17/02/11

APRECIAÇÃO LITERÁRIA: A Conspiração dos Antepassados

Título: A CONSPIRAÇÃO DOS ANTEPASSADOS
Autor: DAVID SOARES
Editora: SAÍDA DE EMERGÊNCIA

Costuma acontecer a história que lemos num livro ser complementada com circunstâncias e coincidências da vida de quem o lê. Desconheço se isto acontece com todos os leitores em todos os livros – a mim nem por isso – mas é um facto que a minha leitura d'A Conspiração dos Antepassados, de David Soares, teria sido outra caso tivesse lido o livro assim que o comprei, há já alguns anos. Tal como outros adquiridos então, e antes ainda, decorreu demasiado tempo até eu me decidir pegar nele. Não por falta de interesse na história, muito menos por falta de interesse no autor; culpemos a falta de tempo, o excesso de escolha, o que seja.
De qualquer modo, tal como dizia há pouco, A Conspiração dos Antepassados, mais do que um simples livro de ficção ganhou toda um significado especial que colidiu com aquilo que é, neste momento, a minha vida profissional. Na altura em que li este livro e em que escrevo estas palavras, encontro-me a trabalhar na Exposição Itinerante “Viva a República! …em digressão”, uma das várias iniciativas promovidas pela Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Não fosse o contacto permanente com personagens, eventos e locais marcantes da I República, frutos duma necessidade constante de obtenção de informação e melhoria do discurso, e a minha leitura desta história de David Soares teria tido um impacto bastante diferente. Ajudou também eu conhecer e gostar, com maior ou menor detalhe em determinados aspectos, tanto de Lisboa, como de Fernando Pessoa; a cidade, porque adoro fazer longas caminhadas pelas suas ruas; o poeta, porque tive a sorte de ter uma professora de Português que me fez pegar nos autores ditos de obrigação de livre vontade.
Fora estes aspectos externos, a história d'A Conspiração dos Antepassados vale por si. E vale muito. Tal como em outras histórias que lera de David Soares – os livros de contos Mostra-me a Tua Espinha e Os Ossos do Arco-Íris – nota-se o cuidado quase omnisciente com a construção dos personagens e, mais importante, com a escolha das palavras. Recordo-me duma entrevista dada por David Soares num programa da TVI 24 em que o autor referiu esse cuidado que tinha sempre que escrevia uma história. Entre os vários momentos d'A Conspiração dos Antepassados dignas de referência, saliento um, no ponto 3 do Capítulo 1, em que Fernando Pessoa, após ler uma carta enviada pelo padrasto, entra num estado de quase transe e é tomado pela personalidade de Álvaro de Campos. A cena é escrita com um detalhe quase cinematográfico e exemplifica bem a atenção que o autor concede aos seus personagens.
George Carlin, o conhecido comediante americano, falecido em Julho de 2008, costumava dizer que as palavras por si só são inofensivas, o que vale é a intenção de quem as usa. Quem tiver a sorte de conhecer o trabalho deste senhor, concordará comigo quando digo que ele usava as palavras com uma intenção quase matemática. Sabia que palavra utilizar para surtir determinado efeito. O mesmo se verifica na escrita de David Soares. As palavras são utilizadas duma forma crua, por vezes, violenta, mas sempre lógica. Há passagens n' A Conspiração dos Antepassados, como a iniciação do Barão de Teive, que despertam algum incómodo, mas em momento algum esse momento e a sua descrição são redundantes; tudo o que lá está deriva de informações dadas previamente ou servirá para complementar outras que virão.
Uma última referência às notas publicadas no fim do livro: excelentes para quem quiser tomar contacto com os elementos que serviram de inspiração ao autor d'A Conspiração dos Antepassados.

