08/01/11

TERMINUS 202: CONTENÇÃO Q. B.

 Durão Barroso é da opinião que devemos ter alguma moderação sempre que falarmos da crise. Cavaco Silva considera essa uma opinião “muito sensata”, na medida em que “palavras de insulto” poderão levar ao aumento do desemprego. Hum... Não é por aí. É verdade que chamar nomes feios costuma ter consequências más, principalmente se for a um credor, mas não é por aí que o desemprego aumenta. Ou melhor, não é por não fazermos isso e por oscularmos os glúteos desses sujeitos que passamos a ter mais emprego. Quer dizer, em alguns casos até é.
Não obstante alguma irrelevância destas declarações, elas não são inteiramente desprovidas de sentido. Por um lado, tal como disse há pouco, porque é falta de educação, por outro porque, alerta o senhor Aníbal, “há pessoas em Portugal que parecem não saber que os nossos credores são as companhias de seguros, os fundos de pensões, os fundos soberanos, os bancos internacionais e os cidadãos espalhados por esse mundo”. Ena, tantos! Eu não fazia ideia que tínhamos tanta gente à perna.
Há umas semanas recebi uma notificação da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos. Devido a uma declaração não entregue, fui notificado para proceder à regularização da situação e ao pagamento de uma coima (caso não pudesse regularizar a situação) estimada em 125€. Este valor não era quanto eu devia, era quanto eles achavam que eu não declarei. Julgava que só tinha de me preocupar com estes senhores. Pelos vistos, não.
É graças a esta experiência pessoal que sou capaz de apreciar as palavras de Durão Barroso e de Cavaco Silva por aquilo que realmente são. Sem a minha experiência da notificação estas declarações soar-me-iam a demagogia, a hipocrisia política; neste caso, soam-me apenas a demagogia e a hipocrisia política. A diferença a ter em conta nestas duas situações tão díspares é o facto de eu não ser alheio às consequências que eles advertem. Já as vivi. Pode não parecer, mas conhecer na prática o que alguns só sabem em teoria, ajuda a manter uma certa perspectiva das coisas.
A adesão de Cavaco Silva à contenção verbal não é novidade para ninguém. Recorde-se que há bem pouco tempo, o mesmo Cavaco apelou aos líderes políticos que agissem mais e falassem menos. É um tipo de padrão expectável de um Presidente que antes tão pouco falava e agora tão pouco diz. Não diz, por exemplo, que além de não se dever ofender credores, não se deve, não se devia, ofender quem é obrigado a contribuir para saldar essas dívidas. A verdade é inequívoca. Os políticos podem insultar os credores, mas quem paga a factura somos nós. Não julguem, porém, que Cavaco Silva está preocupado connosco. Pelo contrário. A verdade e que, quer saibamos porquê, quer não, haverá sempre facturas para pagar. O ideal é não sabermos do quê ou para quem.

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