30/03/11

TERMINUS 233: OS MAL LEMBRADOS

O saber dos Antigos continua a surpreender-me. Há quem faça pouco dos ditados populares, que olhe para eles com desdém; eu sigo-os como uma doutrina, a única doutrina que resiste a qualquer mudança de regime e de sociedade. Entre os muitos, existem três que eu gostaria de destacar por motivos que farei óbvios.
O primeiro desses ditados é: Devagar se vai ao longe. É verdade que depressa também se chega lá, mas se formos devagar apreciamos mais a viagem. E, no fim de contas, não é a viagem tão ou mais importante que o destino? Se forem devagar para o trabalho, não apreciam mais o tempo antes de chegar lá? Depois chegam atrasados, mas isso são outros quinhentos.
Em segundo lugar temos: Quem tudo quer, tudo perde. Não é uma lei escrita na pedra, é apenas probabilidades. Para alguém perder tudo, é porque em algum momento teve tudo. É um ditado que fala da ambição, mas também da força de vontade e do azar que toca a todos sem discriminação. E o que é querer ter TUDO? Como é que alguém pode querer TUDO? TUDO não é só o bom, é o mau também. Não são só as gajas, o dinheiro, a fama, o poder, são também as doenças venéreas, a sodomia, a esclerose-múltipla e um Governo Português. E assim se percebe melhor a segunda parte do ditado. Quem tudo tem, não perde tudo, apenas se “esquece” de tudo em algum lado, vem alguém e leva.
E por fim, um dos meus favoritos: O dinheiro não traz a felicidade. Nada mais verdadeiro. Reparem no meu caso: trabalho quase todos os dias, ganho o salário mínimo e ainda não tenho casa própria. Por outro lado, um sem-abrigo residente na Gare do Oriente, que não trabalha o que eu trabalho (mas que talvez até aufira mais do que eu), é considerado residente na Torre São Rafael. Vêem como o dinheiro não traz a felicidade? Ou, melhor, como a aparência de pobreza a traz? A felicidade, entenda-se.
Este caso dos Censos tem incomodado muita gente. Como cidadão informado e maduro, estes tumultos passam-me ao lado porque percebo aqui toda a sapiência popular. E não é só neste último ditado, é nos outros dois que referi e em tantos outros que não mencionei.
Olhem de novo para o primeiro ditado. Aposto que muitos sem-abrigos nem sequer desejavam serem inquilinos nas Torres São Rafael e São Gabriel. Ficaram parados na Gare do Oriente. E o que é estar parado, senão andar devagar muito lentamente? Não queriam ir devagar, não queriam ir depressa, e assim conseguiram ir até onde muitos desejavam.
E o que é um sem-abrigo senão alguém que perdeu tudo o que tinha? Alguns até perderam o que não tinham e assim recebem os seus dividendos da sociedade. A mesma sociedade que apenas lhe dá abrigo e comida por alturas festivas, é aquela que os coloca a residir em apartamentos de luxo. É apenas no papel, é verdade, mas não é hipocrisia. Longe disso. O verdadeiro sem-abrigo aprecia a liberdade de um espaço a céu aberto. Prefere a visão do firmamento à prisão de um tecto branco. Ao colocá-los numa falsa residência, estamos a cumprir o nosso propósito enquanto sociedade e a respeitar os seus desejos e tradições.

28/03/11

TERMINUS 232: ANTES DAS ELEIÇÕES #1: INÊS DE MEDEIROS

José Sócrates surpreendeu-me. A recusa do PEC 4 já era expectável, mas José Sócrates ter cumprido a sua promessa de sair, não. Pelo menos essa promessa ele cumpriu, há que reconhecer. No início do debate, quando ele saiu porta fora, apenas um “boa tarde” fugido aos jornalistas, fiquei à espera que ele regressasse, já com o PEC 4 votado e recusado, e dissesse “Vejam lá este aqui. Pensavam que já não me viam, não é? Ah! Ah! Ainda vão ter de gramar comigo mais uns tempos!”
Não sou contra o afastamento de José Sócrates. Também não sou a favor da aproximação de Passos Coelho. É um bocado como mudar de Pepsi para Coca-Cola: são ambas bebidas gaseificadas com cafeína, de sabor a caramelo. O que me estorva é eu ter uma boa quantidade de matérias a abordar sobre a actual legislatura e, em vez de tratá-las com calma, sou obrigado a fazê-lo em modo “aviar frangos.” Isso chateia-me, mas que remédio tenho eu? E o primeiro frango, salvo seja, é: Inês de Medeiros.
Na primeira e última vez que falei sobre a deputada Inês de Medeiros estavam em foco as suas viagens de Paris para Lisboa. O assunto gerou muitos comentários e alguma polémica. Sobre a vontade de Inês querer viver com a família, é perfeitamente natural e compreensível. O que não é compreensível é querer viver com a família, trabalhar em Portugal e sermos nós a pagar os custos de deslocação. Não sei em que ponto está esta situação, se continuamos a pagar e não sabemos, se é ela que paga, não sei. O que posso aqui (re)afirmar é o seguinte: o comum contribuinte, quando vai para o trabalho, seja de transporte próprio ou público, paga a deslocação do seu bolso. Há quem gaste mais de dez por cento do seu vencimento em transportes; há quem ganhe dois mil euros ou mais por mês e tenha tudo pago. Detalhes para alguns, mas não para muitos.
Regresso ao tema Inês de Medeiros a propósito de uma entrevista concedida ao Jornal de Notícias. Entre referências a uma versão portuguesa do Canal Odisseia e à resistência do cinema português, Inês de Medeiros opina sobre a sua actividade política e sobre a política em geral. Pela sua voz, percebemos que nós, povo, olhamos para a política como algo d' “Eles”. E de que outro modo poderia ser? É verdade que não se pode pôr tudo no mesmo saco, mas é tão difícil distinguir.
Insiste-se na partilha de responsabilidade entre todos os elementos da sociedade, quando a nossa única responsabilidade é escolher quem vai continuar a fazer o mesmo ou pior. Que alternativas temos? É nosso dever e direito cívico escolher os nossos representantes. E os deveres dos nossos representantes quais são?
Acredito que muitos políticos, e Inês Medeiros é um exemplo disso, têm ideias boas e promovem iniciativas úteis – no caso dela as alterações á Lei 4/2008 sobre o regime laboral e de segurança social dos profissionais do espectáculo e audiovisual dizem-me particular respeito – só que pecam quando não assumem as falhas da classe. Ovelhas negras existem em toda a parte. Não é vergonhoso admiti-lo, mas é escondê-lo.
Nós não menosprezamos a instituição Parlamento, menosprezamos as pessoas que lá estão e que o tornam menosprezável. O que ninguém quer admitir é que o político não é mais do que um tuga aprumado. Eles fazem o que que qualquer um de nós faz, apenas em escala maior. Podemos mesmo criticá-los? Podemos, porém, nunca esquecendo que eles são nossos representantes. Os políticos são tão bons quanto a sociedade que os elege. Concluam a partir daqui.

