06/04/11

NÃO CONSEGUI PENSAR NUM TÍTULO DE JEITO PARA ISTO

É exactamente como o título diz. Ou parte do título, pelo menos. Não consegui pensar num título de jeito para pôr nisto. Pensei durante muito tempo mas; quer dizer, não foi muito muito tempo, foi só algum. O suficiente para me aperceber que era escusado, para não dizer estúpido (como esta mania estúpida de dizer as coisas apesar de dizermos que não as vamos dizer), perder tempo a pensar num título. Primeiro, porque não consegui. Essa é a grande verdade. Não Grande verdade com um “G” maiúsculo (e reparem que eu frisei que o “G” era maiúsculo ao colocá-lo em letra maiúscula (podia continuar a repetir isto o resto do livro, mas era capaz de se tornar chato)), apenas uma grande verdade; ou uma verdade razoável, se preferirem. Ou algo que não é mentira. Segundo porque ter um título implica um assunto para falar. Não é necessariamente obrigatório, mas ajuda. E eu não tenho forçosamente nada. Nem título (de jeito), nem assunto. Nada. Torna-se assim interessante saber como é que vou falar de um assunto. Mais interessante ainda porque, como já disse, não faço ideia do que é que vou falar. Mas tenho de falar de alguma coisa. Não quero que pensem que comecei isto à toa. Nunca comecei nada à toa e não será agora que vou começar. Gosto de deixar esse desempenho para o final (se chegar lá), já que é bastante mais humilhante. Sempre me disseram que sou muito metódico e organizado. Acho que estavam a ser simpáticos. Na verdade queriam dizer que eu era, sou, chato e aborrecido. Pelo menos foi isso que eu li nas entrelinhas. O problema é que o meu instinto é... Como é que hei-de dizer? Uma merda. Enganei-me várias vezes sobre o que algumas pessoas disseram, tanto pró bem como pró mal. Esta não seria a primeira. Nem será a última. Acho eu. Mas não gosto de me enganar. Às vezes engano-me. Todos nos enganamos de vez em quando. Mas com os enganos dos outros posso eu bem. Até certo ponto. Mais exactamente, até àquele ponto onde eu começo a ser afectado por eles. É nessa altura que se torna necessário tomar certas e determinadas medidas, se não para rectificar, pelo menos para impedir que o mesmo (ou algo do género) volte a acontecer. Chama-se a isso aprender com os erros. Tentativa e erro, como dizem alguns empiristas. (Os que não dizem é porque são mudos, mas podem sempre escrever. A não ser não saibam. Ou que estejam paralisados do pescoço para baixo.) Tive Filosofia quando andei no décimo e no décimo primeiro. Não era mau mas com 17 anos o pessoal quer é fumar passas e apanhar bebedeiras na tasca ao lado da escola e chegar a casa e vomitar pra carpete do que tar enfiado num calabouço a estudar Nietzche (paz à sua alma, Deus o tenha!). Da minha parte, eu dava-me bem; não estudava mas ia passando. Mas, a nível de alucinações, não posso deixar de referi-las, eram eram reais. Naquela altura elas eram muito reais. Não apenas no pessoal que fumava passas (e ainda fuma, tanto quanto sei) mas mais ainda no pessoal que passava o tempo livre a estudar Lógica em vez de ir prá tasca em frente à escola. Eram dias e dias passados assim, cada grupo no seu lado. Casos raros também eram aqueles, muito poucos mesmo, quase não vale a pena falar deles (mas depois acusavam-me de menosprezar as minorias), que não só passavam as tardes a estudar, como o local de estudo era a tasca. Talvez tenha sido por causa de pessoas assim, que alguns cafés (o estabelecimento, não a bebida) proibem o estudo no interior da sua superfície. Eram outros tempos. Tempos em que a lógica do professor de Filosofia era algo do género como: Se eu estou a dar aula aqui e tenho a turma à minha frente, então devo olhar para a frente. Porém, se olhando para o lado esquerdo, tenho a janela, e lá fora uma gaja boa, nesse caso só me resta uma opção. Qual era? Ficar o resto da aula a olhar lá para fora. Atenção, não pensem que ele era pedófilo. Ela é que era burra. 20 anos e ainda no décimo, ainda por cima num dia de Verão escaldante com um vestido justo e generosamente curto cujo único senão era estar a ser usado naquele momento, ela queria o quê? Que ele a mandasse embora? Não podia. Nem o pessoal deixava. Era como um peep-show, daqueles que há na rua... aquela entre a Rua do Ouro e a Rua Augusta, como nunca fui lá não me lembro do nome. A sério que não fui. Aquilo era quase um peep-show. Quase. Haviam algumas diferenças. A primeira era que ela não se despia. Tristemente, nem sequer dançava nem fazia nada para chamar a atenção. Não precisava. Apenas comia um gelado. O que (belo callipo, desculpem a publicidade) já ajudava a formular diversos filmes na cabeça de quem a observava. Segundo, porque não precisávamos de pagar para tar a ver. Houve alguém que pensou que talvez ela fizesse alguma coisa se alguém lhe desse dinheiro, atirou quinhentos paus (na altura ainda não havia o Euro, nem em circulação nem nada, nem se falava do ECU) da janela do primeiro andar. O otário, como toda a escola passou a chamá-lo, e todos os observadores (mulheres inclusive) viram ela agachar-se, pegar na nota e ir-se embora. Contam que terá ido para a tasca ter com o pessoal que tava lá, os alucinados. Não sei se eles facturaram alguma coisa ou não. Ela ganhou quinhentos paus e gastou-os logo. Hoje tá toda queimada. Idas à discoteca, ácidos, comprimidos e pastilhas. Tiveram um efeito negativo na sua pessoa. Houve outras pessoas também alucinadas que hoje estão sóbrias (tão sóbrias que até fazem impressão), os sóbrios que agora são alucinados, os alucinados que são ainda mais alucinados e os sóbrios que continuam sóbrios. Eu não sei como é que estou. Para saber isso tenho que saber como estava na altura e disso já não me lembro. Não gosto de tecer considerações a nível físico ou psicológico sobre mim mesmo. Fisicamente, posso dizer que sou alto ou baixo, sou de estatura média; psicologicamente é diferente. Primeiro o escalão alto ou baixo não se aplica, o que obriga pensar em formas diferentes de avaliação. Não consigo dizer se as pessoas têm razão quando dizem que eu, nas suas palavras, “não bato bem da bola.” Esta é uma expressão que nunca consegui perceber. Se fosse “não bato bem a bola”, tudo bem, já percebia e até tinha a sua razão de ser dada a minha fraca afinidade com desportos envolvendo bolas (não é fobia, sou eu que não gosto e pronto). Nesse caso, seria uma afirmação lógica. Ou quase. Não teria propriamente muito a ver com o meu perfil psicológico, mas pelo menos sempre faria algum sentido.

Sem comentários: