29/01/11

TERMINUS 211: ACESSO AO ÁLCOOL

Antes de começar, uma vez que se trata de um tema delicado, tenho de fazer um aviso. O óbvio é relativo. Esta foi a primeira ideia que eu quero que fixem deste meu artigo. A segunda é: não se deve fazer de quem não percebe o óbvio. Perceberam? Não se goza. Agora sim, podemos começar.
O senhor António Nunes... Não, não é aquele do Euromilhões, é o da ASAE. Pois, também eu preferia estar num grupo de folclore transmontano, mas enfim. O senhor António Nunes, não me interrompam agora, percebeu finalmente que as caixas de pagamento self-service foram uma óptima invenção para todo o menor de idade que quer comprar álcool. Não gozem, não gozem que não é por vocês terem percebido isso à primeira que o senhor António merece ser achincalhado. (Achincalhado. Há mais algum sítio onde vocês leiam “achincalhado e self-service? Há? Então vão pra lá! Mal agradecidos!)
Para o senhor que ficou, um grande bem haja.
Quando eu era pequeno, ia à taberna ao lado da minha casa buscar vinho e cerveja. Ia a pedido da minha mãe e não levava mais do que aquilo que me pediam. Acreditava religiosamente que se ousasse pedir algo com teor alcoólico para meu consumo pessoal, usando a desculpa do recado para a mãe, não só o senhor Dias não me venderia o produto como me levaria pelas orelhas até junto da minha mãe para apresentar queixa. Ou, o mais certo, venderia tudo aquilo que eu lhe pedisse, desde que pagasse, porque o negócio dele era vender vinho e não combater o alcoolismo.
Esta minha crença em capacidades sobre-humanas do taberneiro da minha rua durou até 1989, ano em que visitei Évora pela primeira vez. Foi aí que visitei a minha primeira igreja, onde rezei pela primeira vez. Apesar de desconhecer a maneira correcta de formular um pedido, fiz o melhor que pude e pedi a Deus que me dessem pelo Natal um conjunto da LEGO, não me lembro agora qual. Ao não receber nenhum conjunto da LEGO esse Natal, esvaeceu-se a minha crença no Senhor invisível e nas capacidades extra-humanas do senhor Dias.
Desculpe o desvio, senhor Henrique.
Era assim que as coisas funcionavam no meu tempo. Hoje em dia, como bem sabe é tudo tecnológico. E há mais por onde escolher. Na taberna da minha rua havia branco e tinto. Eram estas as marcas. Branco e tinto. Não havia cá Casais Garcias, Lambruscos, Renguengos, Terras de Xisto. A nossa escolha era simples. Porque eram simples os tempos.
Pessoalmente, agrada-me mais a ideia de um menor a comprar vinho numa tasca do que numa grande superfície, através duma caixa de self-service. Não porque o álcool lhe faça bem, mas porque perde menos tempo a escolher o vinho certo e a pagar por ele. Na tasca a escolha é mais simples, mais rápida, e depressa o jovem sai para a rua. Onde um condutor alcoolizado lhe espeta com um Fiat em cima. Condutor esse que comprou o seu vinho numa grande superfície.
É bem feito para o menor que disse à mãe que ia comprar gomas.

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