27/03/11

TERMINUS 231: ABUSO DE MENORES

Sou a favor das regras, quando aplicadas devidamente. O "é assim porque é" não resulta comigo. Sou contra qualquer tipo de imposições. Porque o respeito conquista-se, não se impõe. Este artigo é dedicado a algo que está sempre na moda. Infelizmente. Falo do abuso de menores. Sei que não é um tema fácil de endereçar, mas tem de ser.
Não vou falar da pequena Joana, da pequena Esmeralda, das vítimas da Casa Pia, ou de qualquer outro caso já esmifrado em praça pública. Vou antes falar de algo mais pernicioso e ignorado. Algo que acontece todos os dias sem que ninguém faça nada.
Falo dos "Malucos e Filhos, das duas versões dos "Batanetes", dois programas que, felizmente, já saíram do ar, mas deixaram a sua marca. Aliás, vou aproveitar para ir mais longe: todas as séries de televisão que existem agora, todas, feitas por ou para crianças deviam ser consideradas perigosas. Estão a tornar os putos estúpidos. Há uma diferença grande entre programas não violentos e programas que não deixem as crianças pensar por elas próprias. Pensem nos Morangos com Açúcar e nos outros exemplos televisivos que dei, olhem para os vossos filhos, e tirem daí  as vossas conclusões.
E eu sei que muitos de vocês vêem os Morangos com Açúcar. Ainda mais grave que ver, sei que muitos de você até gostam. Deixem-me que vos diga uma coisa. Os Morangos com Açúcar são apenas uma nova versão dos "Riscos". Lembram-se dos "Riscos"? Aquela série magnífica em que havia um bacano que os amigos queriam internar numa clínica de desintoxicação por ter fumado um cigarro? Não foi um charro, foi um cigarro!
Foi mais ou menos a partir daí que eu deixei de ver a série. A cena da gaja que pensava estar grávida porque o namorado pôs-lhe a mão nas cuecas ainda deixei passar, mas esta do cigarro...
É disto que eu falo! Realidade! Pais, abram os olhos!
Se suspeitarem que o vosso filho de dezasseis anos anda a fumar... Alerta! Ele já fuma desde os treze. Ele não começou a fumar uma semana antes de vocês descobrirem.
Abram os olhos!
Eles podem não ser inteligentes, mas são espertos. Mais do que vocês querem acreditar.
A televisão é feita para entreter, não para educar. Os pais culpam a televisão por não corresponderem às suas expectativas. E é aí que está o erro.
Pais, preparem as crianças para a vida – não as sentem em frente da televisão à espera que corra tudo bem. Não vai correr. Vai haver merda. E a culpa vai ser toda vossa. Só vou dizer uma vez, por isso prestem atenção: prevenção. Pensem nisso.
E não pensem que lá por não dizerem palavrões em casa à frente dos vossos filhos, que eles não os vão aprender. Se for preciso, eles até vos ensinam palavras novas. É que não tenham dúvidas disto: pior do que dizer asneiras, é dizê-las de forma errada.

25/03/11

TERMINUS 230: TRANSPORTES #2 - TST


Hoje vou vos falar da minha experiência como passageiro de caminete, que é como quem diz a Rodoviária, ou ainda TST. Os TST são uma empresa espectacular! A gente paga um balúrdio e percebe que há um claro investimento feito com o nosso dinheiro. Só que é na casa dos gestores e accionistas da empresa. Se formos visitar a casa do director da Carris, deve estar lá muito módulo e muita viagem Barreiro-Alcochete. Nos autocarros é que esquece lá.
Pensando melhor, não me apetece falar dos TST. Vou antes aproveitar este espaço para vos contar um sonho que tive. A maior parte dos sonhos que tenho desaparecem assim que abro os olhos. Este foi daqueles que resistiu, por isso só pode ser bom.
Eu no sonho era um burro. Não um animal, apenas alguém de discernimento reduzido. E o burro precisava de ir da Baixa da Banheira para a Moita. Em tempos idos, essa era uma viagem que o burro fazia com frequência. Vinha a carroça guiada por uma besta e o burro lá ia, na companhia de outros burros.
Um dia, este burro zangou-se com um das bestas porque esta tinha dito ao burro que o título de transporte do burro não era válido para aquela zona. O título dizia Baixa da Banheira-Moita e o burro morava na Baixa da Banheira, mas a besta insistia que o burro tinha de comprar o título Lavradio-Moita ou ir apanhar a carroça a Alhos Vedros. O burro fez o manguito à besta e durante muito tempo não andou de carroça.
O tempo passou e o burro começou a ir para outros sítios, noutras carroças. Até que um dia, o burro viu-se na necessidade de ter de apanhar a mesma carroça de outros tempos. Sabia que isso lhe traria más recordações, todavia era algo que ele precisava fazer e assim fez.
O burro foi para a paragem e aguardou a habitual horinha pela chegada da carroça. Quando a carroça chegou, o burro entrou e pagou os 2,05€ que a besta indicava como custo do bilhete Baixa da Banheira-Moita. O burro, apesar de burro, percebeu que o bilhete estava mais caro. Porém, percebeu também que a carroça estava diferente.
Para começar, o seu bilhete indicava um número de lugar para se sentar. O burro procurou pelo lugar que lhe pertencia e sentou-se num confortável sofá de cabedal. Ao seu dispor tinha um leitor de Blu-Ray portátil e uns headphones. Para assegurar o máximo conforto, tinha também um mini-bar com bebidas e snacks, de consumo gratuito, sistema de ar condicionado, uma manta para o frio, uma luz de leitura e uma gueixa.
O burro percebeu que tinha dado o seu dinheiro por bem empregue e seguiu viagem até à Moita, feliz por viajar naquela carroça.
E cá está. Viram como se desanca numa empresa assim às claras, duma maneira que toda a gente percebe mas que não se pode provar em tribunal? Inventei a trreta do sonho e assim pude falar à vontade. Aprendam que eu não duro sempre.

