25/04/11

ESPECIAL: PONTE SALAZAR

Esta semana dei por mim a visitar o site Salazar, o Obreiro da Pátria. A razão da minha visita a esta site é facilmente explicável: cliquei num link para aceder a um site de bom cinema e em vez da Kate Frost ou da Lisa Ann, o que me apareceu foi o “Botas”.
A minha visita a este site, apesar de acidental, não foi em vão. Serviu para relembrar a existência de uma petição para renomear a Ponte 25 de Abril para Ponte Salazar. Antes de desbaratarmos a questão, é preciso tomarmos em consideração os argumentos apresentados. O que é que os defensores desta petição defendem? Muito sucintamente, defendem quatro pontos que todos nós podemos apreciar, ainda que possamos não concordar com eles quando aplicados a este contexto. Vejamos o texto da petição:


VAMOS REPÔR O NOME À PONTE SALAZAR
Meus amigos, vai sendo tempo de dizermos!
É urgente que as gerações não cresçam sobre a mentira;

Se para si a verdade histórica é importante;
Se o nome dos nossos maiores tem alguma importância histórica;
Se a justiça é elemento importante e determinante;
Se a verdade deve fazer parte de um Estado de Direito;

Então, lute pela verdade!

O primeiro aspecto que salta à vista é a existência de duas verdades: uma histórica e outra que talvez seja futurista. Sobre um facto podem existir várias opiniões, mas a informação objectiva é apenas uma. Exemplo: Portugal faz parte da União Europeia. Existem várias opiniões quanto a esta matéria, mas a verdade é apenas uma. Esclareçam lá isso, está bem?
O segundo aspecto a observar é este: Sidónio Pais foi ditador, Hintze Ribeiro queria ser ditador. E no entanto, temos toponímia nomeada por eles. Já escrevi sobre isto num artigo antigo: nós adoramos as pessoas da terra, nem que sejam o Hitler. É gente da terra, a malta gosta. Salazar ter uma ponte com o seu nome... pode ser. Mas na terra dele. É verdade que temos uma tendência para nos esquecermos de algumas figuras importantes da nossa história. E uma das razões pelas quais isso acontece é porque o passado é escamoteado e o ensino da História é sujeito ao crivo de quem está no poder. O ditado assim o afirma, “Dos fracos não reza a História.” A não ser quando têm algum amigo defensor no poder.
Por fim, justiça. É verdade que nem tudo foi mau durante os anos do Estado Novo. Assim como nem tudo foi bom nos últimos anos da Monarquia ou nos 16 anos da I República. Qualquer regime está sujeito a falhas; o problema é quando está fechado em si mesmo. Uma democracia que funciona mal, seja com Rei ou Presidente, é sempre preferível a uma ditadura que funciona bem.
As pessoas dizem que antigamente é que se estava bem, não havia nada destas poucas vergonhas. O “Ballett Rose”, para quem não sabe, não aconteceu a semana passada. O mal humano sempre existiu. Talvez não existisse tanto no tempo do senhor Oliveira Salazar e seu sucessor Marcelo porque o relato dos factos era condicionado. Quem diz que antigamente se vivia melhor, só pode ser porque conhecia pouco do mundo à sua volta. Hoje em dia, sabemos tudo. E só acreditamos que as coisas eram melhores naquela altura se formos ingénuos. Eram diferentes, ponto.
Em resumo, não concordo com esta petição. Todavia, não é tanto pelos argumentos que acabei de refutar. É por um motivo bem mais simples. Este ano não se vai assinalar o dia 25 de Abril na Assembleia da República. Parece que a realização da habitual sessão solene viola qualquer coisa na constituição, porque o Parlamento está dissolvido. Enfim, eles lá sabem. Para mim, a ponte sobre o Tejo deve continuar a ser Ponte 25 de Abril, mais que não seja para não corrermos o risco de a única referência à Revolução dos Cravos ser uma data no calendário.

24/04/11

TERMINUS 242: JESUS, COMO O QUEREMOS?

