03/04/11

TERMINUS 235: O EGAS E O BECAS

 É inegável a importância que “A Rua Sésamo”, na sua versão portuguesa, teve junto da minha geração. Foi a série que nos deu a conhecer grandes actores como o Monstro das Bolachas, o Gualter, o Poupas e o Ferrão. Os humanos não estavam mal, mas captava mais naturalidade das figuras de esponja e lã do que de alguns actores. Os bonecos tinham um comportamento mais próximo do meu. Exemplo: via-me a imitar o Monstro das Bolachas, comendo desaldamente um pacote de línguas de gato; todavia, não me imaginava a imitar um humano a repreender o Monstro das Bolachas por não ter preceitos à mesa.
Esta naturalidade de comportamentos que os bonecos demonstravam tornavam-nos mais humanos que os próprios humanos e davam a conhecer ao seu público infantil realidades desconhecidas. Enquanto crianças, somos, em simultâneo, os mais malvados e os mais inocentes. Malvados porque dizemos tudo sem pudor, inocentes porque não vemos mal nenhum nisso. Era o caso do Ferrão, que vivia num caixote do lixo e passava o tempo a reclamar de tudo. Não entendia então porquê. Entendi depois: ele vivia num caixote de lixo. Havia de estar contente com o quê? Era o caso do Monstro das Bolachas, que alertava para os perigos da diabetes e da obsidade mórbida. E era o caso do Egas e do Becas.
Há pouco tempo descobri acerca das teorias que consideram Egas e Becas um casal gay. No episódio “The Outing” da série Seinfeld, considerou-se como gay, alguém nos seus trinta, solteiro, sempre organizado e aprumado. Era um estereótipo assumido para brincar com o estereótipo em si. Egas e Becas inserem-se em algum estereótipo? Vejamos.
Egas e do Becas eram dois bonecos que viviam no mesmo apartamento e que concordavam e discordavam um do outro. Não me recordo se a sua casa era exemplo de boa decoração de interiores. Também não me parece que as suas roupas fossem um bom exemplo de guarda-roupa gay, mas assumo a minha ignorância nessa matéria. Era óbvio que existia uma relação próxima entre si. Mas seriam mesmo mais do que simples amigos? Porque não primos? Ou irmãos? Por não se conhecer outro cenário das suas vidas que não aquele, teorizou-se algo que pode não ser verdade.
Não me incomoda que o Egas e o Becas sejam um casal gay, não me incomoda que o Poupas seja um agarrado aos ácidos ou que o Ferrão seja o traficante lá da rua. São maus comportamentos humanos, mas é nisso que a Rua Sésamo se distingue. Não nos mostra apenas o lado bom da sociedade. Mostra também o mau. Ainda que não o assuma.

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