30/06/11

TERMINUS 260: TERCEIRA IDADE DE TERCEIRA

Um estudo concluiu que a generalidade da população prefere ser trancada numa jaula com gralhas do que andar num autocarro cheio de velhas eufóricas, acabadinhas de sair dum concerto do Marco Paulo. Não percebo a viabilidade deste estudo. Qual é a diferença entre uma situação e outra? Tirando o facto das gralhas serem bichos mais sossegados, não sei.
Para mim, os velhos que viajam no autocarro, no banco atrás de nós, são a nossa voz da consciência. Quando os oiço fico sempre consciente que ainda falta muito para o fim da viagem.
O pior é que um dia eu também me vou sentar ali. Eu vou-me sentar no banco de trás. Eu vou ser a voz da consciência de alguém. É o momento pelo qual todos ansiamos: a reforma! Ah! Que ansiedade! Deixamos de trabalhar e podemos gozar os últimos anos de vida!
Mas quais últimos anos? São dias, semanas, no máximo meses! Não são anos! A não ser que sejamos políticos. Bastam dois mandatos, dez anos no máximo e lá vem uma reforma cheia de regalias. Quem trabalha a sério é que sabe. E... "gozar a reforma"?
Que gozo se pode ter com 60 e tal anos, quase 70? O que se vê mais por aí são velhos no engate, a andar atrás de gajas; velhos na má vida, por assim dizer. Os adolescentes passam por eles e abanam a cabeça.
"Vão mas é trabalhar. Estes velhos só sabem é gozar a vida."
A reforma não é para os reformados, para os verdadeiros reformados, aqueles que trabalharam, não é para eles gozarem a vida; é o último gozo do Estado. Goza com o pessoal enquanto trabalha e quando o pessoal está com os pés prá cova, manda-os embora e diz: "Vá, vão curtir a vida!"
Os políticos reformam-se mais cedo. Têm direito à reforma antecipada. Será que existe uma reforma atrasada? Há pessoas que começam a trabalhar antes da idade legal; porque não reformarem-se depois? Porque as há. Há pessoas que não conseguem largar o trabalho. Podem obrigá-las, podem processá-las; não adianta, elas continuam.
"Eu ainda consigo."
Não desistem por muito que seja altura de o fazerem.
Eu não tenho que me preocupar com isto. Felizmente. Ainda sou um rapaz novo, mas hei-de chegar a velho. Tenho até um pequeno desejo, um último desejo que é viver até aos 100 anos. Não é por nada. É só para ver se a Segurança Social está preparada para uma situação destas. É que, normalmente, as pessoas reformam-se entre os 65 e os 70, vivem mais um ou dois anos e depois morrem.
Quando conseguem chegar aos 70, é um caso raro. Aos 80, o caso começa a tornar-se preocupante, são feitos os primeiros contactos com assassinos particulares. Aos 90, começa a haver escassez de fundos, é feito um orçamento. E aos 100?
Aos 100, imagino-me internado num hospital, ligado a uma máquina. Algures num gabinete secreto, um membro do governo dá ordem para avançar. Horas depois, uma equipa de ninjas, vinda de helicóptero, invade o meu quarto pela janela e corta-me às fatias com as suas katanas. Zás! Ou isso ou enfermeiras subornadas injectam-me uma dose tripla de morfina. Qualquer coisa para aliviar a sobrecarga da Segurança Social.

27/06/11

TERMINUS 259: CHAMADAS PARA AS URGÊNCIAS

Para começar, duas questões. Primeira: as chamadas de emergência são pagas? Não sei. O 0800 eu tenho a certeza que é grátis, o 112 não sei. Sei que dá para fazermos uma chamada quando não temos saldo, mas quem me diz que o dinheiro dessa chamada não é descontado assim que fazemos um carregamento? Outra: o que é uma urgência? Quando uma mulher está com seis meses de gravidez e às quatro da manhã apetece-lhe gelado de rúcula, como é que o homem se desenrasca? Isso é urgência, mas para eles não.
Estou-me a desviar do tema. Já volto a isto. Primeiro o preço. Não interessa se é grátis ou não. O mais certo é ser a pagar. Isto porque a pensar no novo sistema de filtragem de chamadas que estão a instalar, ou que já instalaram, vão precisar de pessoal para analisar a dialéctica, a metafísica, a síntaxe, etc. E isso sai caro.
Inquéritos para avaliar veracidade e estabelecer prioridades. É o que se quer fazer e em parte é pelo que eu escrevi há pouco. Nunca tive que ligar por causa de desejos de uma mulher grávida, isso cada um que se desenrasque, mas já liguei para pedir uma grade de minis. Pumba! Queixa crime em cima! Não é urgência. Não é urgência?! Sete gajos lá em casa para ver o jogo e só havia uma grade e estava tudo fechado e não é urgência? O quê? É só para os aleijados?
Um polígrafo por telefone. Fazia mais falta isso. Quantas vezes é que um operador do 112 terá pensado, “Este tipo 'tá-me a querer dar a tanga e eu a ver.” Mas ficava-se pelas pragas. Não tinha como saber quem mentia.
Até agora.
Mas eu já lhe disse! O meu marido caiu e não consegue respirar!”
Pois, já disse. E como é que eu sei que isso é verdade?”
Eu juro por tudo o que é mais sagrado--”
Bom, leve lá o telefone até ele para eu ouvir a respiração.”
(...)
Ó minha senhora, eu assim não oiço nada. Importa-se de parar com esse arfar?”
É o meu marido!”
Então diga a ele para parar! Assim não oiço nada!”
O meu marido não consegue respirar!”
E ela a dar-lhe com o marido! Oiça lá, esse telemóvel tem câmara?”
Isto não é telemóvel, é telefone.”
Mais essa. Não tem ninguém que tenha telemóvel com câmara?”
O meu mais novo tem, mas ele mora longe.”
Não tem importância, eu espero. Vai ter com ele, pede-lhe o telemóvel emprestado e filma o seu marido a estrebuchar. Envia o vídeo por MMS e nós enviamos a ambulância.
Mas isso assim fica muito caro!”
Então é porque não é uma coisa assim tão urgente! Apanhei-a!”
Mas apanhou o quê? Você é que está apanhado! O meu marido está prestes a morrer e você está aí com parvoíces?”
Se é assim deixe-me avisá-la que, caso o seu marido morra mesmo, agradecia que me ligasse novamente a cancelar o pedido de ambulância. Agora com as Urgências, as Maternidades e os SAPs, tudo a fechar, há muita gente à espera de uma ambulância. Muito obrigado e tenha um resto de dia bem passado.”
CLIC!