 
Um estudo publicado no International Journal of Obesity (Revista Internacional da Obesidade, aka Gordo's Digest), fez saber que a comida representada em imagens da Última Ceia quase que duplicou de proporção no último milénio. As imagens de Jesus e de outras figuras bíblicas sempre foram adaptadas à época em que eram criadas. Antigamente havia escassez de alimentos, hoje há abundância (ou, pelo menos, ideia de); é natural que o Jesus antigo comparado com o nosso seja um lingrinhas. A questão é: será que estas representações limitam-se a acompanhar a evolução dos tempos?
Desenhar muita comida na mesa da Última Ceia é a última etapa antes de começar a representar Jesus gordo. Depois disso surgirão as dúvidas: como é que o colocaram lá em cima na cruz?, será que fizeram como os egípcios?. Mas não é isso que me incomoda, melhor dizendo, não é isso que vos devia incomodar. O que vos devia incomodar são os pecados.
A gula, por exemplo. Representar daquela maneira Jesus na sua última refeição, com um farto banquete à frente, é fazer Dele, passe a expressão, um javardo à mesa. O Homem tem de aspirar a ser como Ele, não rebaixá-Lo até Ele ficar ao nível do Homem.
Outro pecado: o orgulho. Ter um Jesus orgulhoso da companhia e do catering e da música ambiente e dos cocktails não se coaduna com a imagem do Jesus humilde e simples que nos foi dado a conhecer.
Por fim, se os pecados não vos convencem, que tal um pouco de moral e bom senso?
As imagens de comida, por muito reais que pareçam, não matam fome. Mas podem influenciar pessoas a comer. Se a imagem estiver a ser vista por alguém com problemas de peso, apenas servirá para que a pessoa fique ainda mais gorda; se, pelo contrário, estiver a ser vista por alguém que não tem nada para comer, apenas será interpretada como um gesto de pirraça.
Jesus foi aquela figura, real ou mítica não interessa, que votava o abandono dos bens materiais em prol da solidariedade. É aquela figura que suscita esperança nas pessoas porque o que é divino Nele é a Sua proximidade com o Homem comum. Jesus era pobre, não era rico, não comia pão de sementes, nem bolos de cenoura, nem enguias, nem porco. O tipo era judeu! Um judeu a comer carne de porco? Já agora punham lá coelho e caranguejo também! Se é para contradizer, contradigam a sério!
O que estas imagens nos transmitem é um afastamento daquilo que era a mensagem de Jesus e uma aproximação àquilo que é a mensagem da Igreja Católica. Já falei nisto antes e torno a falar: se Jesus votava o abandono dos bens materiais, por que razão é que o seu representante máximo na Terra anda com roupas de seda, debruadas com fios de ouro, sapatos italianos do mais caro que há, mora num palácio e tem um ceptro de ouro a imitar o Gandalf?

16/04/11

TERMINUS 241: FUI AO JARDIM DA CELESTE...

 
Esta semana, um agente da PSP foi louvado pelo director nacional da PSP, pelos 18 anos de serviço prestados nas instalações da Direcção Nacional da Polícia, em Lisboa. Esta breve notícia, apresentada na última página do mais popular dos jornais de café, teria passado despercebida, não fosse o insólito dos motivos do louvor.
Perguntam vocês, os que não leram a notícia, por que razão foi condecorado este agente?
Pelo seu elevado zelo profissional, trato com os colegas e sentido de responsabilidade cívica?
Não.
Pelo número de casos que ajudou a encerrar?
Também não.
Pela celeridade com que preenchia os seus relatórios e o grau de objectividade que impunha nos mesmos?
Também não.
Pela sua bonita caligrafia?
Podia ser. Mas não foi.
Foi por algo muito mais bonito e bem cheiroso: flores. Este agente foi louvado pelo director nacional da PSP “pela forma hábil como fazia centros de mesa, usando flores e verduras colhidas nestas mesmas instalações”.
Os colegas souberam que um deles ia ser louvado, só não se sabia quem, e começaram logo a fazer apostas. A cara com que devem ter ficado ao chegar à cerimónia, todos ansiosos por ouvir o seu nome pronunciado, e...
“Então, mas eu farto-me de trabalhar, fico até às tantas a fazer relatórios, a mulher deixou-me, não tiro férias há três anos e o Jardim da Celeste é que é louvado?”
Não está certo.
Não contesto o empenho que este agente dedica aos seus trabalhos mas, do ponto de vista de relações públicas, não me sinto mais seguro por ter uma Polícia de Segurança Pública que distingue agentes por arranjos de flores e centros de mesa, por muito bonitos que sejam.
Outra coisa que me faz confusão nesta história. O agente fazia os seus trabalhos com flores e verduras colhidas naquelas instalações. Desde quando é que a Direcção Nacional da Polícia fica numa horta? Talvez a palavra correcta não fosse “colhidas” e sim “obtidas”. Continua a não fazer muito sentido. A Direcção Nacional da Polícia não fica num mercado municipal nem numa florista.
O único local, dentro da instituição, onde este agente pode ter obtido o seu material só pode ter sido na sala onde guardam as provas apreendidas. Se os tais centros de mesa foram feitos à base de papoilas, erva seca para dar um toquezinho e uma velinha para enfeitar, já não me choca ele ter sido louvado. Choca-me ter sido o único.

15/04/11

TERMINUS 240: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA #2: FERNANDO NOBRE


Quando eu era pequeno, tinha um casaco que era um dois em um. Não me recordo das cores, lembro-me que podia usá-lo do avesso, ou melhor, não podia, porque ele não tinha avesso. Este meu casaco de infância era das peças de roupa que eu mais apreciava e que estava arredado da minha mente consciente.
Até hoje.
Fernando Nobre, ex-candidato independente (sponsorado por alguns socialistas) à Presidência da República, foi convidado por Pedro Passos Coelho para ser o cabeça de lista por Lisboa e candidato a Presidente da Assembleia da República. O senhor da AMI aceitou o convite e depressa vieram as críticas. Houve até quem o chamasse “vira-casacas”. E foi aí que me lembrei do meu casaco.
Pronto, a parte da memória de infância já está. Vamos à parte actual.
Fernando Nobre aceitou ser candidato pelo PSD. E depois? É preciso enervar o homem ao ponto de ele se sentir obrigado a encerrar a sua página no Facebook? (Será que ninguém o ensinou a apagar comentários?). Na sua anterior candidatura, Fernando Nobre era apoiado por alguns históricos socialistas. É assim tão diferente de ser apoiado pelo PSD? Não me parece.
O que ninguém quer admitir é isto: ao aceitar o convite de Passos Coelho, Nobre demonstrou ter a postura de alguém que não se dá bem apenas com um nicho. Nobre já esteve ao lado dos Monárquicos, do PS, do BE, do PSD. É verdade que ignora muitos dos aspectos dos cargos a que se candidata. É o primeiro candidato a Presidente da Assembleia da República a apresentar um programa; imagino-o no seu primeiro dia de trabalho: “Onde é que eu me sento? E agora, que faço?”
Apesar de tudo isto, ninguém o pode acusar de não ser um candidato de todos os portugueses. Pelo contrário: Nobre não tem o problema de estar associado a um único partido, tem o problema exactamente oposto.
Por isso, não concordo que lhe chamem “vira-casacas”. Eu era um “vira-casacas”, casacos melhor dizendo, porque tinha um casaco que permitia isso. Não creio que Fernando Nobre tenha um desses casacos. Como tal, o termo pejorativo correcto a aplicar a senhor é “troca-casacos”. Perceberam?


