma. Como? Através do discurso de Ano Novo do senhor ainda Presidente da República. (E muito provavelmente o próximo, mas isso é outro assunto.) Desculpem? Não estão interessados? Eu sei que é um assunto um pouco maçudo, mas não pode ser sempre pândega; há que haver alguma seriedade de vez em quando. Mais que não seja para fazer contraste. Eu prometo que vou ser meigo. Ora, vamos lá.
No ano que agora terminou, Portugal foi confrontado com uma realidade que há muito se desenhava no horizonte.
Começa logo ao ataque o Aníbal. Andava tudo com a cabeça no ar e de repente... tau! Eu não me importo de ser confrontado com uma realidade que tenha sido desenhada há pouco. Ser confrontado com uma realidade desenhada há muito, parece-me distracção a mais. Ninguém escutou os avisos, foi o que foi. “Olha a realidade! Eh pá! Olha a realidade que se desenha no horizonte! Vês? Levastes com a realidade no focinho que é por causa das tosses!”
Não iludir a realidade é um sinal positivo e uma atitude responsável, pois representa o primeiro passo para mudar de rumo e corrigir a trajectória.
Não iludir a realidade em que sentido? Não me parece que não escamotear os problemas que existem seja quanto baste para começar a resolvê-los. Transportando isto para o mundo do futebol, pensemos no pior guarda-redes do mundo. Sempre que joga, é frango atrás de frango. No último jogo, entra para substituir o colega titular e tem de defender um pénalti. No mundo do futebol é possível este guarda-redes defender este pénalti. No mundo da política, pelo contrário, não se pode esperar que a solução de muitos dos problemas que nos afectam, venha de alguém que teve total ou parcial responsabilidade no surgimento dos mesmos.
O regime republicano encontra-se plenamente consolidado ao fim de 100 anos de existência. Por outro lado, é em democracia que todos aspiramos viver e ninguém deseja o regresso aos tempos da ditadura.
Agora vou dar algo que fazer aos historiadores que me possam estar a ler. A Primeira República teve início em 1910 e foi interrompida em 1926, com o Golpe Militar de 28 de Maio; ao todo são dezasseis anos. Seguem-se os quarenta e oito anos da Ditadura Militar e do Estado Novo. Depois, a partir de 1974 até ao ano passado, são trinta e seis anos. A conta é 16+48+36. E dá 100. Mas só dá 100 porque estamos a contar os anos da chamada ditadura. O que não faz muito sentido porque, se foi uma ditadura, se foi um regime diferente de um republicanismo democrático, porque é que...? Não sei se estão a ver onde é que eu quero chegar? Mais valia, se é para contabilizar regimes que não têm nada a ver, iniciar a contagem dos anos da República a partir de 1891. É verdade que nessa altura ainda estávamos em tempo de Monarquia, mas quem inclui anos de Ditadura em anos de Democracia, pode muito bem incluir anos de Monarquia. Fica à atenção dos nossos historiadores.
Por hoje chega. Acreditem que ainda havia muito para esmifrar neste discurso do senhor Aníbal, mas o espaço não dá para mais. Deixo-vos com esta última frase e um xi-coração bem grande para todos aqueles que lavaram a cara antes de sair do Renault onde agora residem.

01/01/11

TERMINUS 198: UMA DROGA DE ARTIGO

Então? Como foi essa passagem de ano? Agora que começam a acordar e a tomar noção do que fizeram na noite passada, nada melhor do que um artigo leve para vos deixar bem-dispostos. Vou só aguardar que lavem a cara. Estão todos prontos? Aquela senhora também? Peço desculpa, não era uma senhora. Era o José Castelo Branco. E cá está. A piada sobre o José Castelo Branco.

Vamos lá então ao nosso artigo. O Instituto da Droga e da Toxicodependência anda preocupado com uma droga que anda a fazer estragos por esta Europa fora. Essa droga já matou dois jovens no Reino Unido e é ilegal em Portugal e em outros 13 países da União Europeia. Se tivermos em conta que a União Europeia é composta por 27 Estados Membros, basta convencer um deles a mudar de ideias. Dica: Portugal tem bons índices de corrupção. Porque não começar por aí?
A droga em questão tem o nome científico de mefedrona. E vamos ficar pelo nome científico, porque se queremos ter um artigo sério, ainda que divertido, sobre este tema, não podemos dizer que o nome de rua desta droga tão nefasta é miau-miau.
Ora bolas! Pronto, 'tá dito, 'tá dito. Mais vale aproveitar e gozar. Vamos então aos trocadilhos na forma de comentários ditos por pessoas inventadas por mim.

Miau miau? Parece uma droga um pouco abichanada.”
Kiko, cronista social de Arronches

Prefiro ão-ão.”
Bóbi, terrier de Ourique

Estes cartões do Metro são uma merda pra fazer filtros. É só químicos esta porcaria.”
Jimmy, junkie de Olivais Sul

Paremos um pouco com a brincadeira, porque este é um assunto sério, e passemos à parte delicada da questão. Eu acho muito mal que Portugal seja um dos países a considerar esta droga uma substância legal. Penso que, tal como já se faz em outros países, nós também devíamos punir, não só quem vende, mas também quem consome esta droga. Sorte tiveram os dois bandalhos que morreram no Reino Unido. Se fosse cá, ainda tinham de pagar uma multa.
O grande problema do miau-miau não tem que ver com o seu tráfico, o seu consumo ou as suas consequências para a saúde. Se fosse só por isso, por mim haveriam lojas com vitrinas cheias de miau-miau para quem quisesse ir lá comprar. O problema está precisamente no nome. Inventem-se as razões que quiserem, a verdade é que esta droga só é legal em Portugal porque... cá vai: Portugal tem neste momento um Governo PS que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como tal, não será este Governo a ilegalizar uma droga com nome bicha. É tudo política, meus caros.
É verdade que há registo de 37 mortos relacionados com esta droga. Mas nem todos morreram por causa do consumo. Os dados não apontam quais as verdadeiras causas, mas suponho que alguém possa ter morrido por levar com uma palete de miau-miau na mona. Já o meu pai me dizia quando era miúdo (eu miúdo, não o meu pai): pesa tanto um quilo de miau-miau, como um quilo de ecstacy, a diferença está mais no nome.
Portanto, se nunca consumiram esta droga, continuem assim. Entretenham-se com outras drogas que achem interessantes. Caso contrário, parem o que estão a fazer e vão já imediatamente deitar fora todo o vosso stock de miau-miau pela sanita abaixo. Eh! Esperem lá! Onde é que vão todos? Calma! O artigo ainda não acabou! Ainda não... Ainda faltava a piada sobre o...
Feliz 2011.