24/06/11

TERMINUS 258: PELA REVISÃO DOS DITADOS POPULARES

O mal de Portugal são os ditados populares. Influenciados por esses saberes antigos, planeamos e agimos de forma errada. Quão diferentes seriam as nossas vidas, o nosso país, se em vez de ditados como Devagar se vai ao longe ou A pressa é inimiga da perfeição, tivéssemos, por exemplo, Quem chega no fim come restos ou Vem devagar e depois queixa-te que és o último?
Vem isto a propósito do Cartão do Cidadão. De acordo com testes realizados na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, chegou-se à conclusão que esse moderno e prático documento não confere ao seu titular a segurança que é exigida a um documento do género. Não se trata de duplicar o cartão fisicamente (essa parte, até ver, está salvaguardada), trata-se da possibilidade de clonar os seus dados por via electrónica.
Ou seja. O Cartão do Cidadão dispõe de dois tipos de informação: a que está registada no plástico, como o nome, data de nascimento, etc. e a que está registada no chip, cuja leitura só pode ser feita através de um aparelho de custo acessível que todos os serviços dispõem. O portador do Cartão do Cidadão pode ainda aceder aos sites dos organismos públicos e tratar do que tiver a tratar a partir de casa.
Qual é o problema? Parece que os sites estão protegidos e o cartão também, mas se o computador estiver vulnerável a viroses, aí é que é o bom e o bonito. Se o nosso Magalhães não tiver as vacinas em dia, corremos o risco de alguém copiar o nosso PIN ou a nossa assinatura electrónica e fazer-se passar por nós. Pessoalmente, não me preocupo muito com isso, uma vez que há dias em que eu próprio não quero ser eu e não estou a ver qual é o fétiche de alguém se passar por mim. No entanto, há muita gente em risco e é preciso encontrar uma forma de proteger melhor os dados registados no chip.
Francisco Rente, o investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra que apurou estas falhas de segurança, diz que já alertou a Agência para a Modernização Administrativa, durante um seminário técnico sobre o cartão do cidadão. O alerta foi dado em 2007, estamos em 2011, e nada foi feito para resolver o problema.
Concordo com Francisco Rente em tudo o que ele apontou sobre esta matéria, mas discordo dele num aspecto em particular. Diz ele que é necessário e urgente resolver este problema. Necessário sim, urgente discordo. Estamos a falar dum problema que afecta muitas pessoas e muitas famílias; é para fazer com calma, não é às três pancadas. Quatro anos mal chega para fazer um estudo sobre a matéria, analisar os dados, efectuar um inquérito para apurar responsabilidades e traçar uma metodologia que permita verificar as incompatibilidades existentes nas diversas plataformas de acesso, quanto mais fazer alguma coisa que se veja.
Porque é que eu digo que o mal de Portugal são os ditados populares? É que tanto eu, como eles, insistimos no prolongamento do problema. A diferença é que eu faço isso como recurso e eles fazem-no porque é isso que determinam. Fosse a tradição outra, fossem os ditados outros, e não só estaria Francisco Rente mais compatível com os padrões de estar e agir do português, como já estaria o problema resolvido.