14/04/11

TERMINUS 239: ANTES DAS ELEIÇÕES 3: ESTAMO AQUI


Uma notícia publicada recentemente dava conta que o Ministério das Finanças, com o propósito de aumentar a receita do Estado, andou a vender imóveis públicos a várias entidades. Ao todo, o Estado encaixou 355 milhões de euros por 466 imóveis. Nada mau! A notícia não teria nada de relevante, não fosse o facto de apenas 24 imóveis terem sido vendidos a entidades privadas. Os restantes 442 foram todos vendidos à Estamo, empresa pública do grupo Sagestamo.
Para quem está distraído com o pequeno-almoço ou com o semáforo que ficou verde (eu já não disse que ler o jornal no trânsito não é o mesmo que ouvir rádio?), aqui vai uma explicação mais simples. Imaginem que tenho duas canetas e que só me faz falta uma. E que preciso de dinheiro para comprar papel. Como tenho duas canetas, vendo uma. A quem? Sucede que tenho um porquinho mealheiro, com dinheiro meu. Parto o porquinho e tiro de lá o dinheiro para pagar a caneta e comprar o papel. Virtualmente, fico com papel e uma caneta, na realidade, fico com papel e duas canetas. Ora, eu não quero apontar o dedo a ninguém, nem tão pouco chamar nomes feios, mas... qual é a diferença entre isto e fraude?
A resposta é: azul. E azul porquê? Não sei. Mas é uma resposta que faz quase tanto sentido quanto este enredo. E o azul é uma cor que alguns autarcas gostam tanto. Está tudo ligado. Na verdade, não é que a situação me incomode ou me surpreenda muito. Os subterfúgios político-financeiros a que um Governo se presta já só surpreendem os mais incautos. Incomoda-me um pouco, mas é aquele tipo de incómodo que mais vale ignorar. A razão principal deste artigo tem a ver com empenho. Leu bem: empenho.
Estamos em Abril de 2011 e a notícia são os 355 milhões que o Estado pagou ao Estado. Em 2008 houve outro negócio igual, no qual o Estado encaixou (apenas) 147 milhões. Em três anos, o Estado conseguiu duplicar o valor da sua receita. Se isto não é empenho, não sei o que seja.
Dos 355 milhões de euros “lucrados”, apenas 7 milhões são reais, isto é, facturados a privados e não ao próprio Estado. O que significa que o Estado pagou-se 348 milhões. Tanto quanto sei o Estado não tem dupla personalidade. Uma coisa é o Primeiro-Ministro dizer cá dentro que está tudo bem e depois ir lá para fora dizer que está tudo mal; outra coisa são estes negócios.
O elemento semi-oculto nesta engrenagem é o défice. Vale tudo para reduzir o défice e a receita obtida (real e fictícia) neste negócio vai contribuir para isso. É uma maneira tão boa como qualquer outra de resolver o problema. O único senão é que não resolve nada. Vemos situações parecidas no CSI, quando criminosos tentam lavar o sangue das mãos, apenas para descobrirem que apenas disfarçaram, não resolveram nada. Aqui passa-se o mesmo. Estamos a embelezar os números. E quando o efeito do creme passar é que vamos penar.

12/04/11

OS "ZÉS" DE 2006


Nos meus vários anos como Facilitador de Acesso a Recursos de Aprendizagem em Universidades Autónomas e Novas, vivi e presenciei muitos momentos caricatos. Este post é dedicado a esses grandes protagonistas.


LISTA DE NOMEADOS

Prémio PERGUNTAS INOCENTES
Aluna – Tenho que levar tudo assim?
Aluna – Não me podes dar só uma?
Aluna – Pode ser dos dois lados?

Prémio RESPOSTAS INOCENTES
Aluna – Eu não deixei o meu casaco aqui há pouco?
Funcionário – Não. Da última vez que te vi, não tinhas nada vestido.

Alunos – Queremos ver o exames de Inteligência Artificial.
Funcionário – É só para vocês os dois?

Aluna – Não me podes tirar só estas cópias?
Funcionário – Dá-me só um bocadinho e eu tiro-te tudo.

Prémio PERGUNTAS NÃO APRAZÍVEIS
Aluno – Vocês ao Sábado também estão abertos?
Aluna – A que horas é que isto fecha?
Aluno – Isto abre a que horas?