23/03/11

TERMINUS 229: SEQUELAS & PREQUELAS

Daqui por algumas horas discutir-se-á no Parlamento a votação do PEC 4. Se passar, Sócrates continua; senão, adeusinho, a gente vê-se por aí. Que impacto terá cada um destes possíveis resultados? Para nós, contribuintes permanentes, o que for recusado agora será implantado pelo próximo Governo, seja para não ofender os mercados, seja porque é preciso mostrar a Bruxelas que Portugal está determinado em avançar num esforço concreto. Enfim, tretas.
Mas são tretas que divertem e sem as quais eu não estaria a escrever isto. Reparem, tecer cenários do que poderá acontecer é um exercício puramente especulativo. E eu assumo isso. Não faço como muitos comentadores, analistas e, pior, políticos. A política mexe com a vida das pessoas e não se pode resumir a olhar para números e antecipar cenários e elaborar decisões com base nisso. Os antigos olhavam para as tripas de um porco, hoje olha-se para dados estatísticos falseados e extrapola-se. A futurologia não devia entrar aqui, mas entra.
Tenho muitas questões sobre este PEC 4. A primeira delas é: até que ponto vai continuar a saga? É que isto já parece o Sexta-feira 13 (mas mais assustador): o primeiro foi bom, o segundo aguentou-se, o terceiro... e do quarto em diante foi um descambar. Para bem da saga e das pessoas nela envolvidas, pensem bem no que estão a fazer. A existência do quarto filme da saga Alien é negado por muitos dos fãs. Querem que aconteça o mesmo com o PEC 4? Não querem, pois não?
Uma prequela também não serve. A última grande prequela que houve foi o Star Wars e, que eu saiba, o Governo não tem nenhum Jar Jar Binks para entreter as crianças. Mariano Gago? Não digam isso. O homem está lá no seu cantinho, quase que não se dá por ele. Estão a implicar com ele porquê?
Há quem não considere a saga PEC uma saga de terror, mas sim uma saga de comédia. Não se sintam chocados e ofendidos com a atitude destas pessoas. O PEC pode ser considerado tanto uma saga de comédia, como uma saga de terror. Tudo depende do ponto de vista.
Os mais ricos olham para o PEC como uma comédia, a classe média como um filme de terror, os mais pobres como um filme português dos anos 40, o Governo como um documentário e a oposição como um mau filme de ficção científico. Eu prefiro olhar para o PEC como uma mistura de vários géneros. Porque o PEC É uma comédia e É um filme de terror, só que é também um filme de fantasia e um musical. E esse é o grande problema desta saga. Não só lhe falta um enredo que convença, como também não assume duma vez por todas em que género cinematográfico se insere.
Façam-me um favor. Quando forem lançar o PEC 5. O quê? Ninguém me contou. Fui ao IMDB ver a filmografia do Governo e estava lá em pre-produção. Escutem-me, mudem o nome do filme. PEC não. O pessoal já conhece. Não tentem fazer como o Saw, não conseguem. Assustar conseguem, só que o enredo já não convence ninguém. É apenas violência gratuita e isso é mau cinema. Em vez de PEC, porque não experimentam o IAB?
O IAB, ou, na sua forma extensa, o Ir Ao Bolso, seria uma saga ainda mais assustadora. As situações causadoras de incómodo e pânico seriam as mesmas, embora mais intensas, e o enredo seria mais realista. As pessoas sairiam da sala de cinema, temendo que algo assim lhes pudesse acontecer. E desejariam adormecer e acordar dentro da saga Pesadelo em Elm Street ou Halloween e serem rapidamente trucidados. Uma morte violenta e sangrenta, mas rápida, seria quase uma benesse para quem se sente a morrer devagar dia a dia.