21/06/11

TERMINUS 257: CENAS DE CAFÉ

Uma coisa engraçada sobre as gorjetas é o facto de as únicas pessoas que têm direito a ela serem aquelas que nos servem café ou as que nos carregam as malas. Existem muitas profissões que deviam ter direito a receber gorjeta, mas, por razões desconhecidas, não é isso que acontece.
Se estivermos num hospital, algures entre a vida e a morte, à espera duma transfusão quase impossível de obter porque o nosso tipo de sangue só existe numa em cada dez pessoas, nós não damos uma gorjeta se o médico nos salvar a vida; nem tão pouco agradecemos ao tipo que nos deu o sangue dele. Essa pessoa é-nos completamente desconhecida mas, mesmo que fosse conhecida, não teria mais importância que um empregado de mesa ou um taxista.
Dito isto, já repararam na cara dos empregados quando vamos pagar o café e só temos uma nota de 50 euros? Um café custa em média 55 cêntimos. E nós só temos 50 euros. E depois? Qual é o problema?
Eu acho que não é nenhum. Mas para eles não. Eles ficam sempre a olhar com uma cara que até parece que estamos a fazer alguma coisa de mal. Nós estamos a pagar! É isso que estamos a fazer! A pagar! Isso é errado? Há pessoas que pedem desculpa! Quando vão para pagar o café e não têm dinheiro certo, quase que se ajoelham.
Peço imensa desculpa. Só tenho esta nota. Não posso gastar mais que este dinheiro. Por favor, perdoe-me. É só hoje. Não volta a acontecer. Prometo. Por favor, não me flagele.”
O que é isto?! Por acaso, pensam que estão a tirar dinheiro? Não estão! O dinheiro do troco é vosso! Vosso! Não é deles!
Outra situação que também acontece quando pedimos um café é a seguinte. Vamos supor que o café custa 50 cêntimos, só para o exemplo funcionar. O café vem, eu bebo o café, tranquilo da vida. Acabo de beber o café, tiro uma moeda de 50 cêntimos do bolso e coloco-a em cima do balcão.
O que é que o empregado diz?
É pra pagar o café?”
O que é que eu respondo?
Não. 'Tou só a pôr a moeda em contacto com o ar. É pra ver se ela cresce. 'Tou à espera que se transforme numa nota de 50 euros.
Depois abano a moeda.
'Tá quase. Já faltou mais.”
Há outros, mais inteligentes, que ainda perguntam:
É só pra pagar o café?”
Eu não sei o que é que se passa lá nos bastidores, mas eu quando vou a algum estabelecimento comercial e dou dinheiro certo para pagar um produto, é porque não quero pagar mais nada além disso.

18/06/11

TERMINUS 256: O PORQUÊ DO EMPRÉSTIMO AOS BANCOS

Quando se discutiu o último Orçamento de Estado, houve quem achasse suspeito os encontros que os presidentes dos principais bancos privados portugueses tiveram, à vez, com José Sócrates e Passos Coelho. Quando ainda não falava da vinda do FMI para Portugal, muitos questionaram as tomadas de posição dos senhores dos bancos de não terem capacidade de ajudar o Estado português, após terem anunciado um forte crescimento dos seus lucros. Quando se negociava o acordo com a troika e estes senhores foram beneficiados com 12 mil dos 78 mil milhões de euros de empréstimo, muitos questionaram a justiça de tal medida. Durante muito tempo, estas questões têm permanecido sem resposta. Até hoje.
Consideremos, em primeiro lugar, o porquê do empréstimo aos bancos. A lógica dita que, para emprestarem dinheiro, os bancos precisam de o ter primeiro. Ora, como os lucros dos principais bancos portugueses cresceram muito no último ano, é mais que evidente a falta de capital financeiro de que dispõem. Portanto, como deixaram de ganhar alguns milhões para passar a ganhar muitos milhões, as troikas acharam que era preciso ajudar estas carentes entidades empresariais e resolveram dar-lhes alguns milhõezitos para se governarem.
Atendido o problema da falta de dinheiro dos bancos portugueses, estes ficaram em condições de fazer empréstimos a quem pedisse. O problema é que o banco para fazer um empréstimo precisa de ter garantias mínimas de retorno; caso contrário, não é um empréstimo, é uma oferta. Uma vez que se prevê o congelamento do salário mínimo, o aumento do IVA, o aumento do custo de vida, a facilitação do despedimento e o crescimento do desemprego, tenho algumas dúvidas que sobre muita gente com capacidade financeira de contrair um empréstimo. O que acontecerá a esse dinheiro então?
Não existem dúvidas de quem vai pagar os juros do empréstimo feito pela troika, seja da parte que foi para o Estado, seja da parte que foi para os bancos: é o mesmo otário que vai pagar ainda mais juros caso consiga contrair um empréstimo bancário. Também não existem dúvidas quanto à injustiça desta medida, bem como à necessidade de aplicação da mesma.
Segundo notícias publicadas esta semana, o Banco de Portugal emitiu uma nota de recomendação para que os bancos passassem a carregar os multibancos com menos dinheiro. Diz a nota que é para combater os constantes assaltos, mas não é só disso que se trata.
Já estive muitas vezes na fila para levantar dinheiro no multibanco e ter no início da fila uma daquelas bestas que leva para lá uma repartição de pagamentos. Sou daqueles retrógados que acha que uma hora a pôr cartão, marcar código, fazer operação, verificar talão, verificar saldo, verificar movimentos de conta, trocar cartão, marcar código e repetir operação durante mais de uma hora é um bocadinho demasiado. Por vezes, passa-me pela cabeça a ideia de abandonar a fila e me dirigir ao balcão de atendimento que está vazio para efectuar aí o levantamento. Porém, antes de fazer isso, resolvo fazer uma trepanação e a ideia deixa de fazer sentido. Pagar para levantar dinheiro? Não me parece.
Menos dinheiro nos multibancos significa que as caixas vão ficar vazias mais depressa. Significa também que haverá quem opte por fazer levantamentos mais avultados e outros por ter a carteira a criar bicho. Os primeiros serão fáceis de identificar, uma vez que terão um ar desconfiado de tudo e de todos; os segundos, em maior número, correrão menos riscos de serem assaltados. Houve quem falasse que o empréstimo aos bancos era uma vergonhosa rapinagem quando, na verdade, era uma eficaz medida de combate ao crime.
As pessoas andarão com (ainda) menos dinheiro no bolso e não haverá razão para serem assaltadas. Os bancos terão dinheiro ao seu dispor para investir nas empresas de que são accionistas e assim aumentar um pouco mais os seus lucros, de modo a que na eventualidade dum próximo empréstimo internacional estejam em condições de beneficiar de mais um pouco da caridade internacional.