Prémio COMENTÁRIOS INDESEJÁVEIS
Alunos – Vamos aproveitar agora que isto está vazio.
Aluna – Eu estou na minha vez. Eles estão comigo, mas eles vão pagar as cópias deles.
Aluno – Vou só ali levantar dinheiro. Venho já.

Prémio FACILITISMOS
Aluna – Era uma cópia deste livro. As duas primeiras páginas não é preciso tirar.

Funcionário – Era para encadernar.
Aluno – Argola ou baguete?
Funcionário – Dois agrafos. E não é preciso acetato.

Aluna – Posso deixar aqui este caderno para tirar duas cópias?
Funcionário – Sim.
Aluna – E o livro tem que ficar também?

Prémio DIFICULDADES DE COMPREENSÃO
Aluno – Quero uma cópia do caderno todo. Quanto tempo é que demora?
Funcionário – Meia hora. Mais ou menos.
Aluno – Não pode ser para as duas?
Funcionário – Que horas são agora?
Aluno – Faltam dez minutos.

Aluna – A professora não deixou cá uns apontamentos ontem?
Funcionário – Está tudo lá fora.
(…)
Aluna – Lá fora só estão aquelas listas. Onde é que estão os apontamentos?
Funcionário – Aqui dentro.
Aluna – Então porque é que disse que estavam lá fora?

Aluno – Quero fazer umas reduções.
Funcionário – De que tamanho?
Aluno – Pequenas.

Professora – Olhe, eu sou professora e tenho uma sebenta que ficou aí do ano passado e queria saber o que era preciso fazer para que ela seja colocada à disposição dos alunos.
Funcionário – É só dizer.
Professora – E como é que eu faço isso?

11/04/11

LENDA DE MONTEMOR-O-NOVO

Não sou de Montemor-o-Novo, nunca lá fui, mas gostei do poema.

LENDA DAS ARCAS

Entre escombros na rudeza
De vestuta fortaleza,
Batidas de vento agreste,
Empedernidas, cerradas,
Há duas arcas pejadas,
Uma de oiro outra de peste

Ninguém sabe ao certo qual
Das duas arcas encerra,
O fecundo manancial
Que fartará de oiro a terra
Mesquinha de Portugal;
Ou qual, se não imprudente
Lhe erguer a tampa funérea
Vomitará de repente
A fome, a febre, a miséria,
Que matará toda a gente

Sempre que o povo faminto,
Maltrapilho e miserando,
Fosse ele cristão ou moiro,
Entrou no tosco recinto
Para salvar-me arrombando

A arca pejada de oiro,
Quedou-se os braços erguidos,
O olhar atónito e errante,
Sem atinar de que lado
Vinha morrer-lhe aos ouvidos
Uma voz agonizante
Entre ameaças  e gemidos

"Ó povo de Montemor,
Se estás mal, se és desgraçado
Suspende, toma cuidado,
Que podes ficar pior!"

E nestas perplexidades
E eternas hesitações
Hão-de passar as idades,
Suceder-se as gerações

E continuar na rudeza,
Batidas de vento agreste,
Empedrenidas, cerradas
As duas arcas pejadas,
Uma de oiro outra de peste

10/04/11

CURTA-METRAGEM: O ATRASO

Para compensar uma possivelmente futura longa ausência, trago-vos hoje o resultado da minha primeira parceria cinematográfica com o amigo guerrilheiro, David Rebordão.

Tive a sorte de ver o meu primeiro guião de curta-metragem transformado num filme bem divertido e interessante. Assim como tive o privilégio de ver os personagens criados por mim ganharem vida através das interpretações magníficas de Canto e Castro (o saudoso!) e Tiago Castro (o "Crómio").

Foram tempos bons que marcaram o início do meu trajecto e que partilho aqui para os que conhecem, relembrarem e os restantes ficarem a conhecer.

video

09/04/11

TERMINUS 238: ANTES DAS ELEIÇÕES #2 - QUANTO DEVO AFINAL?

A dívida pública não pára de aumentar. É um crescimento que não se aguenta. Ao todo, a Administração Central já deve mais de 154,6 mil milhões de euros. O que dá à volta de 15 mil euros por português. Woo! Woo! (que onamatopeia mais estúpida esta!, e também a mais apropriada) Nunca imaginei que tivesse tanto dinheiro no bolso! Deixa cá ver quanto é que ainda tenho e...
Ah...! Devo tê-lo gasto todo no meu T-1 (lê-se “menos 1”) e em gomas. Ou será que não? Não me lembro de ter emprestado 15 mil euros a ninguém. Será que assinei alguma coisa que não devia? Vai na volta, fui fiador de alguém sem o saber. Ou então trocaram os números lá na Repartição. Também já tem acontecido.
Eu sei que o acto eleitoral não serve só para escolher os nossos representantes: serve também para dizer “É este que eu quero que gaste o meu dinheiro à parva. A gente depois paga.” Mas não deve ser daí que vem a dívida, espero eu. Porque, parecendo que não, ainda é um númerozinho simpático.
Era giro era saber quem é que abriu esta conta. Se for ainda do tempo da outra senhora, eu não pago. Uma coisa são dívidas contraídas quando eu já era contribuínte, outra coisa são dívidas contraídas quando eu nem sequer era projecto de gente.
A dívida dos Caminhos de Ferro, contraída no século XIX, só foi saldada no início deste milénio. Quanto à dívida actual, as opiniões dividem-se sobre se o FMI deve vir para cá ou não. Eu não tenho nada contra os senhores do FMI virem para cá. Desde que venham como turistas e que sejam tratados assim. Desvio por Queluz, Sintra, Massamá, no trajecto Portela-Ritz; IVA a 157% em todos os produtos que adquiram cá, etc. Tragam cá o FMI todo e levem-nos a conhecer os sítios que dão prejuízo. Façam-nos gastar dinheiro aí. É uma aposta no turismo e pode ser que resolva o problema das contas públicas.
Essa malta do FMI irrita-me. A lata deles a dizerem-nos onde é que podemos gastar o nosso dinheiro. Era a mesma coisa que chamarmos um tio contabilista para gerir o nosso dinheiro. Podemos estar endividados até aos ossos, mas ainda temos o nosso orgulho. E sabemos que as pessoas que nos conduziram a esta situação, com um pouco de amor e compreensão, serão capazes de nos tirar dela. Infelizmente, também sabemos que não vai ser para melhor.
Uma última nota: nunca empreguei tantas vezes o verbo “contraír”. Julgo que seja um sinal dos tempos. Ou então um mero acaso. Tirem as vossas ilações.

