25/04/11

ESPECIAL: PONTE SALAZAR

Esta semana dei por mim a visitar o site Salazar, o Obreiro da Pátria. A razão da minha visita a esta site é facilmente explicável: cliquei num link para aceder a um site de bom cinema e em vez da Kate Frost ou da Lisa Ann, o que me apareceu foi o “Botas”.
A minha visita a este site, apesar de acidental, não foi em vão. Serviu para relembrar a existência de uma petição para renomear a Ponte 25 de Abril para Ponte Salazar. Antes de desbaratarmos a questão, é preciso tomarmos em consideração os argumentos apresentados. O que é que os defensores desta petição defendem? Muito sucintamente, defendem quatro pontos que todos nós podemos apreciar, ainda que possamos não concordar com eles quando aplicados a este contexto. Vejamos o texto da petição:


VAMOS REPÔR O NOME À PONTE SALAZAR
Meus amigos, vai sendo tempo de dizermos!
É urgente que as gerações não cresçam sobre a mentira;

Se para si a verdade histórica é importante;
Se o nome dos nossos maiores tem alguma importância histórica;
Se a justiça é elemento importante e determinante;
Se a verdade deve fazer parte de um Estado de Direito;

Então, lute pela verdade!

O primeiro aspecto que salta à vista é a existência de duas verdades: uma histórica e outra que talvez seja futurista. Sobre um facto podem existir várias opiniões, mas a informação objectiva é apenas uma. Exemplo: Portugal faz parte da União Europeia. Existem várias opiniões quanto a esta matéria, mas a verdade é apenas uma. Esclareçam lá isso, está bem?
O segundo aspecto a observar é este: Sidónio Pais foi ditador, Hintze Ribeiro queria ser ditador. E no entanto, temos toponímia nomeada por eles. Já escrevi sobre isto num artigo antigo: nós adoramos as pessoas da terra, nem que sejam o Hitler. É gente da terra, a malta gosta. Salazar ter uma ponte com o seu nome... pode ser. Mas na terra dele. É verdade que temos uma tendência para nos esquecermos de algumas figuras importantes da nossa história. E uma das razões pelas quais isso acontece é porque o passado é escamoteado e o ensino da História é sujeito ao crivo de quem está no poder. O ditado assim o afirma, “Dos fracos não reza a História.” A não ser quando têm algum amigo defensor no poder.
Por fim, justiça. É verdade que nem tudo foi mau durante os anos do Estado Novo. Assim como nem tudo foi bom nos últimos anos da Monarquia ou nos 16 anos da I República. Qualquer regime está sujeito a falhas; o problema é quando está fechado em si mesmo. Uma democracia que funciona mal, seja com Rei ou Presidente, é sempre preferível a uma ditadura que funciona bem.
As pessoas dizem que antigamente é que se estava bem, não havia nada destas poucas vergonhas. O “Ballett Rose”, para quem não sabe, não aconteceu a semana passada. O mal humano sempre existiu. Talvez não existisse tanto no tempo do senhor Oliveira Salazar e seu sucessor Marcelo porque o relato dos factos era condicionado. Quem diz que antigamente se vivia melhor, só pode ser porque conhecia pouco do mundo à sua volta. Hoje em dia, sabemos tudo. E só acreditamos que as coisas eram melhores naquela altura se formos ingénuos. Eram diferentes, ponto.
Em resumo, não concordo com esta petição. Todavia, não é tanto pelos argumentos que acabei de refutar. É por um motivo bem mais simples. Este ano não se vai assinalar o dia 25 de Abril na Assembleia da República. Parece que a realização da habitual sessão solene viola qualquer coisa na constituição, porque o Parlamento está dissolvido. Enfim, eles lá sabem. Para mim, a ponte sobre o Tejo deve continuar a ser Ponte 25 de Abril, mais que não seja para não corrermos o risco de a única referência à Revolução dos Cravos ser uma data no calendário.

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