17/06/11

TERMINUS 255: O QUE (AINDA) NÃO SABEMOS

Por esta altura pouco ou nada se sabe sobre o novo governo PSD/CDS-PP.
Sabe-se que conseguiram ultrapassar a sua primeira contenda, que tinha que ver com a estrutura do executivo. Era uma questão delicada e que foi resolvida atempadamente, embora nem tudo tenha ficado explicado. Passos queria 10 ministros e Portas queria 12 ministérios. O primeiro elemento de clivagem é óbvio: depois do que se passou com os sobreiros, Portas quer dois ministérios sem ministros para assim não haver ninguém para acusar de qualquer eventual irregularidade. É uma medida sábia, mas que Passos não gostou.
Outra coisa que já se sabe, o próximo ministro vai ser um independente, sem qualquer ligação partidária, que esteja a par do programa do PSD e que tenha representado o partido nas “negociações” com a troika (a assinatura era para ter sido feita com uma caneta Parker de ponta fina azul, mas este senhor conseguiu fazer prevalecer a sua opção de assinar com uma caneta Molin de cor preta) e que, para os que ainda não adivinharam, utilize a forma popular de pronunciar “pelos púbicos”. Ou então Vitor Bento.
Sabe-se também que Passos vai continuar a apoiar Fernando Nobre. Tivemos a confirmação desse apoio ainda ontem, durante a visita dos representantes dos partidos com assento parlamentar ao Palácio de Belém, quando Passos Coelho disse, “É uma matéria do foro parlamentar, não cabe ao futuro Governo estar a envolver-se na escolha do presidente da AR.”
Aqueles que apontam a inexperiência de Passos Coelho como um forte handicap governamental, têm aqui um grande argumento. Uma coisa é cumprir promessas eleitorais, outra coisa é apoiar Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República. Pode parecer, analisando as suas declarações de forma superficial, que Passos Coelho se está a descartar do apoio ao senhor da AMI; cabe a mim fazer a tão necessária análise mais aprofundada. É tão simples como isto: Passos Coelho é o presidente de qual partido? Qual foi o partido que conquistou mais votos e, em consequência, maior representatividade parlamentar? Quer isto dizer que Fernando Nobre vai mesmo ser eleito presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, capaz(?) de desempenhar funções de Presidente da República caso o senhor de Boliqueime dê um jeito às costas ao mudar a lâmpada da sua marquise? Esperemos que não. Esperemos que a inexperiência de Passos não ofusce a experiência dos demais deputados.
E daí... até pode ser interessante ter o senhor Fernando Nobre a dirigir o hemiciclo. Relembrando o caso do protocolo com Valter Lemos, seria engraçado ver situação idêntica ou semelhante a acontecer em sentido inverso. “Não, senhor presidente. Primeiro tem de me dar a palavra e só depois é que me manda calar. Não é antes.”
Agora que penso bem, ter Fernando Nobre como presidente da Assembleia da República é o primeiro passo para conseguir a tão discutida (sempre que há eleições) redução do número de deputados. Com Mota Amaral e Jaime Gama havia muitos deputados a dormir e o trabalho aparecia feito. Passos quer que a Assembleia seja presidida por alguém capaz de adormecer todo o parlamento e verificar se as coisas continuam a funcionar ou não. É uma medida arriscada, principalmente porque pode resultar.

16/06/11

TERMINUS 254: MARAVILHAS DE ANDAR EM TRANSPORTES PÚBLICOS

Sempre que viajo em transportes públicos tenho por hábito ouvir conversas alheias. Não é que eu goste, ou que eu queira, mas as pessoas falam tão alto que não tenho outro remédio senão ouvir. No outro dia vinham duas mulheres à minha frente a conversar. O assunto era o seguinte:
As pessoas hoje em dia falam tanto da vida umas das outras...”
Sim, são todas umas cuscas. Até fazem impressão.”
Até aqui nada de especial, estavam-me a atrapalhar a leitura, mas isso não era nada que não fosse normal. Até que houve uma delas que disse uma coisa que mudou por completo o rumo da conversa; algo que me ficou na memória. Ela disse e eu cito na íntegra:
Eu acho que isto devia estar dividido por secções. Devia haver uma secção para as pessoas que gostam de conversar e outra para as pessoas que gostam de ler.”
E a outra respondeu:
Sim, tem toda a razão.”
E eu disse “Então não seria mau pensado porem-se a andar daqui para fora.”

