06/01/11

TERMINUS 201: AI DOS POBRES!



Antes de mais, dizer que não tenho nada contra os pobres. Nem contra as pessoas que começam frases com “dizer que”. Todavia, a proposta a ser lançada brevemente pela revista CAIS de tornar ilegal a pobreza, parece-me algo mal pensado. O propósito até pode ser nobre e digno de divulgação. O problema é que estamos em Portugal. Ainda que o Estado vá na cantiga de aceitar pagar coimas por não conseguir reduzir o número de pobres em Portugal, não é isso que vai resolver o problema da pobreza. Vai resolver o problema CÁ. Se o objectivo for reduzir o número de pobres em Portugal, basta enviá-los para o estrangeiro. Em pouco tempo passaríamos a ter zero pobres no nosso país.
Colocar-se-ia então a questão: onde é que os nossos políticos iriam fazer as suas demonstrações de solidariedade? Junto dos cidadãos de classe média baixa? Só se fosse.
Uma outra solução para reduzir o número de pobres no nosso país, sem que tenhamos de enviá-los para fora, é diminuir o comprimento da fenda que separa os ricos dos pobres. Para tal, não é preciso tirar dinheiro aos ricos para dar aos pobres, basta tornar oficial a noção de que quem tiver 1 euro por dia passa a pertencer a classe média baixa inferior. Já não é um cidadão pobre, é um cidadão com fluxo financeiro deficitário.
As consequências do incumprimento desta proposta de projecto de lei, caso seja aprovado, implicam as já referidas coimas. O Estado português vai ter de pagar multas sempre que não consiga reduzir o número de pobres de ano para ano. Resultado: se o número de pobres aumenta, ou mesmo que se mantenha, de ano para ano, reduz o número de contribuintes que sustentam o pagamento das coimas. Logo, o Estado começa, ele próprio, a entrar em dívida. A longo prazo ficará também o Estado na condição de pobre. E depois? Quem é que se vai chegar à frente depois?
Isto de combater a pobreza é muito bonito mas, tal como tudo na vida, há dois lados nesta questão. Geralmente, tendemos a ver o lado da miséria, o lado do desespero. Esse aspecto vale a pena combater. Gosto de ter um tecto sobre a minha cabeça, gosto de ter um lar e sei que muitas pessoas que estão neste momento a dormir na rua porque as circunstâncias da vida a isso levaram não se importariam de estar no meu lugar. Porém, convém não esquecer o outro lado da pobreza. Vestir uns trapos e ir para a porta da Igreja pedir qualquer um faz. Há os pobres pobres e há os pobres de moral. São diferentes.
Além disso, a erradicação da pobreza é um acto que traz mais malefícios do que benefícios. Assim como na natureza, todo o ser vivo tem um papel a cumprir, o mesmo se passa com os pobres na sociedade. A melhor definição de classes foi apresentada em 1996 pelo comediante George Carlin. É com ela que vos deixo.
As classes altas: ficam com o dinheiro todo, não pagam impostos. A classe média: paga os impostos, faz todo o trabalho. Os pobres estão lá... só para acagaçar o pessoal da classe média.”

Sem comentários: