27/05/11

TERMINUS 246: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA #3: UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

Desde tenra idade que sempre quis ter um cão. O problema era que não tinha espaço para ter um cão em casa. Conclui, por isso, que era melhor arranjar um aquário e comprar um peixe. Mas, por muito que tentasse, eu não me conseguia habituar ao peixe. Não é que eu não gostasse do peixe, que gostava, mas continuava a querer ter um cão. Olhava para o aquário e pensava em tudo o que poderia fazer com um cão e que nunca iria conseguir fazer com aquele peixe. Em primeiro lugar, não lhe podia chamar Bóbi ou Snoopy. Se esses nomes, apesar de cliché, são habituais em cães, são também exclusivo da espécie canina. Não que isso me tenha impedido...
Sim. É isso mesmo que estão a pensar. O meu peixe chamava-se Bidu. E não fiquei por aí. Se tivesse sido só o nome, ainda vá. Eu queria ter um cão e era isso que ia ter. De tal modo que cheguei mesmo a experimentar tratar o peixe como se fosse um cão, mas o resultado não foi dos melhores.
Primeiro tirei–o do aquário. Ele começou aos saltos, devia ser de estar cá fora pela primeira vez. Estava contente, o malandro. Até dava gosto ver aqueles olhinhos todos esbugalhados de alegria. Às tantas o bicho não parava quieto e eu vi–me obrigado a usar da minha autoridade de dono e mandei–o parar. Por fim, ele lá se acalmou e comecei a pedir–lhe para dar a pata ou, neste caso, a barbatana.
Dá a barbatana, Bidu! Bidu, dá a barbatana!”
Foi então que descobri, com alguma desilusão, que o Bidu tinha adormecido e não queria brincar mais comigo. Aborrecido, voltei a pô-lo no aquário. Foi aí que eu me apercebi: se calhar o que ele precisa era de espaço. Com esta nova suposição em mente, resolvi levar o Bidu a passear ao parque. Pus–lhe um fio de costura à volta da zona do pescoço para que ele não fugisse e atirei um pau para ele ir buscar.
Era escusado. Sacana do peixe mal se esforçava para compreender o meu ponto de vista. De repente, apareceu um gato. E eu pensei cá para comigo:
É agora.”
Peguei no peixe, abanei–o bem e disse–lhe:
Olha o gato! Olha o gato! Vai ao gato! Vai!”
Percebendo que o meu Bidu não teria pujança para dar cabo do gato apenas pelos seus próprios meios, peguei na minha fisga, coloquei o peixe lá, apontei e... zás! O meu Bidu foi lançado em direcção ao gato e eu fiquei a ver, esperando que a Natureza fizesse o seu dever.
Pois sabem o que é que aconteceu depois?
O gato comeu–me o peixe. Fiquei todo lixado, até que me apercebi duma coisa: se calhar, um gato era capaz de aprender a ser um cão melhor do que um peixe. E resultou. Hoje em dia, o meu Piloto pode cuspir uma bola de pelo de vez em quando, mas levanta a patinha sempre que precisa de ir à casa de banho.

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