Não acharam piada, chamaram-me mal-educado e foram-se embora.

Ganhei’, pensei eu.

Mas estas não são as piores. As piores são aquelas que vão quietas, com o telemóvel nas mãos, sempre a olhar para o telemóvel. Depois recebem um toque. E ficam a olhar feitas parvas. Aquela porcaria a tocar e elas a olhar. Dá vontade dum gajo levantar-se e gritar “Atende essa porcaria!”

E depois quando atendem, das duas uma, ou é engano e voltam ao mesmo ou ficam a conversar a viagem toda. É nessas alturas que me apetece partir a janela e saltar dali pra fora.
Raios parta os toques. Porque é que quando ouvimos o telemóvel tocar nunca atendemos à primeira? Nunca sabemos se aquele toque, o mais estúpido que já se ouviu, se é mesmo o nosso.
O toque é igual ao meu, mas será que é mesmo?”
E quando finalmente resolvemos atender, a pessoa ao nosso lado atende. É frustrante. Porque mais uma vez vamos ter que percorrer a lista de toques do princípio ao fim em busca de um toque que ninguém use. Acho que é por isso que existem tantos toques estúpidos hoje em dia.
Mas isto era antes. Agora temos algo muito pior: música. Música em transportes públicos. Ou música em sítios públicos em geral. Mas agora fiquemos pelos transportes.
Quem anda neles, sabe do que eu estou a falar. Aquela musiquinha parva que não se percebe nada. Só a escolha é cinco estrelas e depois vem a qualidade do som. Lembram-se quando costumávamos ver os velhos na rua a ouvir o relato da bola? Aquele som todo fanhoso que não se percebia nada? A música nos transportes públicos é isto: uma estação mal sintonizada num aparelho de rádio desses antigos e a coluna apontada para um megafone ligado ao amplificador. Bela ideia, sim senhor. Não chegava ter de ouvir conversas parvas à nossa volta. Agora é mais esta.
E daqui partimos para música nos telemóveis. Quero dizer isto: EU NÃO QUERO OUVIR A VOSSA MÚSICA QUANDO VOU NA RUA! E não é por não gostar da música em si. É porque não se percebe nada. Eu gosto de música. E se há uma coisa em que eu acredito é que a Soraia Chaves só de pantufinhas fica um mimo. A outra é que música é para se ouvir com boa qualidade. Não é assim.
A minha vontade era pegar no sujeito que resolveu juntar as duas coisas, telemóveis e música, e enfiar-lhe um piano de cauda e um telefone dos antigos pelo esfíncter adentro.
Eh pá! Isso não que suja o telefone todo!”
Pois é! Ainda por cima há pessoas com toques muito giros.”
Deve haver. Eu próprio já ouvi. Mas são tão poucas! E cada vez menos...
Onde é que andam os toques simples? O que foi que lhes aconteceu? É raro nos dias de hoje o toque de telemóvel que não é uma música. São as boomboxs do século XXI. Portanto, temos a rádio do velho sintonizada na Renascença, dezenas de pessoas a ouvir música do telemóvel e... E querem que o pessoal ande mais de transportes públicos? Deve ser...

14/06/11

TERMINUS 253: SEGREDOS DO NEGÓCIO

Ser um mau exemplo, seja no que for, quando tantos deram tão bons contributos para o correcto desempenho de determinada actividade é algo que devia fazer corar de vergonha muita gente. Tolera-se a má televisão, a má educação, o mau desempenho, o péssimo empenho, mas há coisas que não se toleram. Ou não se deviam tolerar. Há limites!
Quando não há bons exemplos a seguir, é diferente. Estamos num campo novo, não sabemos o que andamos fazer, tudo bem. Mas há sectores onde é indesculpável qualquer prestação menos que perfeita. Um exemplo claro disso está no sector da lavagem de roupa, onde figuras como o actor Paulo Matos, ou a jornalista Manuela Moura Guedes conferiam a devida credibilidade a um sector tão competitivo.
Mas onde o escândalo é maior é no igualmente competitivo sector da lavagem de dinheiro. Aqui, é impossível não referir Oliveira e Costa, Dias Loureiro, João Rendeiro, Vale e Azevedo e tantos outros. Exemplos não faltam. Como é possível, então, termos tão má imagem lá fora no que concerne à lavagem de dinheiro que se faz por cá? Que homenagem estamos a prestar ao trabalho que estas pessoas fizeram?
Lembram-se das idas de Dias Loureiro e de Oliveira e Costa à comissão de inquérito (vulgo enrolanço) convocada a propósito do BPN? Houve quem achasse que esses senhores não se lembravam ou não tinham certeza ou ainda que não podiam afirmar de forma exacta porque estavam a tentar esconder o que tinham feito. Eu concordo que eles até estavam a tentar esconder qualquer coisa, mas não acho que fosse nada criminoso, e sim vergonha. Vergonha não do que fizeram, mas de verem os seus segredos de profissão escrutinados e dissecados de forma impiedosa, sem qualquer consideração pelos danos que isso poderia causar.
Recordo um programa que a SIC transmitiu aqui há tempos, em que vários truques de ilusionismo eram descontruídos até ao ponto em que um analfabeto funcional ou mesmo um assessor de secretário de Estado seria capaz de rivalizar com o Luís de Matos. O programa gerou alguma controvérsia junto da comunidade dos ilusionistas (deve haver, não sei) que se queixou dos problemas que poderiam advir para o sector a partir do momento em que pessoas não qualificadas começassem a praticar magia.
Revendo as imagens de Dias Loureiro e de Oliveira e Costa no Parlamento, já não consigo ver dois senhores com vergonha de terem sido apanhados. Nem tão pouco consigo ver dois senhores com vergonha de estarem a revelar algo muito íntimo. Apenas vejo dois homens tristes por saberem que aquilo que estão a contar vai ser utilizado por pessoas despreparadas, pessoas que vão dar mau nome a uma actividade tão franca. E isso deixa-me também triste.