07/04/11

TERMINUS 237: MENDIGOS E RECIBOS

No sentido de resolver o problema do défice e, ao mesmo tempo, acabar com a pobreza, eis o meu contributo. Conto convosco para que isto chegue ao conhecimento das autoridades competentes.
1 – Todos os mendigos (mesmo os que residem em apartamentos de luxo) deverão ter um cartão de identificação que comprove o seu estatuto social. Os impressos terão desconto entre 1,50€ e 2,75€ (descontos para residentes em caixas de ar condicionado FNAC). Todos os mendigos de origem não-portuguesa terão de pagar um acréscimo de 0,50€ sobre o valor do impresso, valor esse que poderá triplicar caso sejam mendigos ilegais.
2- Este documento comprovativo poderá variar de caso para caso, consoante o grau de pobreza da pessoa em causa, e será sujeito a um sistema de cotas mensal, cujo valor será definido em sede parlamentar.
3 – Todos os mendigos serão obrigados a ter o seu cartão de identificação sempre visível. Caso não esteja, poderão continuar a beneficiar da chamada “esmola”, a não ser que o cidadão benemérito peça um comprovativo de situação, seja para certificação do estatuto, para verificação da validade do documento ou para efeitos de IRS.
4 – Todos os mendigos que aderirem a esta medida deverão dirigir-se à repartição de Finanças da sua área de pedinchice e requisitar uma senha para poder emitir recibos electrónicos.
5 – Por cada esmola recebida, o Estado cobrará 10% sobre o valor total.
6 – Todos os mendigos que não cumprirem estas normas serão considerados ilegais e, como tal, proibidos de receber qualquer tipo de esmola. Todos aqueles que, ainda que sem conhecimento, derem esmola a mendigos ilegais poderão ser considerados cúmplices de crime de burla.
7 – As penalizações relativas à violação das directrizes aqui propostas serão aplicadas conforme a legislação a ser aprovada na Assembleia da República.
(Agora é esperar que ninguém leve isto a sério.)