22/03/11

TERMINUS 228: AUGUINHA

No Centro Hospitalar de Gaia/Espinho a água engarrafada passou a ser substituída por água da torneira, vulgo el cano. A medida está a ser aplicada desde Junho e já significa uma poupança de 12 mil euros. Outras reduções e cortes na despesa, nomeadamente no consumo de papel, no uso das impressoras, na aquisição de jornais e na renegociação de contratos com empresas externas, levaram a uma redução de custos de cerca de 1,33 milhões de euros.
Gostaram da notícia? Agora vem a parte má.
Eu não resido na zona que serve o Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, por isso acredito que nem seja um mar de rosas. No entanto, a ideia de poupar recursos é boa e deve ser estimulada, dentro dos limites do bom senso. Eu sempre bebi água da torneira e nunca morri. É verdade que, nos últimos meses, tenho passado por locais cujo água mal inspira o toque com segurança, quanto mais a ingestão.
Seja como for, esta ideia da água parece-me de louvar. É uma ideia que ajuda o bolso e também o ambiente. Em teoria, seria uma ideia capaz de colher aprovação junto dos vários quadrantes da sociedade, certo? Bom, quase todos. Os senhores do Conselho de Administração da Assembleia da República recusaram a proposta de substituir as garrafas de água mineral por jarros com água da torneira.
Porquê?
Em primeiro lugar, por questões de higiene.
Em segundo lugar, por não haver pessoal suficiente para encher, substituir, lavar e secar os jarros individuais.
Em terceiro lugar, por haver contratos assinados com empresas fornecedoras das máquinas dispensadoras de água.
Analisemos cada uma destas razões separadamente.
Questões de higiene? Mas vocês são deputados ou são ratos? 'Tão com medo de contrair o quê? Não sabem que a imunidade parlamentar vos protege de todos os vírus e bactérias conhecidas do homem? Não sejam mariquinhas pá!
Não há pessoal para quê? Para lavar e encher o jarro do menino deputado? O menino deputado quando vai à casa de banho leva alguém para lhe limpar o rabinho ou fica ali com o produto a fazer compostagem? É de admirar como é que as comissões e plenários duram tanto tempo. Alguns devem fazer para dentro; outros nota-se naquilo que dizem.
E por fim, contratos. Existem contratos assinados com empresas fornecedoras das máquinas dispensadoras de água. Mas não estávamos a falar de garrafas de água? De onde apareceram as máquinas dispensadoras de água? Meus lindos, um contrato não é eterno. Seja ele feito com a Luso, com a Penacova ou com a Vitalis.
Reparem no número: 2535. Sabem o que é? Em euros, é quanto a Assembleia da República gasta por mês em garrafas de 33cl, a fazer as contas a 0,65€ a garrafa. Quase 2600€ que gasta à vossa pala. Mas calma! Não estou a dizer para começarem a beber refrigerantes. Não façam isso. Porque esses, além de serem mais caros, fazem pior à vossa saúde e depois quem é que gozava com a nossa cara?
Costuma-se dizer, faz como eu digo, não faças como eu faço. Outra que também se costuma dizer é, nunca digas desta água nunca beberei. Os nossos deputados tendem mais para o segundo ditado.
A minha sugestão para a Assembleia da República é a seguinte: compram uma garrafa por deputado, escrevem  o nome de cada um no rótulo e distribuem-nas. Cada deputado passa  a ter a sua garrafinha e quando acaba, em vez de deitar a garrafa fora e ir comprar outra, vai à casa de banho e enche. Pessoas mais sensíveis estarão com o dedo a tentar conter o vómito, mas paciência. É o tipo de coisa que fazem aqueles que muitas vezes não têm água em casa, à conta das ideias que os deputados têm quando bebem água engarrafada.

20/03/11

TERMINUS 227: OS CONTOS DE FADAS


Quando eu era pequeno, os contos de fadas começavam sempre da mesma forma. Era sempre “era uma vez...”, “há muito, muito tempo, num reino muito, muito distante”, etc. Sempre assim. Não tinham originalidade. Só que hoje em dia o que falta por aí são pessoas sem originalidade a venderem bem. Não sei o que vocês acham, mas eu sinto-me muito triste com isto.
Comecemos pelo “Era uma vez...”
Se era uma vez então é porque já foi. O que significa que, mesmo que a história acabe bem, é mais que óbvio que, mais tarde ou mais cedo, acabam por morrer todos. Maus e bons.
Depois temos a outra: “Há muito, muito tempo, num reino muito, muito distante...”
Dizer isto é a mesma coisa que dizer “Nem penses que isto algum dia vai acontecer a alguém como tu”
E isto é apenas o princípio, literalmente falando. Depois vêm as próprias histórias. E os temas. E que temas! Mortes, traições, comida envenenada, maldições, roubo, racismo, exploração de trabalho, até mesmo canibalismo.
Quantas velhinhas, vendedoras de maçãs, é que perderam o seu emprego por causa da história da Branca de Neve? Quantos lobos foram abatidos por caçadores que leram “O Capuchinho Vermelho” na sua infância? “Ai sacana do lobo! Queres comer a menina? Então toma!”
Há tanta coisa, tanto exemplo nos chamados, entre aspas, contos para fazer sonhar. E o pior é quando isto se reflecte na idade adulta e temos assassinos, ladrões, traficantes. Tudo pessoal inspirado nos contos de fadas. Vão atrás dos exemplos que leram quando eram crianças e vão ver o que vos acontece.
“Se fizeres isto és bom.”, dizem eles. Dito isto, qualquer pessoa poderá pensar “Vou fazer isto e vou ser bom.” Pumba! Cadeia.
Se nós analisarmos isto de outro prisma, e lermos para além do que está escrito, o que temos é o seguinte: “Se fizeres isto, sem seres apanhado, és bom. Se não, és uma merda.” Assim faz mais sentido.