11/06/11

TERMINUS 252: QUANDO O EXEMPLO VEM DE FORA

Embora faça parte daquela geração dos anos 80 e 90 para quem ir fazer compras a Espanha era todo um ritual revestido de secretismo e perigos, tenho de confessar que nunca viajei ao nosso país vizinho em modo clandestino. Para o bem e para o mal sou um tenrinho da época Schengen. Quer isto dizer que já fui a Espanha sim, mas não fui obrigado a viajar no porta-bagagem ou memorizar sequências infinitas de senha e contra-senha.
Estou só a repetir aquilo que o bêbado da rua me contou. Se alguma coisa não corresponder à verdade é a ele que se têm de queixar. Só não o façam se ele estiver com a camisola verde e o chapéu de alumínio.
Seja como for, hoje em dia, não só atravessamos a Europa quase duma ponta à outra apenas com o B.I, ou o Cartão de Cidadão para os mais modernos (sempre conseguiram votar no dia 5?), como podemos comprar tudo o que quiseremos sem levantar o rabo do sofá. O mundo está à distância dum clique e isso facilitou muita coisa, embora nem todas sejam boas.
Há dois anos foi noticiada a descoberta duma base da ETA na zona das Caldas da Rainha. Apesar das evidências, a notícia foi desmentida pelas autoridades portuguesas. Em muitos casos é indiscutível que as nossas autoridades procederam mal: este não é um deles. Sim, estava lá material para fazer explosivos, bastante dinheiro, telemóveis, armas e munição. Para as autoridades espanholas era uma base da ETA, para as autoridades portuguesas, e para mim, era uma arrecadação.
Sucede que, é raro mas acontece, eu estava errado e a ETA tem mesmo uma base em território português. Tomemos uns instantes para nos congratularmos pelo trabalho que fizemos Podemos ser maus em muita coisa, mas somos óptimos anfitriãos. É pena a coisa só ter sido descoberta agora, mas mais vale tarde que nunca.
Ao que parece, em Setembro de 2009, portanto, ao mesmo tempo que as autoridades portuguesas negavam a presença da ETA em Portugal, um membro dessa organização servia-se duma identidade falsa para ir à repartição das Finanças de Chaves e tratar do cartão de contribuinte. Isto é vergonhoso! Receber lições de moral de estrangeiros já é mau, recebê-las de terroristas é inqualificável. É quase o mesmo que a Elsa Raposo a dar conselhos sobre promiscuidade.
Perante este exemplo que moral temos nós para fugir aos impostos se os terroristas fazem tudo para ter a sua situação fiscal regularizada? Qual era o português que de livre vontade iria tratar do cartão de contribuinte? Tomara muitos não o terem. Se fosse um português, quanto muito falsificava um Master Card ou um Visa. O pessoal da ETA não vai por aí. São terroristas, fazem bombas, matam pessoas, só que sabem bem que tudo isso é desvalorizado quando comparado com a fuga aos impostos. Lembrem-se como é que apanharam o Al Capone. Eles são bascos, mas não são parvos.

08/06/11

TERMINUS 251: VAI UMA SALADINHA?

