21/01/11

TERMINUS 207: MORRER EM NOVA IORQUE

O artigo que se segue tem como tema principal o recém-falecido cronista Carlos Castro. Antes de mais, tenho que falar do elefante no quarto. Podem ser de mau gosto todas as piadas que de imediato começaram a proliferar pela Internet, jornais e etc., sobre os nomes dos envolvidos nesta situação, mas percebam duma vez por todas: os nomes em causa e a situação em si geraram essa possibilidade. Se os envolvidos se chamassem Zé Manel e João Silva, não teríamos tantas piadas como temos com Castro e Seabra. Não tem a ver apenas com as pessoas, tem a ver principalmente com os nomes.
Referido que está o elefante, vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, não vou adiantar teorias sobre o que terá acontecido naquele quarto de hotel. Não nutro especial interesse por qualquer um dos envolvidos. Não me interessa de quem foi a culpa, preocupa-me é a falta de respeito. Nomeadamente, com a indústria hoteleira portuguesa.
De há uns meses para cá, tenho percorrido o país de norte a sul e passado por muitos bons hotéis. É verdade que Lisboa não tem o charme de Nova Iorque. Aliás, para sermos rigorosos, não podemos comparar Lisboa a Nova Iorque; quanto muito Lisboa a Washington, por serem capitais. Nova Iorque podemos comparar a... talvez ao Porto ou Coimbra ou mesmo Albufeira. Tenho passado por muito bom hotel cá, dizia eu, e fiquei desiludido que Carlos Castro tenha decidido ir morrer para Nova Iorque.
O ex-cronista tem andado na boca de tudo quanto é jornalista e a sua morte está a receber mais destaque do que a morte de outras figuras de maior relevo falecidas em data aproximada. É verdade que a violência do crime justifica um certo sensacionalismo em torno do caso. É uma morte mediática sem dúvida. Mas é uma morte efémera.
Sou leitor ocasional do Correio da Manhã e sou capaz de folhear uma TV Mais ou uma TV7 Dias se estiver num café e não houver mais nada para ler. E em todos estes periódicos onde, com mais ou menos regularidade, costumava encontrar “textos” do senhor Carlos Castro, não me consigo lembrar de nada relevante que ele tenha escrito. Estou certo de que terá escrito algo importante, mas não tenho certezas absolutas quanto a isso. Assim como as entrevistas vazias que fazia a pessoas sem importância não conferiram a essas pessoas mais relevância do que aquela que não tinham, aquelas com obra feita que aceitaram ser entrevistadas por ele, não será isso que as fará perdurar na memória colectiva, será tudo o resto.
Três dias antes do assassinato do cronista, faleceu o artista moçambicano Malangatana. Perto da Escola Secundária onde estudei, existe um parque com uma obra desse escultor. Daqui por muitos anos, quem passar por esse parque, continuará a ver essa escultura. Quanto às opiniões e críticas de Carlos Castro, desaparecerão como o seu autor; embora não de uma forma que dê para encher tanto chouriço.

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