02/02/11

TERMINUS 213: RIDE THE AMBULANCE

2011 começou mal para muita gente e para mim em particular. Este ano, que promete ser de muitos sacrifícios, é também o ano em que eu vi-me forçado a abdicar de uma dos meus hobbies favoritos: andar de ambulância.
Há aqueles que acham que andar de ambulância é como ir às Finanças; só o fazemos quando não temos escolha e ninguém quer ter de fazer essa escolha. Eu discordo desta forma de ver as coisas. Para mim andar de ambulância, principalmente em hora de ponta na Segunda Circular, é garantia de intensa adrenalina. Pensem na malta que vai a conduzir uma ambulância; o tempo todo a levar com queixas e gemidos. Se estivessem no lugar deles, não gostavam, nem que fosse só uma vez, de ter alguém lá atrás a dizer, “Passa o vermelho! Passa o vermelho! Eh eh! Vistes a cara do velho? Quase que lhe ias passando por cima! Muita bom!”
Todos nós temos um lado ruinzinho cá dentro. Não adianta negar. Não queremos é mostrá-lo muito para não assustar ninguém. Infelizmente, acabou-se a papinha. Desde o início do ano que já não ando de ambulância, pelo menos não como hobbie, mas tenho descoberto o prazer que é andar em varredoras (veículos, não senhoras) e em atrelados.
E porque é que eu, que nunca fiz mal a ninguém, deixei de andar de ambulância? Porque eu ganho mais do que o salário mínimo. A diferença não é muita, mas é suficiente para que me passe a ser cobrado o transporte em ambulância. Em caso de emergência, se precisar de ir algum lado e não tiver um táxi por perto, ainda pode ser que vá de ambulância. Não só continua a ser mais rápido como, ainda por cima, não cobram bagagem. Além disso, se houver um acidente, tenho logo uma ambulância à mão.
O que me incomoda não é o tanto o passar a pagar – isto da crise toca a todos, menos àqueles que a provocam, e é preciso fazer sacrifícios pelo bem comum – é mais a distinção que se faz entre os utilizadores do serviço. Que não se cobre a quem ganha o salário mínimo, acho justo. O que já não me parece justo é distinguirem entre doentes urgentes e doentes não urgentes. Não é por não estar a sangrar dos olhos que tenho menos urgência em ir para o hospital.
Nada disto teria acontecido se as pessoas não abusassem. É a velha história de sempre. Por uns pagam os outros. A minha sorte é que tenho um amigo doutor – é doutorado em Zoologia, mas não importa – que me arranja atestados para andar à borla e um contabilista a quem pago bem para provar que sou pobre. Aos olhos do Estado, quem tem dinheiro, pode dizer que não o tem; quem não tem, paga e não reclama. Senão vai a pé.

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