Ontem ao jantar comi uma salada de pepino e continuo aqui. Por acaso até foi frango, mas tenho quase a certeza que o resultado seria o mesmo. Vamos lá a saber: que raio de mariquinhas são vocês para deixarem de comprar legumes portugueses? Desde que começou esta história da bactéria que os produtores nacionais se queixam da falta de vendas. Quinhentas toneladas de legumes são deitadas fora todos os dias porque ficou tudo com o rabinho apertado. Porquê?
Pensem um pouco antes de entrarem em pânico! Os alemães começaram por dizer que a culpa era dos pepinos espanhóis e a coisa pegou bem. Até se descobrir que a maioria dos infectados era alemão, tinha estado na Alemanha ou consumira produtos de origem alemã. Espanha e Alemanha. Quem é que falou em Portugal? Foram tantos anos a ouvir dizer que Portugal era uma província de Espanha que até já nem sabem em que país estão?
A Ministra da Agricultura espanhola vai exigir uma indemnização à Alemanha pelos danos causados. Não seria mal pensado nós fazermos o mesmo. Afinal de contas, também estamos a ter prejuízo com esta história. O problema é que, ao contrário de Espanha, nós só estamos a ter prejuízo porque temos uns media que exarcebam e um povo que reage sem pensar. Sim, foi isso mesmo que leram. Insultei-vos, para ver se abrem os olhos.
Não ponho de parte a hipótese de isto ser o último estratagema do governo Sócrates para reduzir o valor da dívida da troika, nomeadamente a parte que os alemães emprestaram. Se o argumento utlizado for qualquer coisa como “Espanha e Portugal são como gémeos siameses, o que afecta um afecta o outro”, pode ser que a coisa pegue. Tenho as minhas dúvidas. Por outro lado, seja a propagação do problema feita por alemães ou portugueses, é inegável que o problema existe. E isso remete-me para a próxima questão: de onde surgiu o problema? Não é preciso pensar muito para descobrir.
Quais são as medidas recomendadas para evitar contaminação? Lavar muito bem os legumes e lavar muito bem as mãos antes e depois de manusear os legumes. E quando se diz lavar muito bem as mãos não se está a falar de água e sabão apenas. Lembram-se do desinfectante para as mãos que foi vendido o ano passado por causa da constipação dos porcos? Vendeu-se muito, não foi? Pois, mas parece que não se vendeu tanto quanto se esperava. Muitas lojas, farmácias e grandes superfícies ficaram com stocks enormes de desinfectante para as mãos e não foi só em Portugal. Era mais do que certo que não tardaria a aparecer o próximo surto. Respiremos de alívio por ter sido a bactéria do pepino e não a febre das borboletas.

05/06/11

TERMINUS 250: DA CAMPANHA E DOUTRAS COISAS

Existe uma pergunta que grasa pela cabeça de muitos portugueses: para quê uma campanha eleitoral? Eu sei que estamos em época de eleições, mas o que é que isso tem a ver? Não, não tem nada a ver com aquela história de ganharem sempre os mesmos. Passo a explicar.
Numa qualquer campanha temos os vários partidos políticos a apresentarem os seus diferentes (ou não assim tão diferentes) programas eleitorais. Os portugueses fazem a sua escolha e o partido com mais votos (ou melhores condições) é convidado pelo Presidente da República a formar Governo. Duma forma simples (talvez simplista) é isto que acontece.
Na prática, não há grandes diferenças entre ganhar o senhor licenciado ao Domingo e o senhor licenciado aos 37. O problema é aquele papelito que anda por aí a circular. Sejamos sinceros. O memorando da troika pode não ser um programa de Governo, mas anda lá perto. Imaginem que, em vez do memorando, a troika entregava-nos uma série de ingredientes – legumes, ovos, leite, carne, peixe, açúcar, etc. - e mandava-nos fazer um bolo de chocolate. Há várias maneiras de fazer um bolo de chocolate, mas são poucas as hipóteses de divergir do memorando.
Tenho andado a pensar nisto e estou indeciso quanto à sua aplicação. Não recuso a necessidade de maior rigo e controlo do erário público, embora não me pareça que sejam os funcionários que levam canetas para casa ou aqueles que tiram fotocópias no serviço os grandes responsáveis. Até aceito que algumas das medidas sejam tomadas porque não há outra hipótese. O que me incomoda é a falta de consequências. Eu aceitaria que o processo de despedimento individual fosse facilitado, se o Estado desse o exemplo e, a começar por si, acabasse com os falsos recibos verdes. Por exemplo.
O PS, o PSD e o CDS ora divergem, ora convergem em relação às medidas previstas no memorando. Consoante os dividendos que daí possam tirar, a coisa é boa ou má e eu acho isso bonito. Acho bonito que José Sócrates antes gostasse de dançar com Passos Coelho e agora quase que não se podem ver. Paulo Portas, que em tempos fartou-se de dizer a José Sócrates para se demitir, é elogiado pelo próprio José Sócrates pela sua postura. Falta contexto aqui, eu sei. Azar. Também falta muito contexto na campanha e não é isso que os pára.
A conivência entre estre trio faz-me sentir uma sardinha. Cada um discute que parte do meu corpo quer, mas todos querem ferrar o dente. Posso fazer a observação de outra maneira: o CDS já esteve coligado com o PS e com o PSD. Haverão assim tão grandes diferenças entre estes três partidos? É uma resposta que não é fácil.
O Governo que nos calhar (ou já calhou, conforme o dia e a hora em que leia isto), concorde ou não com o acordo, terá que respeitá-lo. No fundo é um empréstimo como qualquer outro. Com a diferença que fomos apontados como fiadores sem termos tido voto na matéria. A verdade é esta. As eleições são uma mera formalidade.
Uma nota final: Gabriela Canavilhas não aprovou as verbas destinadas ao FICA por estar em governo de gestão. Eis o que deviam ter dito a José Sócrates antes de ele ter chamado o FMI. E assim já se teria justificado a campanha.

