28/03/11

TERMINUS 232: ANTES DAS ELEIÇÕES #1: INÊS DE MEDEIROS

José Sócrates surpreendeu-me. A recusa do PEC 4 já era expectável, mas José Sócrates ter cumprido a sua promessa de sair, não. Pelo menos essa promessa ele cumpriu, há que reconhecer. No início do debate, quando ele saiu porta fora, apenas um “boa tarde” fugido aos jornalistas, fiquei à espera que ele regressasse, já com o PEC 4 votado e recusado, e dissesse “Vejam lá este aqui. Pensavam que já não me viam, não é? Ah! Ah! Ainda vão ter de gramar comigo mais uns tempos!”
Não sou contra o afastamento de José Sócrates. Também não sou a favor da aproximação de Passos Coelho. É um bocado como mudar de Pepsi para Coca-Cola: são ambas bebidas gaseificadas com cafeína, de sabor a caramelo. O que me estorva é eu ter uma boa quantidade de matérias a abordar sobre a actual legislatura e, em vez de tratá-las com calma, sou obrigado a fazê-lo em modo “aviar frangos.” Isso chateia-me, mas que remédio tenho eu? E o primeiro frango, salvo seja, é: Inês de Medeiros.
Na primeira e última vez que falei sobre a deputada Inês de Medeiros estavam em foco as suas viagens de Paris para Lisboa. O assunto gerou muitos comentários e alguma polémica. Sobre a vontade de Inês querer viver com a família, é perfeitamente natural e compreensível. O que não é compreensível é querer viver com a família, trabalhar em Portugal e sermos nós a pagar os custos de deslocação. Não sei em que ponto está esta situação, se continuamos a pagar e não sabemos, se é ela que paga, não sei. O que posso aqui (re)afirmar é o seguinte: o comum contribuinte, quando vai para o trabalho, seja de transporte próprio ou público, paga a deslocação do seu bolso. Há quem gaste mais de dez por cento do seu vencimento em transportes; há quem ganhe dois mil euros ou mais por mês e tenha tudo pago. Detalhes para alguns, mas não para muitos.
Regresso ao tema Inês de Medeiros a propósito de uma entrevista concedida ao Jornal de Notícias. Entre referências a uma versão portuguesa do Canal Odisseia e à resistência do cinema português, Inês de Medeiros opina sobre a sua actividade política e sobre a política em geral. Pela sua voz, percebemos que nós, povo, olhamos para a política como algo d' “Eles”. E de que outro modo poderia ser? É verdade que não se pode pôr tudo no mesmo saco, mas é tão difícil distinguir.
Insiste-se na partilha de responsabilidade entre todos os elementos da sociedade, quando a nossa única responsabilidade é escolher quem vai continuar a fazer o mesmo ou pior. Que alternativas temos? É nosso dever e direito cívico escolher os nossos representantes. E os deveres dos nossos representantes quais são?
Acredito que muitos políticos, e Inês Medeiros é um exemplo disso, têm ideias boas e promovem iniciativas úteis – no caso dela as alterações á Lei 4/2008 sobre o regime laboral e de segurança social dos profissionais do espectáculo e audiovisual dizem-me particular respeito – só que pecam quando não assumem as falhas da classe. Ovelhas negras existem em toda a parte. Não é vergonhoso admiti-lo, mas é escondê-lo.
Nós não menosprezamos a instituição Parlamento, menosprezamos as pessoas que lá estão e que o tornam menosprezável. O que ninguém quer admitir é que o político não é mais do que um tuga aprumado. Eles fazem o que que qualquer um de nós faz, apenas em escala maior. Podemos mesmo criticá-los? Podemos, porém, nunca esquecendo que eles são nossos representantes. Os políticos são tão bons quanto a sociedade que os elege. Concluam a partir daqui.

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