23/01/11

TERMINUS 208: PARTILHE-SE

Aqui há dias responsáveis da ACAPOR entregaram na Procuradoria-Geral da República mil denúncias de IPs que partilhavam ficheiros ilegais. Como ainda não se ouviu nada de fontes oficiais sobre isto, achei que era meu dever intervir.
Antes de mais, assuma-se de vez: toda a gente faz downloads ilegais. Não há ninguém que não faça. Há quem abuse, há quem tenha o computador ligado 24/7 sempre a sacar; há quem saque um filme de vez em quando, mas a verdade é que toda a gente saca. Incluindo os senhores da ACAPOR.
Meus meninos, não venham cá com histórias porque vocês não são mais nem menos que nós. Protestar publicamente contra algo que fazem em privado é apenas hipocrisia da vossa parte.
A reivindicação principal são os direitos dos artistas. Com os downloads ilegais, os artistas recebem menos. Não. Os artistas sempre receberam menos. Comparado ao que recebem as editoras, as produtoras e todas as partes envolvidas que não os artistas, são estes os que menos recebem. Era assim antes da Internet, continua a ser assim hoje em dia. Não por culpa da Internet, sublinhe-se, mas por culpa duma indústria que não soube, não quer, acompanhar o evoluir dos tempos.
Dizem-se preocupados com os artistas. Eles estão-se nas tintas para os artistas. Os produtores estão-se nas tintas para os artistas. A não ser enquanto gerem lucro. Uma obra, boa ou má, é produzida por dois motivos: porque gera lucro ou porque é subsidiada por fundos públicos.
Alguns artistas viram as suas vendas aumentar justamente com o boom da partilha online. Ao podermos obter de forma gratuita (ainda que ilegal) uma música, um filme, uma série, etc., aumenta a probabilidade de obtermos o produto original. Comigo acontece isso. Compro o que vejo e gosto. Não tanto quanto gostaria porque os preços não o permitem.
Muitas bandas disponibilizam os seus álbuns gratuitamente nos seus sites pessoais e sobrevivem à conta de publicidade. Para os fãs, a música é gratuita; para a banda, as receitas de publicidade cobrem todas as despesas e geram lucro. Quem sai a perder é quem vive à custa do trabalhos dos outros.
Estes downloads ilegais não estão a suscitar queixas da parte de quem cria ou de quem produz, e sim de quem vende. O que não se percebe. Se a propriedade dos produtos partilhados não pertence à ACAPOR, por que raio têm de meter o bedelho onde não são chamados? Eu não vou apresentar queixa de carro roubado se o carro não for meu.

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