04/03/11

TERMINUS 218: DISPUTA FAMILIAR


Tenho uma pergunta a fazer. Duas, aliás. A primeira é: que raio de preocupação é essa que vocês demonstram por mim, que estou quase um mês ausente, capaz de ter tido um acidente, de estar acamado no hospital, e vocês nada? Nem um telefonema, nem um email, nada. Assim se vê. A segunda pergunta é: já se podem fazer piadas sobre o caso daquela senhora da Rinchoa que estava morta no apartamento há quase dez anos?
Reparem que eu não disse piadas sobre a senhora, disse piadas sobre o caso. Porque a senhora, coitada, já lá vai e a mim sempre me ensinaram que com os mortos não se brinca. Por causa do cheiro e da decomposição. Experimentem pôr um morto à baliza. Podem rematar à figura que a bola passa sempre. Por ele.
Quanto à dona Augusta ,e demais casos que calharam a ser descobertos nos tempos que se seguiram, eu podia ser uma pessoa de má índole e fazer piadas do género, “Alguém sabe qual era o perfume que a dona Augusta usava? É que eu tenho um amigo que tem um problema de transpiração e aquilo se calhar era capaz de ajudar.”
Ou então um spot publictário. (Este tem potencial.) Entram na casa da senhora, descobrem o corpo e notam a ausência de cheiro. Depois, em fundo negro, aparecia o frasco do perfume, com o nome, a marca e o locutor a dizer, “Eau de Mort, by Rinchoa”.
Não será com isto que eu irei gozar. Será com quem merece. Neste caso, os familiares da senhora que, de forma muito digna, estão em disputa entre si. Pelo quê? Pelas despesas do enterro? Querem todos pagar e ninguém se entende? Disparate. É por causa do apartamento. A senhora Augusta, por motivos de morte, contraiu uma dívida junto das Finanças. As Finanças ficaram com o apartamento. E quem pagar a dívida, fica com o apartamento. Isto é que são uns familiares. Assim, até dá gosto morrer. Pelo menos não se está a aturar gente desta. Se for preciso nunca puseram os pés lá. Ela convidava-os a irem lá lanchar e eles estavam sempre ocupados. Sempre. Dizendo entre si, “Eu vou lá aturar agora a velha. Poupem-me.”
Senhores familiares da dona Augusta, espero sinceramente que resolvam a vossa contenda e que apanhem lêndeas na língua. Todos.

1 comentário:

ASB disse...

Podes fazer piadas à vontade, porque a piada maior já foi feita por todos os envolvidos no caso, com excepção da vizinha!