12/03/11

TERMINUS 222: TERAPIA DO ACASO


Segundo uma notícia publicada em diário de tiragem nacional, os políticos portugueses recorrem cada vez mais a terapia da fala. Sendo a voz um instrumento essencial da actividade política – é com ela que pedem e fazem favores uns aos outros –, é natural que exista alguma manutenção. No entanto, penso que há um dado que é preciso ter em conta.
Para quem tem andado por outra dimensão, no mês passado realizou-se mais uma Cerimónia de Entrega dos Óscares e O Discurso do Rei ganhou o prémio de Melhor Filme. O filme, protagonizado pelo também oscarizado Colin Firth, conta a história de um rei que sofre de gaguez e decide ter aulas com um terapeuta para corrigir esse problema.
Se esta notícia tivesse saído noutro país que não Portugal, eu acharia uma mera notícia de circunstância. Quiçá uma coincidência. Mas conhecendo a nossa classe política como conheço, sei que a voz não é o instrumento de trabalho mais utilizado por eles, é o pulso. Os discursos até os partilham; os despachos, cada um assina o seu. Isto não me soa nada como políticos a zelarem pelo bom funcionamento da sua máquina.
Recordo-me de quando estava na chamada idade parva, entre os 14 e os 17, e ia ao cinema ver um filme que tivesse cenas de luta. Saia de lá, sempre de peito inchado, convencido que era capaz de reproduzir na perfeição os golpes executados pelo herói do filme e defender-me de qualquer meliante que ousasse meter-se comigo. É claro que a parte sensata da minha personalidade, preferia que não fosse necessário eu colocar em prática aquilo que tinha visto no filme.
No caso dos nossos políticos é um bocado isto que se passa. Parece que foram todos ao cinema ver o mesmo filme. Por acaso, foi O Discurso do Rei. Calhou não ter sido O Cisne Negro. Teria sido engraçado. Em vez de notícias sobre políticos a recorrerem a terapia da fala, agora teríamos notícias sobre políticos a frequentarem aulas de ballet. Apesar da visão de figuras proeminentes da vida política portuguesa vestidas de maillots e tutus poder constituir um agradável momento de comicidade, preferia que optassem por atitudes mais adequadas à classe. Assim, em nome da adequação, recomendo aos nossos políticos o filme Inteligência Artificial.

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