06/04/11

NÃO CONSEGUI PENSAR NUM TÍTULO DE JEITO PARA ISTO

É exactamente como o título diz. Ou parte do título, pelo menos. Não consegui pensar num título de jeito para pôr nisto. Pensei durante muito tempo mas; quer dizer, não foi muito muito tempo, foi só algum. O suficiente para me aperceber que era escusado, para não dizer estúpido (como esta mania estúpida de dizer as coisas apesar de dizermos que não as vamos dizer), perder tempo a pensar num título. Primeiro, porque não consegui. Essa é a grande verdade. Não Grande verdade com um “G” maiúsculo (e reparem que eu frisei que o “G” era maiúsculo ao colocá-lo em letra maiúscula (podia continuar a repetir isto o resto do livro, mas era capaz de se tornar chato)), apenas uma grande verdade; ou uma verdade razoável, se preferirem. Ou algo que não é mentira. Segundo porque ter um título implica um assunto para falar. Não é necessariamente obrigatório, mas ajuda. E eu não tenho forçosamente nada. Nem título (de jeito), nem assunto. Nada. Torna-se assim interessante saber como é que vou falar de um assunto. Mais interessante ainda porque, como já disse, não faço ideia do que é que vou falar. Mas tenho de falar de alguma coisa. Não quero que pensem que comecei isto à toa. Nunca comecei nada à toa e não será agora que vou começar. Gosto de deixar esse desempenho para o final (se chegar lá), já que é bastante mais humilhante. Sempre me disseram que sou muito metódico e organizado. Acho que estavam a ser simpáticos. Na verdade queriam dizer que eu era, sou, chato e aborrecido. Pelo menos foi isso que eu li nas entrelinhas. O problema é que o meu instinto é... Como é que hei-de dizer? Uma merda. Enganei-me várias vezes sobre o que algumas pessoas disseram, tanto pró bem como pró mal. Esta não seria a primeira. Nem será a última. Acho eu. Mas não gosto de me enganar. Às vezes engano-me. Todos nos enganamos de vez em quando. Mas com os enganos dos outros posso eu bem. Até certo ponto. Mais exactamente, até àquele ponto onde eu começo a ser afectado por eles. É nessa altura que se torna necessário tomar certas e determinadas medidas, se não para rectificar, pelo menos para impedir que o mesmo (ou algo do género) volte a acontecer. Chama-se a isso aprender com os erros. Tentativa e erro, como dizem alguns empiristas. (Os que não dizem é porque são mudos, mas podem sempre escrever. A não ser não saibam. Ou que estejam paralisados do pescoço para baixo.) Tive Filosofia quando andei no décimo e no décimo primeiro. Não era mau mas com 17 anos o pessoal quer é fumar passas e apanhar bebedeiras na tasca ao lado da escola e chegar a casa e vomitar pra carpete do que tar enfiado num calabouço a estudar Nietzche (paz à sua alma, Deus o tenha!). Da minha parte, eu dava-me bem; não estudava mas ia passando. Mas, a nível de alucinações, não posso deixar de referi-las, eram eram reais. Naquela altura elas eram muito reais. Não apenas no pessoal que fumava passas (e ainda fuma, tanto quanto sei) mas mais ainda no pessoal que passava o tempo livre a estudar Lógica em vez de ir prá tasca em frente à escola. Eram dias e dias passados assim, cada grupo no seu lado. Casos raros também eram aqueles, muito poucos mesmo, quase não vale a pena falar deles (mas depois acusavam-me de menosprezar as minorias), que não só passavam as tardes a estudar, como o local de estudo era a tasca. Talvez tenha sido por causa de pessoas assim, que alguns cafés (o estabelecimento, não a bebida) proibem o estudo no interior da sua superfície. Eram outros tempos. Tempos em que a lógica do professor de Filosofia era algo do género como: Se eu estou a dar aula aqui e tenho a turma à minha frente, então devo olhar para a frente. Porém, se olhando para o lado esquerdo, tenho a janela, e lá fora uma gaja boa, nesse caso só me resta uma opção. Qual era? Ficar o resto da aula a olhar lá para fora. Atenção, não pensem que ele era pedófilo. Ela é que era burra. 20 anos e ainda no décimo, ainda por cima num dia de Verão escaldante com um vestido justo e generosamente curto cujo único senão era estar a ser usado naquele momento, ela queria o quê? Que ele a mandasse embora? Não podia. Nem o pessoal deixava. Era como um peep-show, daqueles que há na rua... aquela entre a Rua do Ouro e a Rua Augusta, como nunca fui lá não me lembro do nome. A sério que não fui. Aquilo era quase um peep-show. Quase. Haviam algumas diferenças. A primeira era que ela não se despia. Tristemente, nem sequer dançava nem fazia nada para chamar a atenção. Não precisava. Apenas comia um gelado. O que (belo callipo, desculpem a publicidade) já ajudava a formular diversos filmes na cabeça de quem a observava. Segundo, porque não precisávamos de pagar para tar a ver. Houve alguém que pensou que talvez ela fizesse alguma coisa se alguém lhe desse dinheiro, atirou quinhentos paus (na altura ainda não havia o Euro, nem em circulação nem nada, nem se falava do ECU) da janela do primeiro andar. O otário, como toda a escola passou a chamá-lo, e todos os observadores (mulheres inclusive) viram ela agachar-se, pegar na nota e ir-se embora. Contam que terá ido para a tasca ter com o pessoal que tava lá, os alucinados. Não sei se eles facturaram alguma coisa ou não. Ela ganhou quinhentos paus e gastou-os logo. Hoje tá toda queimada. Idas à discoteca, ácidos, comprimidos e pastilhas. Tiveram um efeito negativo na sua pessoa. Houve outras pessoas também alucinadas que hoje estão sóbrias (tão sóbrias que até fazem impressão), os sóbrios que agora são alucinados, os alucinados que são ainda mais alucinados e os sóbrios que continuam sóbrios. Eu não sei como é que estou. Para saber isso tenho que saber como estava na altura e disso já não me lembro. Não gosto de tecer considerações a nível físico ou psicológico sobre mim mesmo. Fisicamente, posso dizer que sou alto ou baixo, sou de estatura média; psicologicamente é diferente. Primeiro o escalão alto ou baixo não se aplica, o que obriga pensar em formas diferentes de avaliação. Não consigo dizer se as pessoas têm razão quando dizem que eu, nas suas palavras, “não bato bem da bola.” Esta é uma expressão que nunca consegui perceber. Se fosse “não bato bem a bola”, tudo bem, já percebia e até tinha a sua razão de ser dada a minha fraca afinidade com desportos envolvendo bolas (não é fobia, sou eu que não gosto e pronto). Nesse caso, seria uma afirmação lógica. Ou quase. Não teria propriamente muito a ver com o meu perfil psicológico, mas pelo menos sempre faria algum sentido.