10/02/11

TERMINUS 217: O NOME DE DEUS - Segunda Parte

Olá de novo. Bem vindos à segunda parte. Ainda se lembram do que falámos no artigo anterior ou é preciso fazer um “No último episódio...? Não? Óptimo, porque eu já não me lembro o que escrevi. Ah! É mentira! Já estavam a acreditar!
Antes de começar, só um... Eu não tenho nada contra os católicos, mas eles pertencem à maior religião do mundo e isso faz deles um alvo. Não se goza com o pessoal da Igreja Adventista dos Últimos Sete Dias porque eles são pequenos e é feio; com os grandes já se pode.
A minha segunda teoria para o facto dos católicos terem mantido o seu deus sem nome durante tanto tempo é... a preguiça.
Estamos algures em Jerusalém, o ano não sei. Deitado na cama está um fulano a dormir. Um criativo publicitário.
Acorda. Tens de pensar num nome para o nosso deus.”
Agora não, mãe.”
Olha que depois esqueces-te.”
Não esqueço.”
Depois chegou à hora e nada.
Chega à reunião.
Tiveste dois meses para pensar num nome como deve ser para o nosso deus. Espero que satisfaças as nossas expectativas.”
Bom, eu...”
O que foi? Pensaste num nome, não pensaste?”
Pensei, pensei. Só que isso das expectativas... Ninguém me falou disso.”
Vá. Que nome pensaste para o nosso deus?”
Humm... Exacto.”
Isaaco? Que raio de nome é esse?”
Não, não. Exacto.”
Exacto? Continuo sem entender.”
Não, não. O nome que pensei foi... Deus.”
Deus? Dois meses de trabalho para isso?”
É Deus com D grande, calma! E sempre que falarmos dele, o pronome vem em maiúsculas também.”
E se alguém quiser saber mesmo um nome? Os tipos lá no registo são capazes de não aceitar isso assim.”
Dizemos que o nome verdadeiro de Deus é proibido de dizer que eles calam-se logo.”
Assim gosto! Parabéns!”
Há também quem diga que o nome de Deus foi perdido pelo homem.
Que homem e em que circunstâncias? Tinha o nome escrito num papel no bolso das calças e ao lavar as calças no rio, o papel desfez-se? Ou terá apontado o nome à pressa? Tipo aquelas ideias que um gajo tem às vezes e pensa 'Isto é espectacular!' e aponta à pressa num papel para não esquecer. E depois vai a ler e não percebe nada. Podia ter decorado o que escreveu. Não o fez. Porquê?
Presunção, arrogância e mândria.
Eu sou um exemplo de mândria. Mas só em relação a animais domésticos. Tivemos uma gata durante dois anos e tal. Que nome lhe demos? Gata. Se era com maiúscula ou minúscula, não sei. Era gata. Nós chamávamos e ela vinha. Ou não.
Piriquitos. Ele, o macho; ela, a fémea. Nome para quê? Não precisavam de ir ao Notário e eram os únicos que tinhamos. O que eu tenho agora também não tem nome. Porquê? Porque é o único.
Tive um cão quando era miúdo. Chamava-se Snoopy. E para mim isso fazia sentido, pois acreditava mais na existência do Snoopy do que na existência de Deus. Eu via o Snoopy. Deus...

08/02/11

TERMINUS 216: O NOME DE DEUS - Primeira Parte

Olá, pessoas que acreditam e pessoas desconfiadas. O tema de hoje, como já devem ter percebido pelo título, é dedicado a... Deus. Desde o meu último artigo sobre religião que muita gente me perguntou, “Ó Joel, porque é que gozas tanto com a religião católica? As outras religiões não são gozáveis?” E a minha resposta foi, “São. Menos aquelas que os queixosos fazem bum! Além disso, nós só podemos gozar com aquilo que conhecemos minimamente. Se eu vivesse em Bombaim, acreditem que não faltariam piadas sobre a raspadinha. Dito isto, vamos ao tema.
No que toca a nomes de deuses os católicos são do mais calão que há. Dois mil e tal anos e não tiveram tempo de pensar num nome? Dá uma má imagem que nem digo. Parece-me que há duas razões para isso. E nenhuma delas joga a favor dos católicos.
A primeira parte do princípio “o nosso é o melhor”. Pura presunção. “O nosso é o melhor, por isso nem vale a pena pensarmos num nome, porque além de ser o melhor, é também o único.”
Os romanos tinham um deus para tudo; na Grécia, o mesmo; no Egipto, idem; com os Vikings, idem outra vez. U m deus para cada coisa. Pronto... não era bem para tudo. Para coser meias não havia nenhum deus designado, tanto quanto sei, mas para o clima, coisas da vida e da morte, da sorte, do azar, do amor, etc. havia um Deus apontado para essa tarefa. O que fazia mais sentido no meu entender. A responsabilidade a dividir por todos pesa menos e há menos hipóteses de deixar coisas a meio.
E todos eles tinham nome. Todos. Houve casos de incesto, fratricídio e infanticídio, é certo. Tudo bem. Eram muitos, só que não eram bastantes e quando era preciso algum membro novo lá tinha de ir o filho ter com a mãe ou com a irmã.
É simples logística, meus caros. Adão e Eva tiveram dois filhos homens. Mesmo que tenham tido uma catrefada de mulheres depois, continua a ser tudo da mesma família. Não ouvi dizer que Deus tivesse continuado a produzir humanos. Começámos com dois, hoje somos não sei quantos bilhões. Pensem nisso.
O melhor local, a nível de nomes de deuses, é sem dúvida o continente americano. Quetzalcoatl, Tepeyollotl, Huitzilopochtli, Tezcatlipoca... Aquilo é mesmo assim ou o gajo que ditou os nomes para o colega pôr no livro de registo tinha um problema na fala? Ou seria o escriba disléxico? Parece que faltam lá letras. Talvez estivessem a jogar à forca e tiveram de deixar o jogo a meio. Depois os soldados espanhóis chegaram lá e passaram aquilo sem ligar aos espaços vazios.
Estes nomes nunca iriam funcionar no cinema. “Tonatiuh e Tlaloc em... Fim-de-semana em Tlahuixcalpantecuhtli” Duvido que fosse aquele blockbuster.
A primeira teoria já está. A segunda já está escrita, mas não a conto hoje só para vos deixar na expectativa.
Durmam bem e agasalhem-se que é capaz de estar frio na rua.