03/06/11

TERMINUS 249: PURA E SIMPLES IMPLICÂNCIA

A pouco tempo do final da campanha para as Legislativas 2011, vale a pena olhar para o novato e troçar das suas propostas e das suas declarações. Pedrito, não é nada contra ti meu querido. Acredita que se o Louçã ou o Jerónimo ou o Paulinho ou o Zé fossem os estreantes, eu troçaria deles da mesma maneira que vou troçar de ti. E repara também como eu digo troçar e não gozar, prova de que embora faça uma crítica mordaz, ela é também inteligente ao invés de idiota.
Pronto, a primeira lição foi grátes. Não vás directo ao assunto. Enrola. Queimas tempo. Vamos às declarações? 'Bora.
A esperança vai vencer o medo”, frase dita a 25 de Maio na Guarda. Diz-me uma coisa, Pedrito. Qual foi o partido que chumbou o PEC IV por ser exigente demais e que no dia seguinte afirmou que tinha vetado esse documento por ser exigente de menos? Isso também assusta as pessoas. Entre os que saem e os que querem entrar, só muda a cor adicional.
O Governo quer “lançar o medo” porque não consegue fazer a “mudança”? E que mudança é essa, meu estimado líder dum partido que, tal como o partido do Governo, concordou com as medidas da troika? Mais uma vez, falho em ver essa tal mudança.
Ainda no mesmo dia, e no mesmo local, Passos Coelho prometeu criar um site para tornar públicas todas as nomeações. Não terás querido dizer, criar um site para tornar todas as nomeações públicas? Ou, porventura, um site para todas as nomeações, mas as públicas? É muito bonito quereres nomear as pessoas apenas com base no mérito e na competências, mas lembra-te que precisas de pessoas para trabalhar. Se te orientares apenas por esses critérios, como é que vai ser a tua vida?
Outra coisa. Quando puderes, sem pressa, explicas aos portugueses a diferença entre ser nomeado, indicado ou apontado para um cargo. Aqui vai uma dica para te poupar o trabalho. O Ricardo (nome fictício) é nomeado, o Troll é indicado e aquele é apontado.
Antes de passar na Guarda, Passos Coelho esteve em Gouveia onde disse que não está “pensado” nenhum agravamento dos impostos sobre os combustíveis. O que me tranquiliza tanto como “não estão em causa os despedimentos.” Não. Atenção à frase: Há cafés para toda a gente? Sim. Os cafés não estão em causa. Agora troca os cafés por despedimentos. Vês?
Mas a frase em concreto foi sobre os combustíveis e há algo nela que revela um descuido preocupante. No caso de não saberes, existe uma diferença entre dizer que não se vai fazer e não se pensou em fazer. Nota que, apesar de sabermos que é peta, a primeira dá-nos mais segurança porque é uma afirmação – não se vai fazer – enquanto que a segunda suscita algumas dúvidas. Quando alguém diz que ainda não pensou em fazer algo, isso significa que ou vai pensar em fazer ou vai fazer sem pensar.
Em que é que ficamos?

02/06/11

TERMINUS 248: A TROIKA E O DESEMPREGO

Quando tudo parece mau, quando olhamos à nossa volta e nada do que vemos nos anima, é sempre bom receber mensagens tranquilizadoras de pessoas de séria referência. Estou a um mês de fazer parte das estatísticas do desemprego e, tendo em conta a actual situação do país e as dificuldades crescentes para conseguir trabalho (já nem digo emprego), teria todas as razões para entrar em pânico. Felizmente para o meu espírito, a ministra do Trabalho, Helena André, assegurou publicamente que o acordo com a troika aumenta a protecção aos trabalhadores. Posso ficar descansado. Vindo de quem vem.
Ouvindo isto e olhando para o documento, a coisa até promete. O problema é que... Recuemos cento e dois anos. Enquanto não passava duma força clandestina, o Partido Republicano Português prometia Educação para todos, fossem ricos ou pobres. Chegados ao poder, tentaram dar início a esse projecto. Pode-se dizer que cometeram um retrocesso ao acabar com as escolas dos jesuítas, mas isso é outra história.
O ponto a considerar aqui é a diferença entre aquilo que os republicanos intentavam fazer e aquilo que conseguiram realmente fazer. Como em tudo na vida, há que fazer a necessária separação entre aquilo que não se faz porque não se pode ou não se consegue fazer e aquilo que não se faz porque não se quer fazer.
Graças à lei de 30 de Março de 1911, o ensino público passava a ser gratuito. No entanto, como saber ler ou escrever não mata a fome, muitas famílias continuavam a enviar os seus filhos trabalhar. Este cenário não é assim tão antigo. Quem não o viveu, de certeza que conhece alguém que passou por isto.
No fundo, o que eu pretendo dizer com isto é que, pode haver um fundo de verdade e de boas intenções no que diz a ministra Helena André. Só depende do ponto de vista. Do ponto de vista de alguém que pertence a um governo demissionário e que pretende salvaguardar o seu cargo, seja no Governo ou numa empresa associada, faz todo o sentido positivar as medidas da troika para que o PS seja reeleito. Do meu ponto de vista, como alguém que está prestes a ficar sem trabalho, só consigo ler aquela parte relativa à facilitação do despedimento individual. É a velha história do copo meio vazio ou meio cheio, com a diferença de muitos já não terem copo sequer.