05/04/11

TERMINUS 236: SPIDER-BONER-MAN

Vocês nem imaginam o grato que eu fico quando certas descobertas da Humanidade não coincidem com certas criações da humanidade. Segundo um estudo publicado por um grupo de cientistas do Medical College, do estado da Geórgia, a picada da aranha Armadeira pode provocar uma erecção de quatro horas. E eu suspiro de alívio. Não pela descoberta em si que, felizmente, não me é necessária, mas por Stan Lee ter criado o Homem-Aranha nos anos 60.
Eu adoro o Homem-Aranha, é um dos meus personagens de Comics preferidos. No entanto, sou o primeiro a admitir que o senhor Stan Lee deve ter fumado umas cenas bem loucas para criar aqueles personagens todos. Estávamos nos anos 60 afinal de contas.
Imaginem a criação do Hulk. Um choninhas que leva com uma bomba em cima e depois quando se zanga, fica bué grande e forte e verde. Que tempero andamos a pôr na salada, senhor Lee?
O quarteto fantástico era outra: três homens e uma mulher que vão numa nave e a nave é bombardeada com radiação cósmica e um fica com pele de pedra, o outro estica-se até mais não, o terceiro fica em chamas e a gaja deixa-se de ver. Detecto aqui algum problema com mulheres?
A origem do Homem-Aranha está numa visita de estudo que o seu alter-ego, Peter Parker, faz a um museu ou laboratório (conforme a versão que conheçam), onde é picado por uma aranha radioactiva. Pouco tempo depois, Peter apercebe-se que possui as mesmas faculdades da aranha. Imaginem lá se tivesse sido picado pela tal aranha Armadeira.
Uau Peter! Não sabia que estavas assim tão interessado em mim!”
Desculpa, Mary Jane. É o meu sensor de perigo. Alguém está a assaltar um banco neste momento.”
Ou então,
Parado facínora! Deixa já essa pobre idosa em paz antes que te parta a boca toda!”
O facínora, assustado, foge a sete pés. O Homem-Aranha aproxima-se para ver se a senhora está bem e ela, ao ver a “tenda”, agride-o com a sua compacta mas pesada bolsa.
Desavergonhado! Sem vergonha! Acudam! Malandros! Querem-me violar!”
Não seria o mesmo herói com que eu cresci. No entanto, não me sai da cabeça que, mais dia menos dia, a Marvel estará a publicar uma nova reformulação da origem do herói. E a essa outras se seguirão.

04/04/11

OLD STORY: 3x1

Esta é a história de Joel, uma criatura mítica conhecida por todos que é na verdade três pessoas distintas. Joel é composto por três Joeis: um Ruben Joel, um Joel Marco e um terceiro Joel que não tem primeiro ou segundo nome, mas apenas o seu. Embora de origens díspares, todos os três eram vivos e concentravam as suas presenças físicas semanalmente na cidade (daqui em diante designada por “Barreiro”).
Sim, Joel convivia no Barreiro e isso tornava-o uma criatura simplesmente complexa do ponto de vista metafísico de um estrábico zarolho.
A vida, ou as vidas de Joel eram passadas no mais pleno ócio (e isso só era interrompido nos momentos em que decidiam não fazer nada. Apesar disso, unia-os uma forte consciência cívica e uma preocupação genuína pelos assuntos que preocupam o mundo como, por exemplo, a Shakira tem silicone ou não?
Joel, nas suas três variantes, procurava respostas a esse tipo de questões. Um dos Joeis, o sem nome antes ou depois daquele que é o seu, pensava nos tempos vividos em terras nabantinas em que uma tasca servia três tipos de caracóis: os pequenos, os grandes e os grelhados. Outros tempos em que era fácil ser autarca sem ser preciso fugir para o Brasil ou partir um banco de jardim à paulada.
No Barreiro era assim que as coisas se passavam e não havia motivo para mudá-las. Infelizmente, o ritmo boémio em que Joel vivia estava prestes a ser quebrado.
Certa noite, Joel e Joel conversavam com Joel quando sentiram uma estranha presença. Habitualmente essa presença seria considerada como uma manifestação fisiológica do ser até há pouco conhecido por “candidato”, mas que neste momento possui nome de peça de loiça. Porém, não era o caso. Desta vez, essa presença era uma criatura que era a personificação do mal na forma de revista de bordados e macramé.
Determinados a fazer um naperon, os três Joeis dividiram-se para decidir qual o próximo passo a dar. Um, está neste preciso momento a escrever isto; quanto aos outros, não se sabe bem.
A ideia do naperon logo foi abandonada quando Ruben Joel se apercebeu que o ímpeto pelos três sentido não havia sido mais que uma forte influência de um agente externo muito poderoso. Outros chamariam a isso álcool, outros erva, mas quem escreve é quem sabe, portanto, era um agente externo muito poderoso e ponto final.
Contudo, apesar de não existir, a ameaça persistia e era preciso acabar com ela. Joel Marco decidiu invocar entidades superiores cantando a música dos “Patinhos” em versão gospell enquanto batia palmas alegremente. Infelizmente, além de não ter qualquer efeito prático, esse acto só serviu para que Ruben Joel e Joel troçassem veemente das atitudes de Joel Marco.
Ruben Joel, por sua vez, começou a fazer estalinhos com a língua, esperando assim actuar no espectro sonocrómico de modo a atordoar a criatura. Joel, o simples, havia desenhado um belo padrão num bilhete de autocarro usado e estava disposto a fazer uma toalha de mesa.
Foi então que se aperceberam que a ameaça era real. Era uma criatura vil e cruel que os estava a influenciar e não eles próprios. Assim sendo, resolveram concentrar esforços e pensar num plano.
Ora, como o que há mais aí são pessoas à procura de planos para derrotar criaturas vis e cruéis que não existem, vamos manter o plano para nós porque essas pessoas não interessam nem ao menino Jesus.
Instantes depois, Joel, nos seus três formatos, chegava ao Covil onde adquiriram uma garrafa do elixir de que necessitavam para apaziguar a criatura.
Vai buscar um copo!”, disse um Joel.
A criatura obedeceu e Joel aproveitou a oportunidade para fugir.