06/02/11

TERMINUS 215: QUESTÕES DE SEGURANÇA NOS HIPERMERCADOS

O terrorismo é preocupante. A polícia, regra geral, tem uma série de procedimentos padrão quando encontra sacos abandonados. Sacos e mochilas. Eu, para quem não sabe, costumo andar com uma mochila. Quem me conhece já se habituou a ver-me sempre com uma mochila às costas. Muita gente interroga-se sobre o que é que eu levo na mochila. (Imagino que também se interrogarão porque é que eu escrevi tantas vezes “mochila” num só parágrafo.) Coincidência ou não, essas pessoas desapareceram misteriosamente e foram encontradas mutiladas meses depois.
A razão pela qual eu estou a mencionar a minha mochila é pelas situações insólitas que ela por vezes provoca. Vou-vos dar um exemplo, o mais comum aliás.
Nos hipermercados. Não há uma única vez que eu entre num hipermercado com a mochila às costas e não apareça um segurança todo sorridente
Olhe, faz favor, tem de pôr a mochila num saco.”
Desculpe? Pôr a mochila num saco?
É nestas alturas que eu acredito na teoria da sub-evolução das espécies e que são essas espécies, embora inferiores, que mandam em nós.
Pensei cá para comigo, deve ser alguma medida de segurança para impedir que as pessoas coloquem produtos nos seus sacos ou mochilas. Vendo por esse prisma até fazia sentido.
Mas depois reparei: eles nunca dizem nada às mulheres que entram de mala ao ombro.
Portanto, perdoem a minha ignorância, mas eu não consigo ver a lógica nesta situação.
Vejam bem:
De um lado um tipo como eu com uma mochila como a minha, daquelas de fecho. Sem estar dentro do saco, ou da “protecção plástica” como eles lhe chamam. Do outro, uma mulher com uma bolsa ao ombro, daquelas com fecho de mola que basta um simples gesto para abrir; ou mesmo daquelas sem fecho, só um cordelito a enfeitar.
O gajo da mochila se quiser roubar alguma coisa tem de tirar a mochila, abri-la devagar para o fecho não encravar, colocar o que quer lá dentro, voltar a fechá-la e colocá-la de novo nos ombros. Isto sem que o casal à paisana que anda atrás dele há mais de uma hora dê por isso.
Mas o que eles têm na cabeça? Será que eles pensam que quem anda com mochila passa os dias em casa a cronometrar o tempo que demora a tirar a mochila, abri-la, pôr qualquer coisa lá dentro, fechá-la e pô-la de novo às costas? Será que é isso que pensam?
As mulheres não precisam de nada. Nem de subtileza. Para quê? É só escolher. Os seguranças estão todos a vigiar os tipos com mochila!
(Não sendo este um dos meus melhores artigos, é no entanto o artigo em que eu mais vezes usei o termo “mochila”. Acho que isso deve contar para qualquer coisa. Ainda não sei o quê.)

