16/01/11

TERMINUS 206: MENOS ESTUDOS, MAIS EMPREGO

Um país é como um restaurante que coloca um catrapázio com a ementa no meio do passeio: ambos tentam destacar algo que os distinga da concorrência. No caso dos restaurantes temos o mítico e digno “Á pipis”, no caso dos países funciona de maneira diferente, mas não muito diferente.
Um bom exemplo português, divulgado no primeiro boletim trimestral do Observatório Europeu de Vagas Profissionais, é o facto de sermos o país da Europa que oferece mais trabalho a quem tem menos estudos. De acordo com os números divulgados, 59% das pessoas que conseguiram trabalho neste último trimestre de 2010 tinham uma escolaridade muito baixa.
Para quem dizia que este Governo não tinha uma política de Educação bem definida, faziam melhor em terem ficado calados para não passar vergonha. Portugal, não só tem uma boa política de Educação, como garante emprego para quem, apesar das facilidades, não se conseguir safar.
E não é preciso pensarmos muito para encontrarmos bons exemplos de facilidades. O mais recente é a transição do 8º para o 10º ano mediante a realização de um exame. Palpita-me que não tardará a aparecer o exame para se passar do 7º para a Licenciatura. Quem não conseguir fazer este exame, pode depois ir trabalhar para o campo ou para uma tasca ou para uma repartição de Finanças. Em suma, trabalhos que carecem de trabalhadores pouco qualificados. Ou, pelo menos, assim parece.
Nesta altura vejo-me quase que obrigado a lançar uma questão. Porquê? (Não é esta a questão, embora também seja uma questão.) Porque é que eu me vejo obrigado a lançar esta questão? (Também não é esta questão; contudo é uma questão a ser respondida.) Resposta: porque estou a escrever com um espelho à minha frente. Não é narcisismo. É mobília. Sobre a relevância da questão, que é o que interessa, a questão a ser lançada é a seguinte: esquecendo tudo o que eu escrevi nos parágrafos anteriores, todas as ironias, paródias, etc., este estatuto é bom ou mau para Portugal?
A grande vantagem que os números nos oferecem é a possibilidade do reverso. Se considerarmos os 59% divulgados pelo relatório, é muito mau percebermos que da totalidade de pessoas que trabalha, mais de metade tem baixa escolaridade. Porém, se considerarmos os restantes 41%, podemos convencer-nos (ainda que não seja verdade) que apenas 41% do nosso pessoal qualificado não consegue arranjar trabalho. Se consultarmos os números da Itália e os da Grécia, respectivamente 43% e 37%, e os compararmos com os seus reversos, percebemos que 57% dos trabalhadores italianos qualificados e 63% dos trabalhadores gregos qualificados não consegue arranjar trabalho.
Em suma, a resposta à questão de isto ser bom ou mau para Portugal está dependente da opinião de cada um. Os números dizem sempre aquilo que nós queremos que eles digam. Mesmo que seja um disparate autêntico. É tudo uma questão de interpretação.

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