10/03/11

TERMINUS 221: UMA HISTÓRIA ASSIM A MODOS QUE


Entrei no café/snack-bar/restaurante sem saber bem ao que ia. Talvez almoçar, talvez petiscar. Eram quase três da tarde. Qualquer hipótese era válida. As mesas estavam todas ocupadas. Fumantes e não fumantes. Aproximei-me do balcão. Perscrutei o cenário, tentando encontrar uma mesa, aquela tal mesa que há sempre de clientes que só estão lá a pastar. Com relativa facilidade, aliada a alguma paciência, encontrei-a e, ao fazê-lo, resolvi aproximar-me.
Os empatas – não gosto de começar logo a insultar – bebiam café. Conversavam sobre a sua mais velha que era doutora. Ou a mais velha que tinha ido à doutora. Ou a sua doutora que era mais velha que outra pessoa. Com ar irritado, apontei para o meu pulso, onde se encontrava um relógio hipotético, e fiz-lhes ver que era tempo de se fazerem à estrada.
Nunca escondendo a minha indignação, dei meia volta e regressei até ao balcão e encetei conversa com o empregado. Pedi-lhe um copo de água. Ele fez a piada do costume, não a sua, mas a da classe. Ri-me com gosto, pois gosto muito de ser atendido por um especialista em gramática. Contei-lhe a piada sobre o licenciado em gestão que me estava a atender. Não achou graça. Fiz-lhe uma festinha no queixo, pedi-lhe desculpa e fizemos as pazes. Foi um momento bonito.
De amizade reconciliada, apontei para a mesa onde me havia dirigido e fiz um comentário eloquente e pertinente sobre o actual estado das contas públicas. Olhando para os fregueses sentados à mesa, ele abanou a cabeça e fez um ar de reprovação. A sua reacção não era dirigida a ninguém em particular, muito menos àquelas pessoas, mas elas não sabiam disso. E ainda bem.
Regressei à mesa. Continuavam a beber café e a conversar sobre uma porcaria qualquer. Escolhi o meu alvo com a devida cautela. Era o mais franzino do grupo. Mas não foi por isso que o escolhi. Foi por ser o que estava mais a jeito. Tirei-lhe a chávena da mão e bebi de pénalti o café já frio. Ignorando o ar de espanto dele e demais convivas, pousei a chávena no pires com a típica calma de quem está no domínio da situação. O principal cuidado a ter é manter o personagem até ao fim. Fiz sinal ao empregado e gritei, bem alto: “Este já não 'tá queimado! Foi só os outros!”
Pedi desculpa à mesa e também às pessoas sentadas à sua volta e sai do café/snack-bar/restaurante sem dizer mais nada. Achei que era melhor ir comer a outro sítio.

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