30/03/11

TERMINUS 233: OS MAL LEMBRADOS

O saber dos Antigos continua a surpreender-me. Há quem faça pouco dos ditados populares, que olhe para eles com desdém; eu sigo-os como uma doutrina, a única doutrina que resiste a qualquer mudança de regime e de sociedade. Entre os muitos, existem três que eu gostaria de destacar por motivos que farei óbvios.
O primeiro desses ditados é: Devagar se vai ao longe. É verdade que depressa também se chega lá, mas se formos devagar apreciamos mais a viagem. E, no fim de contas, não é a viagem tão ou mais importante que o destino? Se forem devagar para o trabalho, não apreciam mais o tempo antes de chegar lá? Depois chegam atrasados, mas isso são outros quinhentos.
Em segundo lugar temos: Quem tudo quer, tudo perde. Não é uma lei escrita na pedra, é apenas probabilidades. Para alguém perder tudo, é porque em algum momento teve tudo. É um ditado que fala da ambição, mas também da força de vontade e do azar que toca a todos sem discriminação. E o que é querer ter TUDO? Como é que alguém pode querer TUDO? TUDO não é só o bom, é o mau também. Não são só as gajas, o dinheiro, a fama, o poder, são também as doenças venéreas, a sodomia, a esclerose-múltipla e um Governo Português. E assim se percebe melhor a segunda parte do ditado. Quem tudo tem, não perde tudo, apenas se “esquece” de tudo em algum lado, vem alguém e leva.
E por fim, um dos meus favoritos: O dinheiro não traz a felicidade. Nada mais verdadeiro. Reparem no meu caso: trabalho quase todos os dias, ganho o salário mínimo e ainda não tenho casa própria. Por outro lado, um sem-abrigo residente na Gare do Oriente, que não trabalha o que eu trabalho (mas que talvez até aufira mais do que eu), é considerado residente na Torre São Rafael. Vêem como o dinheiro não traz a felicidade? Ou, melhor, como a aparência de pobreza a traz? A felicidade, entenda-se.
Este caso dos Censos tem incomodado muita gente. Como cidadão informado e maduro, estes tumultos passam-me ao lado porque percebo aqui toda a sapiência popular. E não é só neste último ditado, é nos outros dois que referi e em tantos outros que não mencionei.
Olhem de novo para o primeiro ditado. Aposto que muitos sem-abrigos nem sequer desejavam serem inquilinos nas Torres São Rafael e São Gabriel. Ficaram parados na Gare do Oriente. E o que é estar parado, senão andar devagar muito lentamente? Não queriam ir devagar, não queriam ir depressa, e assim conseguiram ir até onde muitos desejavam.
E o que é um sem-abrigo senão alguém que perdeu tudo o que tinha? Alguns até perderam o que não tinham e assim recebem os seus dividendos da sociedade. A mesma sociedade que apenas lhe dá abrigo e comida por alturas festivas, é aquela que os coloca a residir em apartamentos de luxo. É apenas no papel, é verdade, mas não é hipocrisia. Longe disso. O verdadeiro sem-abrigo aprecia a liberdade de um espaço a céu aberto. Prefere a visão do firmamento à prisão de um tecto branco. Ao colocá-los numa falsa residência, estamos a cumprir o nosso propósito enquanto sociedade e a respeitar os seus desejos e tradições.

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