04/05/11

TERMINUS 243: O JOGO DAS APARÊNCIAS

Não gosto de subentendidos na vida real. Também não gosto de excesso de exposição. Tal como em tudo na vida, aprecio o equilíbrio. Não dizemos o que pensamos, tentamos não transparecer aquilo que não estamos mas queríamos dizer.
As mulheres, por exemplo. Não só mulheres, homens também. Quando alguém vos diz, num tom casual, “Não é querer ser indiscreto”, vocês não notam a ansiedade na voz, como se vos estivessem a perguntar, “Conta! Conta! Vá lá!”? Ou por exemplo, “Tás a olhar pra onde?” E aquela verruga enorme no nariz da qual vocês não conseguem desviar os olhos. Não é o mesmo que dizer, “Sim, sou feio! E depois?”
Nós humanos, somos superficiais. Elogiamos sempre o interior da pessoa. Dizemos que o que está dentro é que conta. Costuma-se dizer "quem vê caras, não vê corações". Óbvio. Quando olho para a cara de alguém espero ver uma cara e não um órgão interno. Mesmo quando falamos daquelas pessoas com as chamadas faces de glúteos (não é assim que se chama, mas vocês perceberam onde eu quis chegar e não foi preciso baixar o nível), mesmo nessas alturas, é apenas uma expressão. Não passa daí. Nós somos assim: superficiais. Não há como negar.
Gastam-se rios de dinheiro em cosmética – a fabricar, a divulgar e a consumir. E é um investimento supérfluo. Ninguém morre se não usar creme hidratante. É o luxo. A preocupação em parecer o que não somos. Quem é feio, é feio. Ponto final. Não há nada a fazer.
Irrita-me esta preocupação estúpida com o aspecto. Porque há pessoas com doenças de pele mais graves do que pele oleosa e o argumento para a falta de tratamento é o pouco número de casos existentes. No entanto, são gastos rios de dinheiro na investigação de novos hidratantes e cremes anti-rugas. Fingimos que somos sensíveis a estes problemas, dizemos "que horror", mas a verdade é que só nos preocupamos com o aspecto físico. Só.
Todos os dias surgem produtos novos. E a cosmética chegou a um novo extremo que... Eu espero que fiquemos por aqui. A sério. Acho que não vale a pena continuarmos mais. Vejam o caso dos transplantes de cara. Transplantes de cara! Já se fazem. Fizeram o primeiro em França há uns anos atrás. Dizem que correu bem, com a excepção da senhora parecer uma mistura de monstro de Frankenstein com poodle.
Resultados faciais à parte, isto preocupa-me bastante. E é engraçado quando pensamos nisto da evolução. Vejam bem: antigamente, não se gostava do nariz, fazia-se uma operação plástica; a cor dos olhos não agrada, põem-se lentes de contacto coloridas; os lábios eram muito finos, vai de botox pras beiças. E a coisa mudava. Agora pode-se mudar a cara toda.
Quem é que tem a ganhar com isto? Consigo pensar em dois óptimos clientes: pessoal com dívidas ao fisco e criminosos.
Há um assalto, a polícia investiga e vai ter à casa do suspeito.
"Você foi visto a assaltar uma loja. Temos aqui uma foto como prova."
E o gajo: "Esse não sou eu. Não se vê logo pela cara?"
"Tem toda a razão. Peço imenso desculpa."
Por fim, uma pergunta pertinente: Será que isto da beleza também acontece com os orgãos internos? Será possível, um sujeito ir ao médico e dizer, "Doutor, o meu intestino é demasiado delgado. Não dá pra arranjar um assim mais esguio?"

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