18/03/11

TERMINUS 226: TRANSPORTES #1 - CARRIS

Hoje vou falar de transportes públicos. Pronto! Já sabia. Fala-se em transportes públicos e vocês ficam logo... Eh pá! Comportem-se, por favor.
Meus estimados, antes de começar, e antecipando algum queixume da vossa parte, eu moro na Moita (Margem Sul, yeah!), por isso os únicos transportes públicos dos quais posso falar são os TCB, CP, TST, Metro, Soflusa e Carris. Se não residem em zona afecta a estas empresas, temos pena. Não se pode chegar a todos.
Comecemos pela Carris. Ora cá vai.
As recentes alterações de carreiras de autocarros na Carris levarão, segundo estimativa da empresa, a uma poupança de cerca de três milhões de euros por ano. Numa altura em que se fala tanto de crise é bom saber que ainda existem empresas capazes de facturar. Dizer que é à custa dos utentes pode ser verdade, mas parece-me mesquinho.
Estive a olhar para o novo mapa de carreiras – eu gosto de falar fundamentado – e, ao todo, são cinco carreiras que ficam com percurso reduzido, duas que passam a funcionar apenas durante a semana e seis que desaparecem por completo. Um dado curioso a destacar é a não saída de motoristas. Pergunta: com menos autocarros a fazer menos carreiras em percursos mais curtos, será que os autocarros da Carris vão passar a ter motorista e co-motorista?
O bilhete de bordo, esse, não deve tardar a ser aumentado. Fazer alterações implica tempo para pensar e tempo é dinheiro. Preparem-se. Não julguem que é por reduzir na qualidade do serviço, que os preços vão-se manter como estão. Não se esqueçam da crise. Reparem que Carris só tem uma letra a mais que crise e que apenas o a e o e é que diferem. No grande conjunto contextual, pode não significar nada, mas é um facto que não pode ser ignorado.
Este anúncio foi feito no passado dia 3 deste mês. Dois dias antes, saiu uma outra notícia que dava conta que na Carris as medidas de austeridade não seriam aplicadas. Segundo o Governo, não se podem pagar prémios de desempenho aos funcionários públicos. No caso da Carris, os seus responsáveis entendem que não há qualquer problema em conferir uma remuneração variável àqueles funcionários que “cumprem o conjunto de pressupostos de desempenho excepcional”. O meu azar foi ter tido má nota na cadeira de Chico-Espertice II, senão ainda topava que havia aqui marosca.
Em suma, os funcionários recebem prémios de desempenho, os gestores recebem ainda mais e os utentes, que antes demoravam quarenta minutos no autocarro, passam a demorar apenas quinze: os restantes são feitos a pé. Dizem que o Governo e as empresas só se preocupam com números, que não olham para as pessoas. Eis uma empresa que se preocupa com a saúde dos seus utentes, ao ponto de obrigá-los a fazer saudáveis caminhadas.

17/03/11

TERMINUS 225: TIPO SALADA RUSSA

Ainda a semana vai a meio e já tivemos manifestações, paralisações e reduções.
Comecemos pela Manifestação da Geração À Rasca. Impressionante do ponto de vista de aglomeração, mas tão relevante como um Rock In Rio. Não descurando a grande adesão que teve, não só junto de jovens mas de pessoas de todas as idades e cores (políticas), ficou um pouco aquém das expectativas. Em Lisboa mostraram que conseguiram encher a Praça do Rossio. E?
Não estive presente na manifestação, apesar de me dizer respeito, não porque não me apetecesse, apenas porque outros assuntos exigiam a minha atenção. Todavia, mesmo que eu e tantos outros que ficaram em casa, mesmo que todos os descontentes e prejudicados e injustiçados tivessem saído à rua e fizessem o que aqueles que foram fizeram, o que teria mudado? Nada. Praticamente nada. Porque aquilo que os manifestantes fizeram, não foi mais do que ir lá. Isso é importante, sem dúvida, é o princípio da coisa, mas só isso não chega.
Vê-se com frequência, em obras de norte a sul do país, um ou dois a trabalhar, outros dois a dar palpites e mais três a ver. Estão lá todos, mas é preciso mais do que estar lá. É preciso que exista alguma acção. Ir do Marquês de Pombal até à Praça do Rossio faço eu e muita gente quase todos os dias. Não sinto, não tenho a pretensão sequer de pensar, que o país vá mudar por causa disso.
O que deveria ter sido feito? Várias coisas. Talvez manifestarem-se num dia de semana. Em dia de plenário na Assembleia. Invadir a Assembleia e pregar um cagaço nos deputados. Tanta coisa. Nenhuma revolução acontece apenas porque as pessoas resolvem sair de casa; isso é algo que fazem todos os dias.
Sobre a paralisação dos camionistas, é a história de sempre. Quem quisesse, podia circular à vontade; só estava sujeito a levar com um tijolo atirado dum viaduto. Coisa pouca. É quase como um mosquito ir contra o vidro dianteiro.
Pararam dois dias por causa do aumento do preço dos combustíveis. Compreensível. Toca a todos. Tanto quanto sei, chegaram a acordo. Óptimo para eles.
Não sei se alguém já fez as contas, mas seria interessante saber quanto é que a Galp, a BP e restantes companhias facturaram antes do início da paralisação. É uma das leis mais eficazes do comércio. Se um produto vende pouco, ou se querem vender mais desse produto, basta anunciarem um aumento do preço ou uma ruptura de stock iminente que as pessoas vão logo a correr gastar o dinheiro que não têm para comprar aquilo que (às vezes não) precisam. Somos criaturas previsíveis e no combustível então... Os camiões cisterna vão parar, os postos de abastecimento vão ficar sem combustível. Pânico! Como se isto fosse durar mais do que dois, três dias! Enfim...
No campo das reduções – e a palavra “campo” não foi usada por acaso – é bom saber que ainda existem prioridades neste Governo. Não sou da cor do senhor engenheiro, mas reconheço um serviço bem feito quando ele existe. Posso ser tendencioso e mal fundamentado, mas sou honesto.
E o que foi que o Governo do engenheiro Sócrates fez que me deixou tão radiante? Nada mais, nada menos, do que reduzir o IVA do golfe de 23% para 6%. Não foi o carro, como mostrou uma reportagem da RTP, foi o, digamos, desporto. E em boa hora o fez. Porque era uma injustiça aquilo que estava a acontecer no mundo do golfe! Isto tem de ser dito! Estamos a falar de pessoas que pouco mais têm na vida do que a prática de golfe. E o golfe que é um desporto tão nobre, tão cheio de significado!
Mentira. É uma actividade parva, nem sequer é desporto, praticada por gente idiota e snob. Golfe é dar uma tacada numa bola, passar meia hora à procura da bala, e dar outra tacada. Pra quê? Encontram a bola, acaba o jogo! Querem acertar no buraco? Ponham a bola mais perto do buraco!  

