01/04/11

TERMINUS 234: UM EXEMPLO A (PER)SEGUIR

 A TVI prepara-se para estrear um reality show intitulado “Mulheres Ricas”. O título só não é “Ricas Mulheres”, porque, a julgar pelas declarações de certas convidadas, a única coisa que se aproveita desta gente é mesmo o dinheiro. Uma dessas aves raras, que dá pelo nome de Lili Caneças, considera que este reality show pode ser uma ajuda para telespectadores “fartos da miséria.” Até aqui eu dou-lhe a razão. Sou da opinião que a televisão não deve apenas informar e educar, deve também entreter, fazer a pessoa imaginar-se numa vida diferente e melhor. Servindo este propósito, nada teria a obstar às declarações da senhora, caso ela não tivesse continuado.
À observação prática seguiu-se a asneira. “Se virem pessoas que vivem bem, podem pensar que, se trabalharem, também podem ter uma vida assim”. Pois... E de que tipo de trabalho é que estamos a falar? Nem todos querem ou conseguem se curvar dessa maneira, minha senhora. E mesmo que fosse assim tão fácil alcançar a vida das figuras do nosso jet set, será que desejaríamos isso? O que têm elas para nos oferecer senão aparências sem conteúdo?
O nosso problema, diz ela, é nós sermos tão acomodados quanto invejosos. E o problema dela é não ter quem lhe explique o que essas palavras querem dizer. “Na Índia não há inveja; os pobres aceitam que foi Deus que os fez assim e não invejam os ricos... Caso contrário, aquela imensidão de gente matava os marajá todos.” Lili, não dês ideias, olha que nós somos invejosos. E um invejoso tende a mover-se até alcançar o seu objectivo. Por outro lado, somos também acomodados e poderemos optar por aguardar que esse objectivo venha até nós. Pessoalmente, estou indeciso entre queimar fogo ao jet set todo ou deixar-me ficar acomodado enquanto o jet set entra em combustão espontânea.
A Lili diz que as fantasias de luxo são como uma espécie de cenoura à frente dos olhos. Fico contente por saber que existem várias espécies de cenoura, embora não indique a qual delas se refere, mas convém não esquecer quem na história vai atrás da cenoura. Lili Caneças pode não ter inteligência para muita coisa, mas sabe que quem vai atrás da cenoura são os burros. Pode ter todos os defeitos e mais alguns, mas ninguém a pode acusar de não conhecer o seu público.

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