05/06/11

TERMINUS 250: DA CAMPANHA E DOUTRAS COISAS

Existe uma pergunta que grasa pela cabeça de muitos portugueses: para quê uma campanha eleitoral? Eu sei que estamos em época de eleições, mas o que é que isso tem a ver? Não, não tem nada a ver com aquela história de ganharem sempre os mesmos. Passo a explicar.
Numa qualquer campanha temos os vários partidos políticos a apresentarem os seus diferentes (ou não assim tão diferentes) programas eleitorais. Os portugueses fazem a sua escolha e o partido com mais votos (ou melhores condições) é convidado pelo Presidente da República a formar Governo. Duma forma simples (talvez simplista) é isto que acontece.
Na prática, não há grandes diferenças entre ganhar o senhor licenciado ao Domingo e o senhor licenciado aos 37. O problema é aquele papelito que anda por aí a circular. Sejamos sinceros. O memorando da troika pode não ser um programa de Governo, mas anda lá perto. Imaginem que, em vez do memorando, a troika entregava-nos uma série de ingredientes – legumes, ovos, leite, carne, peixe, açúcar, etc. - e mandava-nos fazer um bolo de chocolate. Há várias maneiras de fazer um bolo de chocolate, mas são poucas as hipóteses de divergir do memorando.
Tenho andado a pensar nisto e estou indeciso quanto à sua aplicação. Não recuso a necessidade de maior rigo e controlo do erário público, embora não me pareça que sejam os funcionários que levam canetas para casa ou aqueles que tiram fotocópias no serviço os grandes responsáveis. Até aceito que algumas das medidas sejam tomadas porque não há outra hipótese. O que me incomoda é a falta de consequências. Eu aceitaria que o processo de despedimento individual fosse facilitado, se o Estado desse o exemplo e, a começar por si, acabasse com os falsos recibos verdes. Por exemplo.
O PS, o PSD e o CDS ora divergem, ora convergem em relação às medidas previstas no memorando. Consoante os dividendos que daí possam tirar, a coisa é boa ou má e eu acho isso bonito. Acho bonito que José Sócrates antes gostasse de dançar com Passos Coelho e agora quase que não se podem ver. Paulo Portas, que em tempos fartou-se de dizer a José Sócrates para se demitir, é elogiado pelo próprio José Sócrates pela sua postura. Falta contexto aqui, eu sei. Azar. Também falta muito contexto na campanha e não é isso que os pára.
A conivência entre estre trio faz-me sentir uma sardinha. Cada um discute que parte do meu corpo quer, mas todos querem ferrar o dente. Posso fazer a observação de outra maneira: o CDS já esteve coligado com o PS e com o PSD. Haverão assim tão grandes diferenças entre estes três partidos? É uma resposta que não é fácil.
O Governo que nos calhar (ou já calhou, conforme o dia e a hora em que leia isto), concorde ou não com o acordo, terá que respeitá-lo. No fundo é um empréstimo como qualquer outro. Com a diferença que fomos apontados como fiadores sem termos tido voto na matéria. A verdade é esta. As eleições são uma mera formalidade.
Uma nota final: Gabriela Canavilhas não aprovou as verbas destinadas ao FICA por estar em governo de gestão. Eis o que deviam ter dito a José Sócrates antes de ele ter chamado o FMI. E assim já se teria justificado a campanha.

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