16/03/11

TERMINUS 224: MICROCRISE DE FUNÇÕES

Há pessoas muita ingratas, pá! Palavra de honra! Então não é que o Muhammad Yunus, aquele que ganhou em 2006 o Prémio Nobel da Paz com a invenção do microcrédito, foi expulso do Grameen Bank? O banco que ele fundou, pá! E ainda por cima foi o próprio presidente do banco que o mandou pôr-se na alheta! Isto deixa-me cá com uns nervos! E também com a garganta seca.
Tenho de ir beber água. Com licença.
Pronto. Assim está melhor. Já molhei o bico e aproveitei também para pôr um pouco de creme anti-bronco. Vocês também! Um tipo a escrever à bronco e vocês nada, pá! Peço desculpa, foi aqui uma zona onde o creme ficou mal espalhado... Já está.
Perguntam vocês que se interessam pelo que eu tenho para dizer: ó Joel, as razões que levaram o Banco Central do Bangladesh a exonerar Muhammad Yunus das suas funções de director-geral do Grameen Bank são justificáveis? A verdade é que, desde que ganhou o Nobel da Paz que Yunus e o Governo nunca se deram bem. A questão é saber quem é que tem razão.
Os senhores do Banco Central do Bangladesh consideram que Yunus já atingiu a idade da reforma  e, por essa razão, não pode continuar a exercer funções. Cá está uma sociedade completamente diferente da nossa e, ao mesmo tempo, tão igual. O nosso ex-Vice-Procurador Geral da República, Mário Gomes Dias, por exemplo, atingiu o limite de idade para exercer funções, mas como houve tanta gente a pedir “só mais um!”, ele lá aceitou continuar.
Já o Yunus foi acusado pelo seu Governo de “sugar o sangue dos pobres”. Coitado. Mas a culpa também é dele. Com tanto dinheiro que ganhou à conta do microcrédito e nem um espelho foi capaz de comprar para oferecer aos senhores do Governo.
Para mim, o problema não estava na idade de Yunus, estava no nome do banco. Grameen Bank é demasiado parecido com Banco de Gramíneas e a gramínea é uma planta que foi feita para ser pisada.

14/03/11

TERMINUS 223: PARTIDO A MEIO

Olá. Bem-dispostos? Eu estou. Sabem porquê? Porque o Santana Lopes admite formar um novo partido. Quem é que fez “yupi”? Calma! Não comecem já com as vossas manifestações de alegria porque ainda não é certo que Santana vá mesmo para a frente com esta ideia. É melhor esperarem um pouco.

O que ele disse foi “"Há tempos que admito e considero que é muito provável que apareçam outras realidades no centro-direita de Portugal. A ver vamos e eu estou num processo de pensamento sobre isso.” Portanto, ele ainda só está a pensar se avança ou não.
Para dizer a verdade, é bem provável que ele avance. O Santana é homem para isso. Lembrem-se que ele já foi Secretário de Estado da Cultura do Governo de Cavaco Silva, Presidente do Sporting, Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Primeiro-Ministro de Portugal, comentador político e Mr. Camisa de Seda Molhada Lux 2001. É, portanto, um homem que não recusa um bom desafio.
Por outro lado, é também provável que a criação deste novo partido fique a meio. O Santana é capaz de definir estatutos, é capaz até de elaborar um programa, mas quando for a altura de ir fazer o registo da patente, o mais certo é ele lembrar-se que tem o leite ao lume e ir-se embora. E é isto que eu gosto no Santana Lopes. Neste aspecto, Santana é um autêntico Seinfeld da política.
Jerry Seinfeld, co-autor dessa mítica sitcom, recusou um balúrdio de dinheiro para fazer uma décima temporada. Apesar do graveto oferecido, ele recusou a oferta, dizendo que, “A melhor altura para parar é esta, enquanto estamos no topo. Continuar até o público se cansar de nós, seria um disparate.”
Muitos políticos levam o seu mandato até ao fim, achando que, ao fazer isso, estão a respeitar a vontade dos cidadãos que os elegeram. Um mandato político devia ser como um filme ou um livro: ao fim de dez minutos ou dez páginas, já sabemos se aquilo tem ou não interesse. No caso de um Governo, a coisa podia-se fazer até aos doze meses. Ao fim de doze meses, se a história não nos interessasse, vinham outros. Ficção por ficção, ao menos que seja uma história interessante.
Santana Lopes é dos poucos políticos que entende não ser o cumprimento mandatário aquilo que os eleitores procuram. Apesar de o poderem escolher para determinado cargo, ele tem a consciência certa de quando deve sair. Pode não sair em grande, mas sai sempre a meio. E esse é um tipo de coerência que eu aprecio.

12/03/11

TERMINUS 222: TERAPIA DO ACASO


Segundo uma notícia publicada em diário de tiragem nacional, os políticos portugueses recorrem cada vez mais a terapia da fala. Sendo a voz um instrumento essencial da actividade política – é com ela que pedem e fazem favores uns aos outros –, é natural que exista alguma manutenção. No entanto, penso que há um dado que é preciso ter em conta.
Para quem tem andado por outra dimensão, no mês passado realizou-se mais uma Cerimónia de Entrega dos Óscares e O Discurso do Rei ganhou o prémio de Melhor Filme. O filme, protagonizado pelo também oscarizado Colin Firth, conta a história de um rei que sofre de gaguez e decide ter aulas com um terapeuta para corrigir esse problema.
Se esta notícia tivesse saído noutro país que não Portugal, eu acharia uma mera notícia de circunstância. Quiçá uma coincidência. Mas conhecendo a nossa classe política como conheço, sei que a voz não é o instrumento de trabalho mais utilizado por eles, é o pulso. Os discursos até os partilham; os despachos, cada um assina o seu. Isto não me soa nada como políticos a zelarem pelo bom funcionamento da sua máquina.
Recordo-me de quando estava na chamada idade parva, entre os 14 e os 17, e ia ao cinema ver um filme que tivesse cenas de luta. Saia de lá, sempre de peito inchado, convencido que era capaz de reproduzir na perfeição os golpes executados pelo herói do filme e defender-me de qualquer meliante que ousasse meter-se comigo. É claro que a parte sensata da minha personalidade, preferia que não fosse necessário eu colocar em prática aquilo que tinha visto no filme.
No caso dos nossos políticos é um bocado isto que se passa. Parece que foram todos ao cinema ver o mesmo filme. Por acaso, foi O Discurso do Rei. Calhou não ter sido O Cisne Negro. Teria sido engraçado. Em vez de notícias sobre políticos a recorrerem a terapia da fala, agora teríamos notícias sobre políticos a frequentarem aulas de ballet. Apesar da visão de figuras proeminentes da vida política portuguesa vestidas de maillots e tutus poder constituir um agradável momento de comicidade, preferia que optassem por atitudes mais adequadas à classe. Assim, em nome da adequação, recomendo aos nossos políticos o filme Inteligência Artificial.