03/04/11

TERMINUS 235: O EGAS E O BECAS

 É inegável a importância que “A Rua Sésamo”, na sua versão portuguesa, teve junto da minha geração. Foi a série que nos deu a conhecer grandes actores como o Monstro das Bolachas, o Gualter, o Poupas e o Ferrão. Os humanos não estavam mal, mas captava mais naturalidade das figuras de esponja e lã do que de alguns actores. Os bonecos tinham um comportamento mais próximo do meu. Exemplo: via-me a imitar o Monstro das Bolachas, comendo desaldamente um pacote de línguas de gato; todavia, não me imaginava a imitar um humano a repreender o Monstro das Bolachas por não ter preceitos à mesa.
Esta naturalidade de comportamentos que os bonecos demonstravam tornavam-nos mais humanos que os próprios humanos e davam a conhecer ao seu público infantil realidades desconhecidas. Enquanto crianças, somos, em simultâneo, os mais malvados e os mais inocentes. Malvados porque dizemos tudo sem pudor, inocentes porque não vemos mal nenhum nisso. Era o caso do Ferrão, que vivia num caixote do lixo e passava o tempo a reclamar de tudo. Não entendia então porquê. Entendi depois: ele vivia num caixote de lixo. Havia de estar contente com o quê? Era o caso do Monstro das Bolachas, que alertava para os perigos da diabetes e da obsidade mórbida. E era o caso do Egas e do Becas.
Há pouco tempo descobri acerca das teorias que consideram Egas e Becas um casal gay. No episódio “The Outing” da série Seinfeld, considerou-se como gay, alguém nos seus trinta, solteiro, sempre organizado e aprumado. Era um estereótipo assumido para brincar com o estereótipo em si. Egas e Becas inserem-se em algum estereótipo? Vejamos.
Egas e do Becas eram dois bonecos que viviam no mesmo apartamento e que concordavam e discordavam um do outro. Não me recordo se a sua casa era exemplo de boa decoração de interiores. Também não me parece que as suas roupas fossem um bom exemplo de guarda-roupa gay, mas assumo a minha ignorância nessa matéria. Era óbvio que existia uma relação próxima entre si. Mas seriam mesmo mais do que simples amigos? Porque não primos? Ou irmãos? Por não se conhecer outro cenário das suas vidas que não aquele, teorizou-se algo que pode não ser verdade.
Não me incomoda que o Egas e o Becas sejam um casal gay, não me incomoda que o Poupas seja um agarrado aos ácidos ou que o Ferrão seja o traficante lá da rua. São maus comportamentos humanos, mas é nisso que a Rua Sésamo se distingue. Não nos mostra apenas o lado bom da sociedade. Mostra também o mau. Ainda que não o assuma.

01/04/11

TERMINUS 234: UM EXEMPLO A (PER)SEGUIR

 A TVI prepara-se para estrear um reality show intitulado “Mulheres Ricas”. O título só não é “Ricas Mulheres”, porque, a julgar pelas declarações de certas convidadas, a única coisa que se aproveita desta gente é mesmo o dinheiro. Uma dessas aves raras, que dá pelo nome de Lili Caneças, considera que este reality show pode ser uma ajuda para telespectadores “fartos da miséria.” Até aqui eu dou-lhe a razão. Sou da opinião que a televisão não deve apenas informar e educar, deve também entreter, fazer a pessoa imaginar-se numa vida diferente e melhor. Servindo este propósito, nada teria a obstar às declarações da senhora, caso ela não tivesse continuado.
À observação prática seguiu-se a asneira. “Se virem pessoas que vivem bem, podem pensar que, se trabalharem, também podem ter uma vida assim”. Pois... E de que tipo de trabalho é que estamos a falar? Nem todos querem ou conseguem se curvar dessa maneira, minha senhora. E mesmo que fosse assim tão fácil alcançar a vida das figuras do nosso jet set, será que desejaríamos isso? O que têm elas para nos oferecer senão aparências sem conteúdo?
O nosso problema, diz ela, é nós sermos tão acomodados quanto invejosos. E o problema dela é não ter quem lhe explique o que essas palavras querem dizer. “Na Índia não há inveja; os pobres aceitam que foi Deus que os fez assim e não invejam os ricos... Caso contrário, aquela imensidão de gente matava os marajá todos.” Lili, não dês ideias, olha que nós somos invejosos. E um invejoso tende a mover-se até alcançar o seu objectivo. Por outro lado, somos também acomodados e poderemos optar por aguardar que esse objectivo venha até nós. Pessoalmente, estou indeciso entre queimar fogo ao jet set todo ou deixar-me ficar acomodado enquanto o jet set entra em combustão espontânea.
A Lili diz que as fantasias de luxo são como uma espécie de cenoura à frente dos olhos. Fico contente por saber que existem várias espécies de cenoura, embora não indique a qual delas se refere, mas convém não esquecer quem na história vai atrás da cenoura. Lili Caneças pode não ter inteligência para muita coisa, mas sabe que quem vai atrás da cenoura são os burros. Pode ter todos os defeitos e mais alguns, mas ninguém a pode acusar de não conhecer o seu público.