31/01/11

TERMINUS 212: VINICULTURA GERAL

Os franceses são um povo à parte. Não tanto no sentido em que fazem coisas que mais ninguém no mundo faz, mas no sentido em que fazem tudo aquilo que os outros fazem, mas conseguem quase sempre dar-lhe um toque pessoal. Comparando Portugal e França, enquanto nós andamos preocupados com a crise financeira e com bancos, na França está-se a trabalhar na produção de vinho com menos teor alcoólico. Para combater o alcoolismo? Por favor, não se embaracem com tanta ingenuidade.
Desconheço sinceramente qual a actual situação financeira da França. Suponho que seja francamente melhor do que a nossa, afinal de contas é um país, mas não conheço os pormenores todos. O que sei, a acreditar no que dizem estes investigadores, é que, durante os últimos trinta anos, as alterações climáticas têm elevado a concentração de açúcar na uva; o que, por sua vez, leva ao aumento do teor de álcool.
Há desculpas para tudo. Julgava eu que o problema do excesso de álcool era porque algumas bestas não sabiam beber. Achava eu que essas aventesmas bebiam demasiado. Afinal, não. Afinal essas aves raras bebem o mesmo, ou talvez menos. A culpa é do clima.
Temos, portanto, duas situações distintas. Em primeiro lugar, qual a razão que levou os franceses a fazerem este estudo? Obviamente para vender mais vinho. Se o preço da garrafa se mantiver, mas o teor alcoólico diminuir, em vez de uma, as pessoas passam a comprar duas ou três. Em nenhum país do mundo isto resolveria uma crise financeira, contudo, ajudaria os seus habitantes a esquecerem-se de muitos problemas.
Por cá, lamento dizê-lo, a ideia não resultaria. Nós recusaríamos com veemência o vinho light. Para algumas pessoas, ainda seria uma hipótese a considerar; para a generalidade da população portuguesa seria algo a vilipendiar. E porquê? Porque nós somos um país de tascas, de tabernas, não de tavernas. Somos um país de estabelecimentos que, mesmo em plena época DA (Depois da ASAE), continuam a funcionar, apesar das condições de higiene serem as mesmas do que há cinquenta anos. E porquê? Porque somos assim. Não há vergonha em admiti-lo.
Enquanto uns comem caracóis de faca e garfo e fazem vinho light, nós comemos tripas, dobrada, chispe, língua, fígado, coração e bebemos vinho carrascão, do mais ácido e acre que há.
Publico este artigo, ciente do risco em que estou a colocar o planeta. Pois se em França eles trabalham para reduzir o teor alcoólico das uvas provocado pelas alterações climáticas, nós faríamos uma razia a todas as superfícies comerciais em busca de aerossóis, acreditando que, se esguicharmos spray em quantidade suficiente, um vinho de 13,5º passaria para uns simpáticos 19,8º. Seria algo que, mais uma vez, não resolveria a nossa crise financeira, mas deixar-nos-ia mais bem dispostos e mais bem cheirosos.

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