10/03/11

TERMINUS 221: UMA HISTÓRIA ASSIM A MODOS QUE


Entrei no café/snack-bar/restaurante sem saber bem ao que ia. Talvez almoçar, talvez petiscar. Eram quase três da tarde. Qualquer hipótese era válida. As mesas estavam todas ocupadas. Fumantes e não fumantes. Aproximei-me do balcão. Perscrutei o cenário, tentando encontrar uma mesa, aquela tal mesa que há sempre de clientes que só estão lá a pastar. Com relativa facilidade, aliada a alguma paciência, encontrei-a e, ao fazê-lo, resolvi aproximar-me.
Os empatas – não gosto de começar logo a insultar – bebiam café. Conversavam sobre a sua mais velha que era doutora. Ou a mais velha que tinha ido à doutora. Ou a sua doutora que era mais velha que outra pessoa. Com ar irritado, apontei para o meu pulso, onde se encontrava um relógio hipotético, e fiz-lhes ver que era tempo de se fazerem à estrada.
Nunca escondendo a minha indignação, dei meia volta e regressei até ao balcão e encetei conversa com o empregado. Pedi-lhe um copo de água. Ele fez a piada do costume, não a sua, mas a da classe. Ri-me com gosto, pois gosto muito de ser atendido por um especialista em gramática. Contei-lhe a piada sobre o licenciado em gestão que me estava a atender. Não achou graça. Fiz-lhe uma festinha no queixo, pedi-lhe desculpa e fizemos as pazes. Foi um momento bonito.
De amizade reconciliada, apontei para a mesa onde me havia dirigido e fiz um comentário eloquente e pertinente sobre o actual estado das contas públicas. Olhando para os fregueses sentados à mesa, ele abanou a cabeça e fez um ar de reprovação. A sua reacção não era dirigida a ninguém em particular, muito menos àquelas pessoas, mas elas não sabiam disso. E ainda bem.
Regressei à mesa. Continuavam a beber café e a conversar sobre uma porcaria qualquer. Escolhi o meu alvo com a devida cautela. Era o mais franzino do grupo. Mas não foi por isso que o escolhi. Foi por ser o que estava mais a jeito. Tirei-lhe a chávena da mão e bebi de pénalti o café já frio. Ignorando o ar de espanto dele e demais convivas, pousei a chávena no pires com a típica calma de quem está no domínio da situação. O principal cuidado a ter é manter o personagem até ao fim. Fiz sinal ao empregado e gritei, bem alto: “Este já não 'tá queimado! Foi só os outros!”
Pedi desculpa à mesa e também às pessoas sentadas à sua volta e sai do café/snack-bar/restaurante sem dizer mais nada. Achei que era melhor ir comer a outro sítio.

08/03/11

TERMINUS 220: PROTECÇÃO LEGAL

Se eu fosse pedófilo, gostaria de ser membro da Comissão de Protecção de Dados. Assim, podia arranjar todos os dados pessoais das crianças que quisesse que não ia ter chatices nenhumas.
Vamos lá a saber que ideia vem a ser essa do concurso "Um slogan pela Privacidade"? Fazer anúncios a pedir às criancinhas para divulgarem o seu número de telemóvel, morada, endereço de correio electrónico, nickname do messenger, username do hi5, do Facebook, do Twitter, do Orkut, do Bandoo e do outro? Sou eu que sou parvo por ser da geração dos Deolinda ou é isto que não faz sentido?
Há coisas que não percebo.
No meu tempo, ou seja, quando eu era puto, diziam-me sempre para não falar com estranhos. Agora são os estranhos que pedem os contactos e os pais não são tidos nem achados. Porquê? Porque não são uns badamecos quaisquer a pedir esses dados, são os senhores da Comissão de Protecção de Dados. E nenhum deles é padre que se saiba. É pena. Talvez se fosse, os pais ficassem mais de pé atrás.
Queres ser meu amigo, puto?”
O meu pai disse para não falar com pessoas estranhas.”
Eu não sou estranho. Sou da Comissão de Protecção de Dados.”
Então 'tá bem!”
É a desculpa sonho de qualquer pedófilo.
Ontem vi uma casa de banho pública, com o seguinte aviso: “Menores de dez anos devem entrar acompanhados de adultos”. Não está certo. Estamos claramente na fase do acerto.
Antes do escândalo Casa Pia podia sorrir a uma criança, brincar com ela, às vezes até pegar nela ao colo. Depois, descobriu-se que algumas pessoas mais velhas gostavam de outras pessoas mais novas e nem olhar para um menor era permitido. Agora, como tudo acabou, voltou-se ao antigamente. Só que falta fazer o acerto. Agora há contacto a mais.
Não pretendo erguer suspeitas em relação aos senhores da Comissão de Protecção de Dados, mas o ditado bem diz, “O caminho para o Inferno é feito de boas intenções.” Ter o contacto de todas as crianças dos 8 aos 17 anos pode parecer uma boa ideia para avisá-las de algum perigo. Mas é também um bom catálogo para pessoas menos bem intencionadas. Principalmente se colocarem lá fotografias. E imagino que, no descorrer desta gente, não faça sentido ter lá os dados pessoais todos das crianças dos 8 aos 17 anos e não ter lá fotos. Seria uma ideia estúpida.