04/02/11

TERMINUS 214: O FENÓMENO BIZARRO

Em tudo no reino animal existe um paralelo que se pode traçar com o Homem. Em quase tudo, digamos. Há certas coisas sobre as quais podemos afirmar que existe uma ligação, mas nada mais que isso. Outras vezes, acontece aquilo que se convencionou chamar o Fenómeno Bizarro.
Para quem não sabe, Bizarro era uma personagem da DC Comics, uma espécie de versão – como o nome indica – bizarra do Super-Homem. Era grotesco, era desajeitado com os seus poderes e não possuía a mesma moralidade sonsinha do homem de aço. No fim de contas, Bizarro era o inverso de tudo aquilo que o Super-Homem era.
O uso do nome Bizarro generalizou-se e passou a ser aplicado sempre que comparamos algo ou alguém ao seu quase inverso. Não se trata de um inverso total – no caso do Super-Homem seria uma mulher africana, gorda, sem poderes, sem cuecas por cima do pijama – apenas de uma versão equivalente.
Uma das versões mais recentes deste fenómeno surgiu num estudo escocês, publicado em Novembro passado no Journal of Evolutionary Biology. Hã? Já estamos em Fevereiro? E depois? Por acaso sabiam do estudo? Se sabiam, porque é que não contaram? Agora calei-vos.
O estudo foi coordenado por um cientista português, Miguel Barbosa, biólogo especializado em animais marinhos. Para quem achava que na Escócia só se estudava uísque e golfe, não é verdade, também se estudam outras coisas. O estudo incidiu sobre peixes tropicais de água doce que, depois de estudados, marcharam para a grelha que foi um instantinho. As conclusões foram muitas. Guppy com molho à espanhola não, mas com molho de manteiga fica que é uma delícia. Sobre o estudo, concluiu-se que “as fêmeas que se reproduzem com vários machos enriquecem as espécies e tornam-nas mais adaptáveis às mudanças ambientais”.
Que comparações se podem fazer entre estes peixes e a espécie humana? Para começar, as mulheres que se reproduzem – ou acasalam, é mais isso – com vários homens não enriquecem a espécie, mas podem enriquecer a sua conta bancária desde que não cometam nenhum descuido. Já no toca a ficarem mais adaptáveis mudanças ambientais, verifica-se o mesmo nas mulheres. Se o golpe der certo mudam-se para um país tropical, se a coisa descambar fogem para um país sem acordos de extradição.
Um abraço deste que tanto vos quer. Desde que sejam asseadinhos.

02/02/11

TERMINUS 213: RIDE THE AMBULANCE

2011 começou mal para muita gente e para mim em particular. Este ano, que promete ser de muitos sacrifícios, é também o ano em que eu vi-me forçado a abdicar de uma dos meus hobbies favoritos: andar de ambulância.
Há aqueles que acham que andar de ambulância é como ir às Finanças; só o fazemos quando não temos escolha e ninguém quer ter de fazer essa escolha. Eu discordo desta forma de ver as coisas. Para mim andar de ambulância, principalmente em hora de ponta na Segunda Circular, é garantia de intensa adrenalina. Pensem na malta que vai a conduzir uma ambulância; o tempo todo a levar com queixas e gemidos. Se estivessem no lugar deles, não gostavam, nem que fosse só uma vez, de ter alguém lá atrás a dizer, “Passa o vermelho! Passa o vermelho! Eh eh! Vistes a cara do velho? Quase que lhe ias passando por cima! Muita bom!”
Todos nós temos um lado ruinzinho cá dentro. Não adianta negar. Não queremos é mostrá-lo muito para não assustar ninguém. Infelizmente, acabou-se a papinha. Desde o início do ano que já não ando de ambulância, pelo menos não como hobbie, mas tenho descoberto o prazer que é andar em varredoras (veículos, não senhoras) e em atrelados.
E porque é que eu, que nunca fiz mal a ninguém, deixei de andar de ambulância? Porque eu ganho mais do que o salário mínimo. A diferença não é muita, mas é suficiente para que me passe a ser cobrado o transporte em ambulância. Em caso de emergência, se precisar de ir algum lado e não tiver um táxi por perto, ainda pode ser que vá de ambulância. Não só continua a ser mais rápido como, ainda por cima, não cobram bagagem. Além disso, se houver um acidente, tenho logo uma ambulância à mão.
O que me incomoda não é o tanto o passar a pagar – isto da crise toca a todos, menos àqueles que a provocam, e é preciso fazer sacrifícios pelo bem comum – é mais a distinção que se faz entre os utilizadores do serviço. Que não se cobre a quem ganha o salário mínimo, acho justo. O que já não me parece justo é distinguirem entre doentes urgentes e doentes não urgentes. Não é por não estar a sangrar dos olhos que tenho menos urgência em ir para o hospital.
Nada disto teria acontecido se as pessoas não abusassem. É a velha história de sempre. Por uns pagam os outros. A minha sorte é que tenho um amigo doutor – é doutorado em Zoologia, mas não importa – que me arranja atestados para andar à borla e um contabilista a quem pago bem para provar que sou pobre. Aos olhos do Estado, quem tem dinheiro, pode dizer que não o tem; quem não tem, paga e não reclama. Senão vai a pé.