03/01/11

TERMINUS 199: ANO NOVO, DISCURSO DE SEMPRE

Olá, meus queridos e minhas queridas. Quero começar bem este ano de 2011 e quero fazê-lo da melhor forma. Como? Através do discurso de Ano Novo do senhor ainda Presidente da República. (E muito provavelmente o próximo, mas isso é outro assunto.) Desculpem? Não estão interessados? Eu sei que é um assunto um pouco maçudo, mas não pode ser sempre pândega; há que haver alguma seriedade de vez em quando. Mais que não seja para fazer contraste. Eu prometo que vou ser meigo. Ora, vamos lá.
No ano que agora terminou, Portugal foi confrontado com uma realidade que há muito se desenhava no horizonte.
Começa logo ao ataque o Aníbal. Andava tudo com a cabeça no ar e de repente... tau! Eu não me importo de ser confrontado com uma realidade que tenha sido desenhada há pouco. Ser confrontado com uma realidade desenhada há muito, parece-me distracção a mais. Ninguém escutou os avisos, foi o que foi. “Olha a realidade! Eh pá! Olha a realidade que se desenha no horizonte! Vês? Levastes com a realidade no focinho que é por causa das tosses!”
Não iludir a realidade é um sinal positivo e uma atitude responsável, pois representa o primeiro passo para mudar de rumo e corrigir a trajectória.
Não iludir a realidade em que sentido? Não me parece que não escamotear os problemas que existem seja quanto baste para começar a resolvê-los. Transportando isto para o mundo do futebol, pensemos no pior guarda-redes do mundo. Sempre que joga, é frango atrás de frango. No último jogo, entra para substituir o colega titular e tem de defender um pénalti. No mundo do futebol é possível este guarda-redes defender este pénalti. No mundo da política, pelo contrário, não se pode esperar que a solução de muitos dos problemas que nos afectam, venha de alguém que teve total ou parcial responsabilidade no surgimento dos mesmos.
O regime republicano encontra-se plenamente consolidado ao fim de 100 anos de existência. Por outro lado, é em democracia que todos aspiramos viver e ninguém deseja o regresso aos tempos da ditadura.
Agora vou dar algo que fazer aos historiadores que me possam estar a ler. A Primeira República teve início em 1910 e foi interrompida em 1926, com o Golpe Militar de 28 de Maio; ao todo são dezasseis anos. Seguem-se os quarenta e oito anos da Ditadura Militar e do Estado Novo. Depois, a partir de 1974 até ao ano passado, são trinta e seis anos. A conta é 16+48+36. E dá 100. Mas só dá 100 porque estamos a contar os anos da chamada ditadura. O que não faz muito sentido porque, se foi uma ditadura, se foi um regime diferente de um republicanismo democrático, porque é que...? Não sei se estão a ver onde é que eu quero chegar? Mais valia, se é para contabilizar regimes que não têm nada a ver, iniciar a contagem dos anos da República a partir de 1891. É verdade que nessa altura ainda estávamos em tempo de Monarquia, mas quem inclui anos de Ditadura em anos de Democracia, pode muito bem incluir anos de Monarquia. Fica à atenção dos nossos historiadores.
Por hoje chega. Acreditem que ainda havia muito para esmifrar neste discurso do senhor Aníbal, mas o espaço não dá para mais. Deixo-vos com esta última frase e um xi-coração bem grande para todos aqueles que lavaram a cara antes de sair do Renault onde agora residem.

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