06/03/11

TERMINUS 219: TEM BICHO, NÃO QUERO!


O gémeo feio do PS, também conhecido por PSD, tem  na sua lista de coisinhas a alterar na Constituição algumas ideias engraçadas sobre portadores de doenças contagiosas. Dizem os laranjinhas que não seria má ideia, em caso de pandemia, "restringir a liberdade dos doentes para evitar o contágio". Penso que é uma boa ideia, mas só se não puserem as pessoas nos hospitais. Aí não que é só doentes.
Fora de brincadeiras, a medida tem alguns méritos. É preciso zelar pela saúde dos não contaminados, ao mesmo tempo que se salvaguarda a dignidade dos contaminados. O problema é que estamos em Portugal, onde as boas ideias até aparecem, mas são estraçalhadas de imediato.
Ao que parece, a proposta reune consenso junto de todas as bancadas parlamentares. Todavia, os deputados avisam que é preciso ter atenção ao texto desse artigo. Não vá haver gente a aproveitar-se da situação. Poderá lá ser! Onde é que alguma vez, os senhores que escrevem as leis iriam alterar a Constituição em proveito próprio?
Onde isto também até era capaz de ser uma excelente ideia, era aí no Parlamento. Aí, também há perigo de contágio. Só que o tipo de infecção que se contrai aí não se resolve com Tamiflu, tem de ser com injecções de capital financeiro. Esses senhores também são transmissores de maleitas e não há quem os enterre, perdão, interne. Vejam lá isso.
É claro que isto só será tema de conversa de café caso a proposta do PSD seja aceite. Até lá, num gesto de altruísmo que muito me dignifica, aqui ficam mais duas propostas para o Pedrito de Portugal e amigos:
1 – Em vez de “causa justa” ou “razão atendível”, sugiro “descontextualização sofismática”
2 – Em vez de dar ao Governo indigitado pelo Presidente da República autoridade para demitir o Presidente da República, dar essa autoridade a um vendedor de castanhas.
Para já é isto. Se me lembrar de mais alguma coisa, depois digo.

04/03/11

TERMINUS 218: DISPUTA FAMILIAR


Tenho uma pergunta a fazer. Duas, aliás. A primeira é: que raio de preocupação é essa que vocês demonstram por mim, que estou quase um mês ausente, capaz de ter tido um acidente, de estar acamado no hospital, e vocês nada? Nem um telefonema, nem um email, nada. Assim se vê. A segunda pergunta é: já se podem fazer piadas sobre o caso daquela senhora da Rinchoa que estava morta no apartamento há quase dez anos?
Reparem que eu não disse piadas sobre a senhora, disse piadas sobre o caso. Porque a senhora, coitada, já lá vai e a mim sempre me ensinaram que com os mortos não se brinca. Por causa do cheiro e da decomposição. Experimentem pôr um morto à baliza. Podem rematar à figura que a bola passa sempre. Por ele.
Quanto à dona Augusta ,e demais casos que calharam a ser descobertos nos tempos que se seguiram, eu podia ser uma pessoa de má índole e fazer piadas do género, “Alguém sabe qual era o perfume que a dona Augusta usava? É que eu tenho um amigo que tem um problema de transpiração e aquilo se calhar era capaz de ajudar.”
Ou então um spot publictário. (Este tem potencial.) Entram na casa da senhora, descobrem o corpo e notam a ausência de cheiro. Depois, em fundo negro, aparecia o frasco do perfume, com o nome, a marca e o locutor a dizer, “Eau de Mort, by Rinchoa”.
Não será com isto que eu irei gozar. Será com quem merece. Neste caso, os familiares da senhora que, de forma muito digna, estão em disputa entre si. Pelo quê? Pelas despesas do enterro? Querem todos pagar e ninguém se entende? Disparate. É por causa do apartamento. A senhora Augusta, por motivos de morte, contraiu uma dívida junto das Finanças. As Finanças ficaram com o apartamento. E quem pagar a dívida, fica com o apartamento. Isto é que são uns familiares. Assim, até dá gosto morrer. Pelo menos não se está a aturar gente desta. Se for preciso nunca puseram os pés lá. Ela convidava-os a irem lá lanchar e eles estavam sempre ocupados. Sempre. Dizendo entre si, “Eu vou lá aturar agora a velha. Poupem-me.”
Senhores familiares da dona Augusta, espero sinceramente que resolvam a vossa contenda e que apanhem lêndeas na língua. Todos.

SUGESTÕES DE LEITURA PARA A PRIMAVERA

    Primavera! Tempo de flores, de alergias e de livros. Bons livros. Como perceberão através desta minha lista de sugestões.
  1. COMO PERDER PESO SEM COMER
  2. SAIBA QUANTOS DIAS PODE FICAR SEM BEBER ÁGUA
  3. A SUA VIDA NÃO É ASSIM TÃO INTERESSANTE
  4. INVENTEM-SE NOVOS FILHOS
  5. COMO ACABAR COM A FOME EM ÁFRICA EM TRÊS TEMPOS
  6. COMO ACABAR COM TODAS AS DOENÇAS E MAIS ALGUMAS
  7. PAUTAS PARA BUZINA DE VEÍCULOS LIGEIROS
  8. PAUTAS PARA BUZINA DE VEÍCULOS PESADOS
  9. O SEU BEBÉ TEM A CARA DO SEU VIZINHO
  10. COMO MELHORAR O SEU ESTATUTO À CUSTA DA DESGRAÇA ALHEIA